José Luis Abellán – Juan David García Bacca, Um Grande Filósofo Independente

Proscênio Filosófico.

Que o Eco das Grandes Obras ressoe em vós!

Juan David García Bacca, Um Grande Filósofo Independente | José Luis Abellán

JUAN DAVID GARCÍA BACCA é quiçá a mente filosófica mais poderosa de todas as que o exílio há tido na América e uma das primeiras figuras da filosofia espanhola de todos os tempos. No que se refere a sua preparação intelectual haverá poucas pessoas que cheguem ao nível por ele alcançado. As conhecidas palavras de José Gaos a este respeito creio que são inevitáveis; ei elas aqui: “um saber que se estende desde as línguas clássicas e as vivas principais para as matemáticas e a física das mais altas e recentes, desde a filosofia e a teologia escolástica até o resto inteiro da história da filosofia. Um sentido da literatura e da arte que é frequentemente incompatível com o talento necessário para chegar a possuir saberes como os acabados de se mencionar. Uma capacidade filosófica cujas minas de ouro efetuam ficando consignadas. É um dom, um dom de escritor, não somente inusitado em geral entre homens de ciência e ainda entre filósofos, que são espécie intermédia entre aqueles e os homens de letras, senão, em semelhante grau, inclusive entre os últimos”. E o resultado de tudo isso é este autorizado juízo: “Desde que anda pela América leva publicados um conjunto de volumes que movem a pensar que “assume o risco” de ser o espanhol mais digno do nome, que é renome, de filósofo desde Suárez”.

E ainda com ele tenhamos em conta que o citado juízo de José Gaos foi feito público muito antes que aparecesse o livro mais importante de García Bacca – Metafísica Natural Estabilizada e Problemática Metafísica Espontânea -, que, a meu juízo, constitui um dos livros de filosofia mais importantes publicados durante este século, que não é precisamente solto em tal tipo de publicações, e, desde logo, um dos mais importantes que nunca hão aparecido em castelhano.

Pelo que se refere não já a sua preparação intelectual, senão ao labor realizado por ele, a nome de traduções, antologias, livros, que o leitor pode ver ao final destas páginas, nos dá já uma medida suficiente de sua fabulosa atividade. e isto sem tem ainda em conta os cursos, as conferências e artigos numerosíssimos deste espírito profundo e abarcador como poucos.

Uma das facetas mais interessantes é sua valoração da tendência hispânica do que fazer filosófico, de caráter um tanto literário. Em seu livro Introdução Literária a Filosofia, que, por certo, tinha na primeira edição o significativo título de Filosofia em Metáforas e Parábolas, nos mostra a profunda unidade dessas com diversos textos literários. Por último, na segunda parte do livro, uma análise de A Vida é Sonho (primeiro da comédia, depois do auto sacramental) nos põe de manifesta que a filosofia estrita pode também expressar-se em moldes literários, como parece ser a tendência espontânea de nossos pensadores; e, em consequência, a necessidade de assumir e integrar um tipo de pensamento filosófico afim ao comum dos povos hispanicos, pois há ficado fora da tradição oficial da filosofia.

Em íntima conexão com a revalorização anterior está, sem dúvida, o magnífico estilo literário de García Bacca. A qualidade de sua prosa alcança um dos graus mais altos entre os pensadores de língua espanhola. Aqui também as palavras de José Gaos podem servir de paradigma: “Singularmente – nos diz – se destaca e é de destacar a arte, ou quiçá, mais exatamente, o natural garbo com que Garcia Bacca sabe servir-se das expressões mais castiçais para fazer surpreendentemente plásticas as ideias, os filosofemas. García Bacca passará assim ao alcance dos maiores pensadores da língua espanhola que figuram ao par entre os mais grandes escritores da mesma”. Por demais, com ele da este pensador um mentís (definitiva extrapolação) definitiva da idéia comumente admitida de que o espanhol não é língua própria para a filosofia, adaptando-se melhor a expressão literária. E, embora ele mesmo se manifeste de acordo com semelhante ideia, sua Metafísica é uma refutação definitiva de tal expressão. Nesta adequação de nossa língua à filosofia, o caminho que vai de Ortega a García Bacca não é precisamente deserto. Ortega y Gasset havia demonstrado que o espanhol era apto para a expressão filosófica, embora seus meios de sedução fossem demasiado líricos a forma filosófica estrita. O caso de García Bacca é a demonstração definitiva de que o espanhol está perfeitamente dotado para a filosofia e há dado ao traste com a opinião de que não se pode escrever rigorosamente filosofia em espanhol; sua prova irrefutável há consistido no velho e acreditado argumento de demonstrar o movimento andando.

O itinerário intelectual deste filósofo, espanhol de nascimento, embora venezuelano por naturalização, está marcado principalmente por uma atenção constante para a atividade científica em todos os seus ramos (desde a física ou a matemática até a estatística e a biologia) e, consequentemente, de um modo especial a filosofia da ciência. Seus primeiros títulos – Introdução à Lógica Matemática, Ensaios Modernos para a Fundamentação das Matemáticas, Tipos Históricos do Filosofar Físico, Filosofia das Ciências – já manifestam esta tendência, que não deixa de ver-se em sua produção dos últimos anos, entre cujos livros encontramos alguns títulos significativos, como Antropologia e Ciências Contemporâneas, Teoria da Relatividade, e a História das Ciências, que é um livro único em nossa história intelectual, pois constitui o primeiro intento crítica às ciências desde a filosofia, feito ademais desde os supostos originais e interessantíssimos de Garcia Bacca.

A Nova Metafísica de García Bacca.

Por demais, esta linha de atenção à ciência desde a filosofia culmina em seu livro mais importante, que já mencionamos anteriormente: Metafísica Natural Estabilizada e Problemática Metafísica Espontânea, livro que constitui o maior esforço intelectual de Garcia Bacca e que supõe um acúmulo de conhecimentos nada comum. Quiçá um olhar superficial a obra e o fato de não encontrar nela uma só citação, a parte o intento expresso do autor – isto é, de levar a prática o princípio de exclusão de toda autoridade em matérias filosoficamente empreendidas e tratadas-, nos inclina a pensar que se trata de uma filosofia racionalista e de tendência apriorística. nada mais distante da verdade; o autor se baseia sobre a experiência da realidade e sua filosofia supõe um conhecimento não somente desde Aristóteles a Zubiri, como ele mesmo diz, senão – o que assenta – de toda a ciência moderna, desde lógica simbólica e física atual até matemáticas, biologia e economia, como mínimo. A Metafísica de García Bacca supõe um aproveitamento de todo esse ingente acúmulo de conhecimento, se bem interpretados e elaborados desde um ponto de vista originárinalissimo, como veremos nestas páginas. Pois, o intento do autor é o de constituir uma metafísica atual que se encontre a altura da presente e possivelmente futura evolução do mundo.

Agora: a metafísica de García Bacca não é tal neste primeiro livro[2] senão simplesmente constitui os prolegômenos e introdução a uma metafísica como ele a concebe. Pois, em si mesma e como relação ao resto do pensamento filosófico se apresenta como uma obra total encerrada em si mesma. Está escrita em forma de fatos, como fenomenologia que pretende ser; em efeito, a obra é uma fenomenologia do mundo natural, e enquanto tal, se apresenta como “metafísica natural estabilizada”, pois, sobretudo, pretende ser base e fundamento de uma nova metafísica a que chama “metafísica problemática espontânea”. Desde este último ponto de vista a obra de García Bacca é um acúmulo de problemas e interrogações que contrasta com a forma de fatos em que se nos oferece: somente se assim podem compreender-se suas palavras: “Por estranho que pareça em toda a obra, não há nem uma só afirmação nem uma só negação. Prontamente não há nada que afirme ou negue, pois o autor, assim chamado, pretende escrever qual alta voz das coisas – do que de metafísica há já no mundo ao que lhe hão trazido, e que ele não há criado nem produzido”.

A obra está escrita, por conseguinte, e como dizíamos antes, em forma de fatos, como um balanço actuarial; a estrutura de suas expressões usuais – ainda antes de que… , me encontro já – não tem mais sentido que a indicação deste caráter fenomenológico. Ainda assim convém fazer constar que a expressão mais própria é essa mesma, pois em sua forma mais universal: ainda antes que… , nos encontramos já…, forma que se impõe a metade da obra, quando o autor nos faz cair metodicamente em conta de que fala como alta voz das coisas, de que o mesmo não é mais que máquina registradora – por assim dizer – de um estado metafísico do mundo. E todo ele por meio da palavra, que exerce aqui uma “função de acoplamento e coajuste imediato, táctil, entre palavra – alta voz do ser – e coisa mesa”. Isto é, que as palavras realizam aqui “função concreta, e não a de flutuante sintaxe correta”, pois todo o dito em palavras, com tal intenção, “nos remete aquilo de que as palavras brotam, em sua função de dizer o que as coisas são, e dizê-lo e dá-lo a palavra, ao ar, tão imediata, apertada e ajustadamente como a alta voz vai dizendo o que a agulha vai notando táctilmente nos micro-ranhuras do disco” [3].

A função da palavra se lhe impõe García Bacca sobre a forma de particular e não de indutivo, distinções que aclaramos mais adiante. Por isso diz: “Não sou eu quem fala, nem quem pode falar enquanto indivíduo; falamos todos, ao falar eu ou cada um. Falar não é função realizável pelo indivíduo, senão própria de particular. E antes de que possamos, os indivíduos, evitá-lo, estamos falando como particulares, como nós. Se trata de um fato primordial… Que vejo, que penso, que manejo…, é algo individualmente meu enquanto não o diga. Por dizê-lo, o dito jão não é meu individualmente. Estes são fatos imediatos do mundo cultural em que os homens atuais surgem” [4].

Metafísica como Transformação.

O autor fala, pois, nesta obra como particular, isto é, como membro da coletividade, e sua pretensão é oferecer uma metafísica do mundo artificial em que nos encontramos nós, os homens de hoje. Seus exemplos à base dos modernos descobrimentos da física ou da matemática indicam claramente esta intenção. Trata-se de instaurar a metafísica que exige a altura dos tempos e que é todo o contrário da metafísica clássica; frente ao caráter interpretativo desta, o caráter transformador da nova. A tarefa metafísica de García Bacca se apresenta assim como oposta a de Aristóteles; se este baseou sua metafísica em uma concepção natural do mundo, García Bacca quer indubitavelmente fazê-lo na concepção artificial do mesmo. Por isso, frente às categorias de natureza, essência, potência, faculdade, espécie, ordem, próprias do estado natural do mundo, García Bacca propõe as novas categorias de projetos, desígnios, possibilidades, mutações…, que parecem adequar-se melhor ao estado artificial.

Uma metafísica atual – de caráter eminentemente transformador mais que interpretativo e que quer dar razão do mundo artificial em que se move o homem de hoje – não pode consistir em uma arquitetura de conceitos bem articulador, senão em uma série de acontecimentos que colocam a realidade em um nível superior, justamente o metafísico ou o ontológico, entre os quais se distinguirá mais adiante.

García Bacca expressa sucintamente esta posição com as seguintes palavras: “Metafísica e Ontologia não são, primordialmente, conjuntos mais ou menos sistemáticos de conceitos; são: a-) acontecimentos; b-) que fazem cambiar o estado da realidade: de estado de realidade em bruto a estado metafísico e ontológico; o de ser e estar sendo o porque de tudo; c-) metafísico e ontológico designam, segundo isto, estados da realidade, em sentido parecido a líquido, sólido, gasoso, cristalino, polarizado… E pudera suceder, e sucede, que em um momento dado haja bem poucas em estado metafísico e ontológico, e que, verbigracia, fora do entendimento essa parte de nossa realidade bruta que se prestará mais facilmente a cambiar de estado: de entendimento-em-bruto a entendimento em estado metafísico e ontológico, como certos corpos passam mais facilmente que outros, e em maior parte que outros, do estado amorfo ao cristalino” [5].

Me parece que esta citação reveladora haverá sido já suficiente para que o leitor comece a entender duas coisas: primeiro, a importância extraordinária do pensamento que nela se insinua, e segundo, o pouco que a palavra metafísica tem que ver aqui com sua etimologia, ou com sua história, nem com tudo o que estamos acostumados a relacionar com ela. Pois o que nos interessa reter, sobretudo, agora, é a ideia da metafísica como acontecimento que faz mudar os estados da realidade e muito principalmente o estado de coisa em estado de ser, que é o supremo projeto metafísico: “Por todas as coisas em estado de ser, ao modo que a física moderna, o reconhecer a possibilidade de transformar toda massa em energia e toda energia em massa, permite empreender o problema e acometer o projeto de por todo o físico em estado de radiação ou tudo em estado final de massa material” [6].
Ser e Ter.

Agora: a compreensão de semelhante projeto metafísico requer um esclarecimento dos conceitos de ser e ente, segundo se expõe neste livro. A primeira indicação que nos faz García Bacca é o penoso e desagradavel do esforço dirigido a pensar o ser; é como pôr-se a ver com os olhos a luz sem ver nenhum objeto concreto. A dificuldade está em querer ver o transparente em seu estado de transparência, já que não resulta objetivamente por nós prestarmos obstáculo: a luz a vista e o ser a inteligência. Ser é, pois, segundo isto, tudo o que, sendo real, nos faz de obstáculo à inteligência, senão que atua com a função de trans… – transcendente, transporte, etc. -. Pelo contrário, ente é tudo o que constitui obstáculo para a nossa mente. Assim, diz: “Ser é ente em estado de transparência, frente e a respeito a inteligência; ente é ser em estado de intransparência, de obstáculo e obstante”[7].

O aprofundamento sobre a ideia de ser nos chama a atenção como seu intrínseco projeto consiste em evadir-se de tudo ao mesmo tempo que alude a tudo. “Ser é, e tem que ser – nos diz-, tudo o de todas as coisas; alusão máxima de ser a tudo e de tudo a ser. Mas ser não pode ser nada de nenhuma coisa – ser não é homem, ser não é número, ser não é ideia… -; ser é elusão máxima de todo ente especial Ou o que é o mesmo: ser não tem conteúdo algum, e ser tem tudo por conteúdo. Tem tudo como conteúdo aludido; e não tem nada especial por seu conteúdo eludente”. E alude mais adiante: “Ser, por seu intrínseco e ineliminável componente de elusão absoluta, é o módulo das coisas, ao modo que zero é o módulo da soma”. Uma consequência disto é que se bem o ser não é gênero, constitui o mais universal e simples dos conceitos.

Ideias-ser e Ideais-ente.

A fecundidade de um empreendimento semelhante se acrescenta quando o aplicamos ao mundo das ideias, as quais, por suas dimensões de alusão e elusão, não são algo fixo e independente, senão tudo o que de uma coisa qualquer se pode por em estado de ser, ou o que é o mesmo, em estado de universal, necessário e simples. As ideias se vinculam, pois, as coisas de que o são mediante uma alusão constante para elas; sua realidade é um fazer signos ou sinais para as coisas de que são ideias. Em definitivo, ideia é o que das coisas podem falar-se, em um momento determinado, em estado ideológico. Por isso García Bacca o chama o estado abstrato de uma coisa, isto é, seu extrato. Este extrato da coisa é ela mesma, embora não toda ela. Pois, há que ter em conta que não todas as ideias têm o mesmo componente de alusão e elusão, e por ele, existem diferenças muito marcadas entre elas; a mais patente é a distinção entre ideias-ente e ideias-ser. As primeiras são aquelas que fazem de obstáculo ou objeto a mente como as de cavalo, homem, parede, lápis, etc.; são ideias que excluem-se entre si. As segundas, pelo contrário, não tem um conteúdo próprio que se faça de obstáculo a mente; são ideias transparentes, que nos remetem natural e imediatamente as ideias-ente, como universal, necessário, simples… Não se percebe “universal”, senão que homem é um universal, como tampouco se percebe “temperatura”, senão que este corpo está a tal temperatura. A esta última classe de ideias pertence a ideia de ser, que é o protótipo de todas elas.

Sem dúvida, um malicioso conhecedor da filosofia estará pensando que tudo isto não é senão expressar com novas fórmulas ideias tradicionais arque-sabidas. Assim, a alusão e elusão seriam somente palavras novas para descobrir a velha doutrina de extensão e compreensão dos conceitos, e o que se diz do ser como módulo das coisas, seria uma forma engenhosa de expor a doutrina dos transcendentais; o mesmo ocorreria com as ideias-ente ou ideias-ser que teriam perfeito lugar dentro da doutrina dos universais. E não deixaria de ter razão quem assim pensa-se, pois somente até certo ponto, pois a formulação de tais doutrinas não é meramente caprichosa nem prurido de originalidade, senão necessidade de uma nova concepção da realidade que altera a significação de tais doutrinas. A alusão e elusão não são simples propriedades lógicas dos conceitos, senão que implicam a referência de seu sujeito a distintos estados do mundo, entendendo por tal um “todo em que rege peculiar repartição-e-coajuste das coisas entre os estados de ser e de ente”. Agora: este estado de repartição-e-coajuste entre ser e ente pode ser alterado em suas proporções pela intervenção do homem; daqui o novo sentido que adquirem tais expressões.

E não se trata somente da intervenção consciente e intencionada do homem, ao menos em princípio, senão que sua simples presença altera tais proporções nos estados de ser e ente. Pois a presença do homem no mundo supõe já o conhecimento, o qual constitui um novo estado de coisas: o estado de coisas conhecido. Estamos acostumados a tomar o ser objeto de conhecimento como algo inoperante, inofensivo, sem cair em conta de que ser conhecido é um estado real, embora sutil, da coisa conhecida. Um conhecimento autêntico transforma a coisa em coisa conhecida; a mudança real e verdadeiramente de estado [8]. Em uma palavra: o conhecimento humano faz aparecer o que de ser tenham os entes, alterando a repartição do mundo em seres e entes, e, em consequência, as dimensões de alusão e elusão das ideias. Uma consequência que se desprende de todo o anterior é que ser e ente são dois estados correlativos das coisas; que uma coisa não esteja em estado de ser o estará em estado de ente.

Pois, a função transformadora do homem que altera a proporção dos estados de ser e de ente entras as coisas abarca muitos mas aspectos, se bem podem concretar-se em dois tipos de operações: trocar “em” e trocar “por”, que constituem uma peça central no pensamento que expomos.

As operações trocar “em” e trocar “por”. Metafísica e Ontologia.

A operação trocar “em” consiste na transformação de um ente em outro, como, por exemplo, matéria em energéia, energia calorífica em mecânica, entes em calor ou radiações. E embora a realize de modo principal a física, não deixa de realizá-la a filosofia, como quando se cambia coisa em conteúdos de consciência, matéria em espírito, conhecimento sensível em conceito, conceito em ideia abstrata. Esta operação nos mostra a autêntica indiferença do real frente a ser e ente, indiferença ou neutralidade do real frente a ontologia (ser) e ôntica (entes). Por isso, trocar algo em algo é função metafísica e metaifenomenica; saber até que medida possa transformar-se tudo em ser, seria saber até que ponto teria êxito o projeto metafísico do homem. Em princípio, podemos estabelecer que tudo o que de um ente é transformável em tudo de outro ente, e vice-versa, embora os entes físicos sejam mais propensos a tal operação; o qual simplesmente indica que, se bem o trocável em é possibilidade real de todo ente enquanto ente, tal possibilidade admite graus e se acentua ao máximo nos chamados entes físicos.

A importância da operação trocar em, neste intento metafísico, não deve minimizar-se, pois aponta ao megalomaníaco afã do homem de transformá-lo todo, inclusive a si mesmo, em domínio total da realidade universal. Com tom poético e intenções literárias, parafraseando o famoso monólogo de Segismundo na Vida é Sonho, expressa García Bacca a transcendência da operação trocar em no prólogo a sua Introdução Literária a Filosofia. E aqui, a modo de exemplo, um de seus parágrafos:

Nasce o bruto…

Nasce o telefone; e mediante alguns estilizados carbonetos que bailam ritmicamente ao passo de uma corrente, transforma o homem o som em eletricidade e a eletricidade em som, o inaudível em audível; ensinando assim a humana destreza ao som em deixar de ser por um tempo audível e a eletricidade, naturalmente inaudível, a converter-se em audível; e a vida, que ao fazer tais prodígios ensina a inteligência e as mãos do homem, não inventará ela para si, no fundo de suas substâncias, nas profundidades onde opera sem ser estorvada pela vista e miradas indiscretas, onde não gasta em exibicionismo o que a vida sensitiva emprega em ser vista, uma maneira de união com corpo mais sutil que este que vemos, transformando uma parte de energia corpuscular visível ou pesado em energia luminosa de raios poderosíssimos e invisíveis, corpo novo que ela prepara para quando se lhe desmorone ou deixe desmoronar-se este corpo visível, audível, tangível? [9].

O filósofo que fala assim aponta a desacreditar a ideia de que o homem tem essência e que, em consequência, seja de “uma só maneira”; pelo contrário, a operação trocar em compreende também ao homem mesmo, e por ele aspira a liberar a vida deste tipo de corpo que atualmente possui e que pelo momento lhe define e aprisiona, ou a converter o corpo do homem, ao parecer condicionado em tempo e espaço, em outro supra-astral, etéreo, de alcance infinito e de importância universal… Sem dúvida, tais projetos, expressados em linguagem literários e postos em boca de um filósofo, hão de parecer fantásticos, pois se aludimos o testemunho de um científico quiçá o leite pense mais seriamente sobre o assunto. E aqui, pois, a opinião de Norbert Wiener, o criador da cibernética, sobre a possibilidade de projeção telegráfica de um ser humano: “A individualidade corporal é a de uma chamada, mais que de uma pedra, é uma forma mais que uma substância. Esta forma pode transmitir-se, modificar-se ou duplicar-se, embora no que diz respeito a este último somente sabemos fazê-lo a uma distância muito curta. Admitamos que não é intrinsecamente absurdo, embora esteja muito distante de sua realização, a ideia de viajar por telégrafo, ademais de poder fazê-lo em trem ou em avião… O fato de que não possamos telegrafar a estrutura de um ser humano de um lugar a outro parece dever-se somente a dificuldades técnicas” [10]. Estas declarações de um cientista de primeira linha seguramente não farão aparecer tão descabeladas as anteriores afirmações de García Bacca sobre as possibilidades da operação trocar em, em que se aposta a uma espécie de logro científico da imortalidade humana.

A operação trocar “por” consiste no simples câmbio de uma coisa por outra: um saco de batatas por tantas horas de trabalho… A operação de trocar “por” se dá pois, de modo prototípico na economia, se bem é um programa ontológico de fundo, posto que supõe a indiferença real a respeito das características físicas, individuais, biológicas e diferenciadores das coisas. Não é que tais características se aniquilem, senão que simplesmente passar a segundo plano; desaparecem como entes e passar a estado de ser, no que tudo é equivalente ou encontra coeficientes de equivalência. As coisas se convertem em mercadorias (bens), fazendo-se assim equivalentes, intercambiáveis e trocáveis umas pelas outras. O mundo em que nos encontramos é um mundo inventado (amonedado, cunhado), dominado por bens… e onde isto constitui modos de ser, não propriedades de entes. Por isso, considera García Bacca a moeda como o lugar privilegiado de aparição do que as coisas tenham de trocável por. “Moeda enquanto moeda – nos diz – é, portanto, estado de ser de um ente concreto – verbigracia, bilhete, cheque… – transformando de maneira que sua realidade seja mínima e aparece o mínimo possível, mas cresça, pelo contrário, seu poder de ostentar justamente o que de trocável por tem as coisas – algumas, prontamente, em intenção; em projeto todas-. Portanto, faz ressaltar (aparecer, função fenomenológica) o que de ser, de uma especial maneira de ser, de que se vai a falar imediatamente, tem os entes. E é a moeda invento ontológico muito parecido ao cronômetro, régua, termômetro, barômetro, que estão montados como lugares de aparição do tempo, distancia, temperatura, clima, respectivamente; pois, sem chegar a ter características metafisico ou transformador do físico” [11].

A descrição que acabamos de fazer entre ambas as operações nos permite já distinguir claramente entre metafísica e ontologia. E aqui a distinção tal como a descreve García bacca: “A ontologia compreende: a-) o que de ser tem os entes – que podem ser quantitativamente diferentes em diversos estados, mais ou menos ontológicos -; b-) aparatos ontológicos, isto é, realidades montadas segundo um plano inventado para fazer de lugar de aparição (fenomenológico) do que de ser tenham as coisas, todas ou algumas em princípio e projeto todas”. “A metafísica compreenderia: a-) todo tipo de transformação de ente ente; b-) de ser em ente ou de ente em ser; c-) instrumentos metafísicos, ou seja: realidades montadas segundo um projeto e desígnio inventados para fazer de lugar em que ente se transforma em ente, ou ser em ente ou ente em ser”[12].

A maioria dos métodos filosóficos – abstração total, formal, eidética… – são simplesmente ontológicos; enquanto algumas questões filosóficas são metafísicas de si, pois transformam o real – coisas em conceitos, por exemplo-, sendo seu fracasso o ficar em ontológicas. Em todo caso, tanto as operações de trocar uma coisa em outra como trocar uma coisa por outra são atividades que alteram a proporção dos estados de ser e ente das coisas, como havíamos previsto antes. No entanto, no mundo em que nos encontramos predomina a operação trocar por sobre a operação trocar em, e isto lhe dá uma maior consistência, unidade e ordem do que teria se ocorresse o inverso. Pois uma correta compreensão e interpretação disto exige que tenhamos a claro a noção de mundo e suas divisões.

Tipos de mundo: natural, artificial, artificioso.

Em primeiro lugar, recordemos a definição de mundo, que dizíamos antes, contudo que segue sendo válida aqui: “Tudo em que refe peculiar repartição-e-coajuste das coisas entre os estados de ser e de ente, repartição-e-coajuste estabilizado, unitonal, concluso” [13]. Pois, recordemos também que dita repartição-e-coajuste pode ser alterada também em suas proporções de ser e ente, o que origina três tipos principais de mundo: natural, artificial e artificioso, aos que dedicaremos atenção imediatamente.

Mundo Natural

O mundo natural é aquele que goza de máxima concreção e daqui a impressão imediata de estabilidade que dão às coisas em estado natural e por isso também seu estado de alusão máxima, e de elusão mínima, de todo a todo. O estado normal das coisas parece dar-se no mundo natural, se bem dita normalidade se manifesta sobre a característica ambígua de neutralidade, isto é, de indiferença a respeito de verdade ou falsidade – ciência, filosofia, religiosa… – determinadas, o que implica abstenção de juízo como o procedimento natural de dito estado.

A peculiar condição de mundo natural implica a distinção entre real e verdadeiramente real. A verdade natural – isto é, a do mundo natural – é dada como simplesmente real; por exemplo, o geometrismo como feito de aparência – não como teoria- é uma verdade natural frente a teoria da relatividade que seria verdadeiramente real. A verdade natural é, pois, uma verdade de tipo patência, que simplesmente denota manifestação ou descobrimento e, portanto, resulta neutral frente a verdade ou falsidade lógica e ontológica, como ocorre com o caso exemplar do geocentrismo, que, seja verdadeiro ou falso como teoria, não deixa de ser verdade natural como aparência e, portanto, é indiferente a sua verdade lógica ou ontológica.

Um caso que põe o dedo na chama é o da física clássica. Esta, enquanto é física fenomenológica e, portanto, natural, não há chegado a demonstrar, com verdade real, que é realmente verdadeira; posto que se dá ao nível do natural, sua verdade o é de patência e, em consequência, neutral as autênticas verdade e falsidade. Pelo contrário, a física moderna, chamada física atômica ou nuclear enquanto é ciência de transformação e transubstanciação do real real dado em real de verdade, constitui um legítimo projeto metafísico; suas afirmações são verdadeiramente reais por estar provadas, isto é, postas a prova, segundo um plano de transformação de aparências montada no metafisico. Aqui reside sua fecundidade e periculosidade para o natural.

Agora: este projeto de transformação e transubstanciação da natureza devia fazer-se pensar os filósofos, religiosos…, que somente em tal plano metafísico é possível provar sua verdade com realidade de verdade – sem deixá-lo para outro mundo, ou lá onde nos dão todas, ou a boa vontade de Deus [14] -. Os Planos de Interpretação da metafísica tradicional devem ser substituidos por projetos de transformação da nova metafísica, projetos que podem ir de intentos a atentados. Uma realização do qual nos leva ao mundo artificial, unido que pode dar-se.

Mundo artificial.

O mundo artificial pressupõe o invento de artefatos. E artefato é a mostração concreta de que uma propriedade ou função, inserta em determinadas conexões naturais, pode atuar separada de um contexto natural. Por exemplo, quando a função de voar das aves se separa de seu contexto natural e desenhamos uma ave que é todas as asas: o aeroplano. Agora: o simples projeto de construir artefatos que substituam as funções naturais de certas coisas é um projeto de si metafísico transformador e transmutador do físico ou natural. E isto supõe, por um lado, que a técnica moderna é ténica metafísica por desígnio intrínseco da mesma, e, por outro, que a metafísica atual somente tem sentido real de verdade como técnica, isto é, como invento que há que pôr a prova e que somente se demonstra colocando-a a prova.

O mundo artificial é, pois, nesta direção, um projeto do que nem sequer consta que seja possível, como tampouco consta que seja possível a metafísica atual. Isto não obstante para que se possam precisar as características do mundo artificial frente ao natural.

1-) Enquanto os artefatos do mundo artificial a nota que os distingue é a de ter perfil, isto é, forma e dimensões, claramente determinados, afinados e afilados, frente ao semblante próprio das coisas naturais – isto é, estrutura metricamente flexível-. A distinção salta à vista quando de ordem de relógio, avião, cadeira, oficina, fábrica… passamos a homem, cavalo, árvore, bosque, montanha…

2-) O mundo natural enquanto a um todo se oferece como espetáculo, onde reina neutralidade temporal e causal, frente ao aspecto próprio de fábrica do mundo artificial, se bem este não existe mais que como projeto e somente como realidade em determinados rincões do universo.

3-) A peculiar estrutura do artificial se destaca como montada para repouso ou velocidade frente a natural de quietude ou movimento. O repouso de um artefato é uma quietude artificialmente conseguida ou mantida, como a que pode ter um corpo sobre o nível do mar, a tais longitudes e latitudes geográficas, a tal distância do sol, etc.

O problema que se apresenta ao homem é o de se será possível montar todo o físico, o mundo natural inteiro, sobre um desígnio metafísico de tal classe. O intento pode resultar em um fracasso, pois ainda assim fracasso metafísico, no que o mesmo homem se vê comprometido. O homem artificial mais que assemelha-se ao animal racional de que nos fala a tradição, seria então um invento ou produtor de novo corpo e alma para si, a costa do natural de si. “E empreender de modo audaz esta direção é a aventura, boaventura ou malaventura da metafísica atual, a qual a aventura da física atômica é a energia atômica, bomba atômica, reator, motor… atômicos” [15].

Um estudo dos tipos de caudas e cadeias causais, – causas eficientes, eficazes, diretivas, ocasionais – leva a García Bacca a estabelecer o predomínio em física atual das causas ocasionais, delatoras de entropia do universo, segundo o qual é crescente o número de coisas na categoria de qualquer e o domínio de qualquerismo. Pois, um universo físico com predomínio de qualquerismo supõe um aumento da categoria do porque sim, isto é, da impossibilidade de dar razão de certas coisas e, portanto, um crescente desvanecimento da racionalidade do universo.

Agora: pela planificação da atualização das causas ocasionais e, por sua vez, um fazer render e potencializar as causas eficazes e diretivas, o homem se capacita para ser realmente transcendente e não somente transcendental, senão mais ainda, de razão de si e do mundo. A ambição fáustica do homem moderno logra sua formulação filosófica mais plena nesta obra de García Bacca, fazendo-nos patente, não sem estremecimento, o que a aventura do homem sobre a terra tem de blasfêmia. Em sua Antropologia Filosófica Contemporânea o expressa ainda com maior clareza: “A tentação moderna – nos diz – é no fundo do fundo o programa de ser deuses. No fundo do fundo, a humanidade está fazendo um supremo experimento: não o do ser semelhante aos deuses, que não dá para grande coisa, senão ser no fundo deuses em pessoas. Experimento, não simples teoria como até agora” [16].

Mundo artificioso.

O mundo artificial constitui uma primeira potenciação de concreto artificial, produzido pelo fato de que tudo é redutível a um material intercambiável segundo uma unidade unificante, da que todo o demais é um múltiplo fixo ou permanente. Se o mundo artificial estava regido pela operação trocar em, o artificioso o está pela operação trocar por, o qual quer dizer que nos encontramos em um mundo cunhado. A moeda não é somente é aqui uma unidade unificante, senão principalmente niveladora de diferenças e diversidades que em princípio não teriam porque concretar-se em moeda. Trata-se de uma unidade econômica, cuja função principal é a de ser omni-niveladora de diferenças, diversidades e qualidades, em suma, quantificadora.

Esta operação de trocar por desborda – ao menos pelo momento – enormemente a operação trocar em. Se pode trocar gato por lebre, se bem não se pode trocar gato em liberdade, e assim sucessivamente com muitas coisas, o que vem a corroborar a afirmação anterior. Na prática, podemos dizer que a operação trocar por é ilimitada, abarcando todas as coisas em princípio; “é operação cósmica, por constituição”, diz Garcia Bacca. E alude: “Se pode trocar qualquer coisa por qualquer coisa, mediata ou imediatamente – seja material, vivente, espiritual, científica, religiosa, social, artística, política… – sobre formas mais ou menos sutis ou descaradas – preço, salário, estipêndio, honorários, cargos, condecorações, dignidades… – Trocar por resulta operação superior a pagar, comprar, vender; nem tudo é, pois, comparável, vendivel, pagável…; tudo é trocável por; qualquer coisa se pode trocar por qualquer outra, ao cabo de uns passos.”[17].

Em resumo, trocar por é operação cósmica sobre cujo campo de ação não encontramos todos, e todas as coisas, ainda antes de que nos prevenhamos… E ela nos faz patente a bondade de uma coisa qualquer para todas as demais em respeito do homem. “A fenomenologia ou aparição – diz Garcia Bacca -, sistematicamente planejada e realmente executada, da bondade de todas as coisas para o homem se faz pela operação de trocar A por B; e não por uma demonstração teórica, abstrata e inoperante de que tudo é bom para o homem, ao modo que a prova de que todo ser é inteligível para o homem, para seu entendimento, se consegue pondo-o à prova, isto é, por um plano de adequar as coisas – sejam as que foram em si e para si -, com o entendimento, com seus projetos e desígnios, formas a priori…; que semelhantemente mostra que um filme é visível e se faz projetando-se em uma tela, aparato inventado justa e precisamente segundo tal desígnio”[18]. Agora: uma mostra de tudo o que supõe e implica a operação trocar por somente se logra quando a analisamos em sua estrutura própria de mercado, junto com as de casa e laboratório, se bem tal coisa requer previamente uma sumária revisão aos distintos tipos de realidade.

Tipos de Realidade.

A doutrina dos tipos de realidade preliminarmente dados há sido elaborada, como a maior parte das doutrinas expostas por Garcia Bacca, através de um largo e penoso esforço cujas pegadas podem encontrar-se em seus escritos; a formulação quase completa de tal doutrina a encontramos já em sua Antropologia Filosófica Contemporânea, se bem a luz de sua ideia de homem. Aqui sua aplicação é muito mais ampla; esboçamos suas características.

As categorias que nos vem ao encontro, por ordem sucessiva, são assim: uno-de-tantos, qualquer, particular, indivíduo é único.

As categorias uno-de-tantos, uno-de-tantissímos são numéricas e supõem, pelo mesmo, uma multiplicidade nivelada quantitativamente. Por ele, o fato de poder contar as coisas e de que sejam numeradas com números, isto é, com coisas exemplarmente cada uma una-de-tantas, e una-de-tantissímas e una-de-infinitas, é um aparato que delata o que de numeráveis tem, isto é, o que cada uma tem de una-de-tantas e una-de-infinitas. Assim, una-de-tantos, una-de-tantissímos…, é categoria típica do aritmético; e das coisas, na medida em que estão sendo aritméticas.

A categoria de qualquer corresponde a uno-de-tatos que tenha uma qualidade ou propriedade simplesmente porque sim, e com ele caracteriza o estado físico em que as coisas são indiferentes a ser ou não ser, ao número das que são ou não são e a maneira ou grau de sê-lo. Agora: a categoria de qualquer é monótona crescente, isto é, o qualquerismo se impõe desde os domínios físico e matemático a todas as demais ordens de um modo cada vez maior, afetando a tudo o que alcança em duas dimensões: como maioria, enquanto forma de universalidade correspondente a qualquer; como mediania, enquanto forma da necessidade peculiar a qualquer. Por exemplo, “se nós homens somos já em número suficiente para que se estabeleça a categoria de qualquer – cada um, sejamos já, tantissímos, uno, qualquer -, todas as qualidades humanas – religião, arte, sociedade, ciências… – se ressentiriam e estariam submetidas a um modo de mediania: o modo ou grau com que a maioria as possuía, e surgiram espontaneamente, sem mais com eficiência própria, propaganda, consignas, dogmas, catecismos, manuais, prontuários, opinião pública, maiorias políticas, noosfera: estado de mediania da tais propriedades ou formas como se encontram em maioria” [19].

A minoria contará cada vez menos frente a maioria, e é um tema de ontologia e metafísica difícil de elucidar se vamos ou não a aumentar o qualquerismo com a conseguinte introdução da categoria de qualquer. Um exemplo disto há sido a física atual, que frenta a clássica, se há visto obrigada a recorrer a categoria de qualquer em numerosos domínios. Pois, a mesma direção parece que se vai impondo no mundo humano, onde “ o levar estatísticas de tudo, contagem de maiorias e minorias, é sintoma da época atual, isto é, de que se impõe brutalmente a categoria de qualquer por ir aumentando o número dos que são, cada um, uno qualquer”[20].

A categoria de particular se aplica às coisas que se distinguem das demais sem que possuam uma positiva unificação interior, em cujo caso “a unidade está condicionada pelo modo ou procedimento de distinguir-se das demais”. Assim, o ar da habitação, a água deste vaso, deste rio…, é o desta habitação, a deste rio…, porque há uma realidade que exerce a função de separá-las” [21].

As sequelas derivadas dessa particularidade são várias e de distinta importância; nos interessa, sobretudo, ver que o falar conosco se impõe a todo homem que esteja sendo particular, qualquer, uno de tantos; é o tipo de linguagem em que está escrita a Metafísica de García Bacca, como vimos ao começo.

A categoria de indivíduo se aplica às coisas que sejam una em virtude da unificação própria e intrínseca, e se apresenta, pois, como caso complementar do anterior; não insiste demasiado o autor sobre esta categoria por ser a que há sido mais estudada pela tradição. O princípio de individuação tem sido estudado pelos filósofos sem cair em conta de que também deve atender-se aos princípios de qualquerização, de particularização, etc. Uma consequência do ser e sentir-se indivíduo é considerar-se como centro privilegiado de um mundo que flutua ao nosso redor; por isso diz García Bacca que o indivíduo está anti-relativisticamente instalado. E consequentemente, por sua vez, disto é a violência que o filósofo deve fazer para falar como particular, posto que a tendência inicial e espontânea nos leva a fala como indivíduos.

Um olhar ao interior nos permite distinguir a realidade desde o seguinte ponto de vista: “o domínio do matemático se caracteriza pela categoria de uno-de-tantissímos, não pela de qualquer nem pela de indivíduo; o domínio do físico, pela de qualquer; o domínio ou reino do vivente (biótico), pelo predomínio da categoria de indivíduo; a relação entre os domínios físico e vivente tem lugar mediante a categoria de particular” [22].

Agora: todos os distintos tipos de realidade – qualquer, particular, indivíduo – não constituem essências independentes, ordenadas como o gênero e a espécie, senão que podem constituir diversos estados de uma mesma realidade, encontrando-se distintas partes de um ser, unas em estado de individuo, outras em estado de particular, outras de qualquer…

A categoria de único é estudada pelo autor para mostrar-nos como ela não é possível nem falar. E observa-se que toda coisa realmente única é acusada, vindo a ser porque sim, em absoluta descontinuidade e novidade; poderá haver para ele pretextos, oportunidade ou condições, contudo não causas. Nestas circunstâncias o único se mantém simplesmente indicado, como uma tendência que sim se cumpre e se desfaz; é inapreensível pela razão e inexpressivo em palavras; se se expressa automaticamente eliminado. Por isso, posso pensar em eu como único, pois se o digo já há deixado de ser tal e entrou no mundo das abstrações. Se apresenta, por ele, como uma realidade metafísica e transcendente que elude o universal e o geral. E na medida em que intento por-me a ser eu mesmo e evadir-me do estado de mim, isto é, ser único, estou realizando nisso uma pequena metafísica.

Casa, Laboratório, Mercado.

Uma vez esclarecidos os distintos tipos de realidade podemos passar de novo a estudar com maior precisão as estruturas de mundo natural, artificial e artificioso sob o sentido nelas e o sentido delas, isto é, seus sentimentos e sentimentalidades[23].

Em primeiro lugar, o mundo natural se nos dá como um estado de neutralização frente à realidade-de-verdade; por ele, todas as teorias no estado natural fracassam não enquanto a declarar dita verdade, senão enquanto a transformar a verdade simplesmente real em verdadeiramente real. Pois a consequência mais importante de tal neutralidade é que o mundo se nos dá sob as sentimentalidades de casa, isto é, familiaridade, espontaneidade, confiança…

E a neutralidade ôntica pela que sentimos o mundo natural como morada nossa se amplia até o grau de neutralidade gnosiológica, pela qual toda teoria acerca do conhecimento humano aparece como algo carente de sentido ao estado natural, pois não se trata já tanto de que sejam verdadeiras ou falsas, senão – algo pior- que são impotentes a respeito de todo estado de realidade-de-verdade. O estado natural é, pois, de imediação concreta de tudo em um mundo que habitamos neutralmente com despreocupada familiaridade, do que temos feito morada habitável na sentimentalidade de casa ou mansão, quando aquela nos é dada com as sentimentalidades de confortável, ordenada, pacífica, segura…

Uma impotência semelhante das teorias do estado natural somente poderiam superar-se se fossem acompanhadas de uma técnica de transformação de transsubstanciação da realidade simples em realidade de verdade. Pois, tal intento somente poderia realizar-se em metafísica e de fato se realiza tomando como base as rachaduras e divisões que aparecem no estado natural e que conduzem ao mundo artificial. Daqui que sob as sentimentalidades de confiança, inocência, benção de bem aventurança, aparecem também como delatoras do transfundo de mansão, as sentimentalidades de expor, exposto, sobressalto…

O mundo artificial está montado no projeto de transformar o mundo natural do homem sobre a base dessas rachaduras e divisões que temos mencionada, que destroem a neutralidade do natural e fazem possível a metafísica. Entre tais fenômenos cita García Bacca os seguintes: nascimento, morte, crimes, raios X, desintegração, minerais raros, mutação, heresias e ismas, máquinas, fábricas, aparatos naturalmente prodigiosos qual o televisor, automóvel, avião, radar, cozinha eletrônica, “procedimento – alude, de verdade realmente verdadeira, qual método dialético frente aos métodos de estrutura natural, simplesmente real, como abstração formal total, etc.” [24].

O estado artificial somente pode viver-se como particular, como se desprende das sentimentalidades que nos invadem em sítios tais como cidade, fábrica, árvore, oficina…, embora não exclusivo deles, enquanto qualquerizados pelas situações de particulares com que são vividas. Eu vejo com meus olhos como indivíduo o que todos vemos como particulares. Por isso García Bacca diz: “Sou eu quem olha; somos nós que vemos; sou eu quem pensa; somos nós que entendemos; sou eu quem manipula; somos nós que trabalhamos; sou eu quem toca; somos nós quem damos um concerto…”[25]. E isto se verifica na palavra de modo irremissível, na que o nós está incrustado de modo essencial, já que a linguagem é função social por excelência.

É muito interessante a função que o autor concede à categoria de qualquer nó referente a dar razão real-de-verdade, como há ocorrido na física, de fenômenos para-psicopatológicos como telepatias, telecinesia, etc. “Fenomenos, de si, metafísicos – tão raro agora qual o são as emissões de partículas e raios gamma pelo urânio em estado de mineral em mina -. Contudo, assim como é factível condensar a forma de tais emissões e aproveitar sua energia em um reator atômico, em uma bomba atômica ou nuclear, cabe propor-se (por desígnios e projeto metafísicos) o projeto e desígnios de produzir tais fenômenos – raros (não frequentes) por agora no estado natural -, de desintegração espontânea da percepção e objetivação em estado natural” [26].

Estes fenômenos raros rompem a neutralidade do mundo natural e fazem entrar por ele ondas do trans-natural, que faz presente o que já temos de metafísicos, ainda antes de todo desígnio. Para ele o metafísico é um aquecimento, real de verdade, que rompe a neutralidade da morada e nos introduz no mundo em que nos sentimos como em laboratório com sentimentalidades de hospedaria ou hotel, em que não podemos evitar certa insegurança e desconfiança.

Um exemplo que poderia esclarecer ainda isto é a visão que teríamos de nosso corpo com olhos previstos de telescópio ou microscópio eletrônico; se pareceria muito a uma nuvem e céu estrelado. Este exemplo põe de manifesto a capacidade de objetivação de nossos sentidos. Meus olhos objetivam a realidade conformando-a; é sua própria estrutura a que provoca determinada resposta. E isto explica porque as coisas nos vem embora careçam de olhos; seu aspecto típico é a mirada delas faz para mim e para mim, ou melhor, para nós enquanto particulares.

Pela mesma razão “eu penso, embora somos nós que entendemos o inteligivel”, pois – o mesmo que no caso da vista inteligível não é o inteligível somente porque o entendamos, senão porque ele nos entende, embora não nos pense. E o inteligível nos entende porque habita – igual ao que a nós – a religião do ser, na qual se dá a palavra como função. Nós entendemos, pois, porque falamos, fazendo da palavra um intermédio verdadeiro e eficaz que desaparece e se eclipsa em função de tal. Por ele a linguagem não é instrumento, senão que nos vem dado em estado de ser, como algo transparente e transcendente.

Agora: o estado natural da linguagem constitui de modo imediato a morada do homem, se bem podemos por decisão metafísica mudar a base da linguagem em sua função significativa. Isto ocorreria quando recorremos às palavras em papel, disco, cinta magnetofónica, transpostas de um corpo a outro. Ainda mais, a linguagem natural pode elaborar-se artificialmente por meio de símbolos, formalizações, etc. E em todos esses casos o que se destaca é a neutralidade de quem fala e a quem fala; a linguagem fica, pois, em estado de se diz, donde por suposto, desaparece toda revelação e sentido pessoal. Por isso a linguagem se qualqueriza, ou com neologismos de García Bacca, se , trocando-se de Morada em Hotel e Hospedaria.

As sentimentalidades próprias de laboratório vivido como Hotel são, pois, a de ousado, atrevido, aventureiro…, sob as que se revela o sentido da metafísica como aventura de aventuras e empresa de empreendedores, habitadas por esperança, gozo e paciência. Agora: o sentido em tais sentimentalidades é o desígnio do homem de converter-se em empreendedor máximo, que se não há legado a ser motor, reitor e razão do universo, há começado a intentá-lo no domínio dos objetos físicos, biológicos, industriais, etc. O mundo artificial habitado como hotel nos remete a um tipo de casa artificial, servida por toda a classe de aparatos e instrumentos e na qual o homem se sente senhor do universo.

O grau de qualquerismo que supõe uma sentimentalidade semelhante alcança caracteres pavorosos para a sentimentalidade de mansão no tocando ao domínio atômico, onde os experimentos incluem uma margem de probabilidade maior que zero de que dão origem, porque, a uma reação em cadeia de incêndio a atmosfera ou contamine de germes radioativos a vida inteira do planeta. Os experimentos se projetam sobre a margem de probabilidade que podem ficar sobrecarregado, pondo assim a jogo toda vida, inclusive a humana, já que a vida entra em tais casos na categoria de una-de-tantas coisas em que se sobrevive será porque sim e se se morre será também porque sim, tratando-se-a como uma qualquer de tantissímas coisas que surgem e desaparecem sem razão.

E este mesmo exemplo pode servir para mostrar como no mundo vivido como hotel hão desaparecido as demonstrações ou provas clássicas da filosofia; se trata simplesmente de provar pondo a prova e, portanto, a desaparição de toda demonstração; o único argumento conclusivo, trás haver experimentado algo, é se resulta ou não resulta.

Agora: o mundo artificial baseado na operação trocar em tem uma esfera de efetividade ainda bastante limitada, que é superada pela amplitude da operação trocar por, que vimos anteriormente que nos descobria a bondade das coisas para o homem. Por tal bondade não pode estar baseada em meros desejos e aspirações, senão que necessita realizar-se pondo-a a prova. Por exemplo, não pode trocar dinheiro por papel diretamente, posto que este não se dá bem a primeira na natureza, e assim será necessário previamente trocar polpa em papel. Em uma palavra: que a operação trocar por tem que estar precedida pela operação trocar em; e a medida que aumenta esta, aumenta aquela, em consequência. Assim se cria um mundo de objetos que, frente ao semblante e perfil dos mundos natural e artificial, adquire cara manual por ser objeto de uso; das características próprias destes são os de mercadoria e o mundo que forjam é vivido como Mercado com sentimentalidades próprias de Hospedaria. Mercado se assenta sobre o mundo artificial, isto é, sobre laboratório, embora não tenha necessariamente que coincidir; e ambos tendem a crescer progressivamente invadindo todos os domínios, não somente do material, senão do espiritual, como ciência, cultura, religião, política, etc.

Entramos aqui em uma das partes mais interessantes deste interessante livro; se propõe García Bacca determinar como se repartem e coajustam ser e ente entre os mundos natural, artificial e artificioso. Em primeiro, tal distribuição está ele mesmo em estado natural, e por ele, se dá por coisa feita e que passa usualmente inadvertida de pura sabedoria (conhecida em sua pureza). No mundo artificial tal distribuição se dá através de aparatos especialmente desenhados – termômetro, pêndulo, eletrômetro, cronômetro, metrô… – que distribuem ser e ente e os coajustam. No estado artificioso se realiza, pois, também tal distribuição e coajuste por meio de um aparato fenomenológico-ontológico ao que chamamos moeda, que nos dá uma amostra de valor das coisas. As consequências que se desprendem de tal função da moeda são mais ou menos as seguintes:

a.) Que tem que ter uma minima realidade entitativa, sobre-passado o limite do qual a moeda deixa de ser tal e se converte em mercadoria que entra no mercado como qualquer outra; se a base entitativa de tal é apreciável se a reiterar da circulação para que conserve a função de saca amostras de valor de tudo.

b.) A moeda da amostra de valor de outras coisas; não da mesma, que carece de valor. Sua função é a de ser ser dos entes, pois ela mesma não é ente; tem função fenomenologia-ontológica.

c.) A moeda registra o valor das coisas, sacando uma amostra da bondade de todas elas para o homem enquanto qualquer…

d.) A moeda registra o valor momentâneo das coisas com suas múltiplas variações temporais, espaciais ou circunstanciais, originando o preço de cada uma delas.

e.) A moeda é um aparato que descobre a relação trocável por, isto é, o estado potencial da operação trocar por, que se manifesta sobre a aparência de dinheiro.

O fato é que nos encontramos em bondade ontológica, como nos encontramos em ser, com a diferença de que não tomemos um aparato que – como o dinheiro delata a bonificabilidade de tudo para o homem – delate o grau de ser de cada ente.

A potencialidade do provável pela frente ao ato de trocar por permite acumular uma certa quantidade de dinheiro, que tende a converter-se em capital, com as sentimentalidades correspondentes de “endinheirado” ou capitalista…

Agora: um mundo “amoedado” e “endinheirado”, como este, encontra aos mesmos nomes tipografado como operários e produtores em diversas especialidades; os homens, o mesmo que as coisas, resultam “vendidos” (cambiáveis) a pedaços ou peças pela especialização de seus trabalhos, de modo que os trabalhadores resulta duplamente especificados: pelos tipos de produtos e por cada uma das fases de fabricação de um produto. A conclusão a exporemos com as mesmas palavras do autor: “Esquartejamento do homem e de sua unidade pela unidade do produto traz prévia destruição da coisa natural para montá-la (reunificada) em máquina de produtos. Cem farão um só produto total; cada um dos cem, uma das tarefas adequadas a uma das fases do produto total e de sua unidade de montagem. O homem deixará de ser indivíduo de uma espécie (natural), e resultará, realmente, em qualquer de suas especialidades; o homem não terá já espécie, senão especialidade” [27]. Em uma palavra: o homem se converte em mercadoria, com a tendência a um tipo de bondade válido para o homem em estado de qualquer. Esta tendência para a bondade promediada (conduzida) ou medíocre, e onde o majoritariamente mediano é o mais provável, é o que García Bacca chama “lei da entropia economia”. E o mundo em que nos encontramos, crescente em número e, portanto, com predomínio da categoria uno-de-tantos e uno-de-tantissimos, faz com que a bondade vá baixando de qualidade, sendo dito crescimento da mediocridade cada vez maior.

Uma consequência importante de viver em tal estado monetizado e medíocre é a tendência para um mercado de preços onde precificado é um estado real como sólido, líquido e gasoso, consequência da haver quantificado as qualidades das coisas. Se este estado real é real-de-verdade ou simplesmente real é tarefa que a metafísica deve dizer, uma de cujas metas poderia ser transcender o econômico, embora apoiando-nos nele, assim como a metafísica começou por ser um desígnio de transcender o físico ou natural, apoiando-nos nele. E ainda “poderá suceder – diz García Bacca – que economico oferecerá, para uma transcendência, base maior e mais ampla que o físico, sobretudo mais que o físico sido e deixado ser como o simplesmente natural” [28].

Neste sentido, crê nosso autor que a meditação filosófica de nossos dias deve orientar-se para a economia moderna, assim como Kant a orientou em seu tempo a ciência físico-matemática com sua Crítica da Razão Pura, e Marx se converteu no filósofo da economia clássica. “Vendo Deus – nos diz – que os filósofos não haviam feito das filosofia senão campo de dissertações sobre o ser e não ser, princípio e causa, substância e acidente, sujeito e objeto, potência e ato, essencia e existencia…, se decidiu Deus a dá-la, face coisa de um século, a esquerda hegeliana, o materialismo dialético, quem fez o que se havia de fazer em filosofia: entregá-la ao povo, a humanidade, isto é, aos pobres, a seus problemas de vida ou morte, trabalho ou terra, classe e luta, vitória sobre alienação e despojo, objetivação e coisificação, economia e sociologia. E agora se passam a vida fenomenólogos, historicistas e existencialistas não precisamente rogam a Deus – qual não sucedem crer ou, ao menos, creem que Deus faz ouvidos surdos a tais características, tardias e insinceras -, senão tratando, um pouco vergonhosamente, de incardinar (incorporação clerical, jogo de sentido posto aqui) a seus sistema a problemática – ferozmente real e indigesta para suas ingestões (indigestas ao engolir) – de terra, trabalho, capital, alienação, coisificação, humanismo…, com vagas, não comprometedoras e bizqueantes (apertante cerrar de olhos, aperto de olhos) sociologias.” [29]. A esta linha pertence a Crítica da Razão Dialética, de Sartre, pois o que faz falta é o que com ele percam os filósofos atuais a vergonha de dedicar-se a estudar marxismo e economias modernas, a condição de que a história não lhes deixe de lado em “pequenas capelas, cenáculos, sacristias e nichos, ao redor de profetas do ser, de sintátiqueiros de palavras ou de diretores de orquestra com partitura dos tempos de canto gregoriano”. Nesta direção economia e de atenção ao marxismo há que incorporar a Metafísica de García Bacca, cujo título mais apropriado não seria este, senão o que temos posto como epígrafe desta páginas: Prolegômenos a uma “Crítica da Razão Econômica”, em cuja perspectiva se anunciam aos próximos e mais fecundos trabalhos de nosso grande filósofo.

As sentimentalidades próprias de Mercado vivido como Hospedaria são as de afã e adins de afã, o sentido das quais é o de prosperar por acumulação de dinheiro e o sentido sobre elas é alienação, enquanto que o homem perde suas qualidades de único, ficando assim expropriado. Por ele o afã que sentimos na situação de Mercado é ele de apropriação das qualidades perdidas. Há dois tipos principais de atitude ante tal método de apropriar-se qualidades mediante quantidade. A dos ricos bem vindos com tal método e a dos proletários ou indesejados com o mesmo, ainda sendo empresa perdida em qualquer caso. Pois, dominando tais vivências de Hospedaria, Mercado e inclusive Laboratório e Mansão são principalmente vividas pelo homem como dono e senhor enquanto toma consciência – por havê-lo posto a prova e tendo êxito – de uma transcendência que lhe eleva a categoria de Primeiro Motor do universo. Pois este Primeiro Motor nunca é, nem pode ser, embora assim o façam parecer as aparências, um indivíduo único e uno, senão todos os homens como totalidade. O que sentado em um guindaste comodamente maneja ou quem guia o auto com um dedo no volante…, podem sentir-se donos e senhores de ditas máquinas sem que o sejam realmente como indivíduo, senão como um qualquer dos homens que poderiam fazê-lo e pensando nos para os quais foi construída. “Monopólio e exclusividades – diz García Bacca – são os planos que tão somente são possíveis em intenção e desejos; realmente são fracassos infligidos pela realidade a todo homem que se cria em qualquer ordem onde haja o dono e o senhor do universo, o único primeiro motor do universo. A violência que para realizar tal intento se empregue e tem que manter-se constante e perenemente, constituí precisamente a prova real da impossibilidade real de monopólio e exclusividade do domínio de um único sobre os instrumentos a serviço do Homem enquanto causa eficaz e retorna da realidade das coisas” [30]. Uma consequência interessante disto é que a propriedade privada posta a prova é irrealizável pela impossibilidade da relação biunívoca de um (homem) e uma (coisa, una); daqui a violência a que apelamos para mantê-la e que pode tomar mil formas diferentes, sejam legais e reconhecidas ou não.

A preponderância do econômico para que no mundo artificioso, igual ao que antes víamos no artificial, aumente o domínio do qualquerismo ou porque sim, pondo de relevo o que o homem tem de animal omnipromediador, única forma de lograr o domínio sobre todas as coisas a que aspira. E o resultado é um mundo em que o homem está fazendo a experiência de ser espécie de do fracasso real-de-verdade de toda classe de monopólios – políticos, religiosos, filósofos, industriais- , apesar do intento constante de mantê-los; daqui que a unicidade do indivíduo seja simplesmente real e que seus produtos o sejam do Homem e não de cada um deles ou de cada um dos grupos, sociedades, monopólicos, etcetera, formados por eles.

Segundo García Bacca, o único Primeiro Motor, e Primeira Razão é o Homem enquanto universal concreto, isto é, enquanto uno de tantos e uno de tantíssimos, pois vivendo-se sobre a sentimentalidade de Dono e Senhor do universo, em cuja sentimentalidade vemos reaparecer essa aspiração a suplantar a divindade que já mencionamos anteriormente.

A metafísica de García Bacca se perfila, pois, como expressão das aspirações da grandeza humana a um domínio absoluto da realidade universal, tendenciosa a ser argila nas mãos do homem, intento que somente posto à prova poderá ser tirado saber se fracassa ou tem êxito. Em todo caso , é a aventura do homem sobre a terra a que, de forma fundamental original, vemos descrita neste fabuloso intento filosófico de que não temos dado senão uma mera ideia geral. Ficam a margem infinitos temas, sugestões inumeráveis, muitas questões de método e naturalmente a precisa exposição das ideias – modelo de domínio como de graça literária. Estas linhas – resumem o mínimo – não podem aspirar a outra coisa que a incitar a leitura direta desta como das obras de autor tão singular em nosso panorama filosófico.

Desde o encontro em que se encontrou o anterior, García Bacca tem seguido publicando interessantes livros até o dia em que morreu. É difícil resumir neste colofão o anterior estudo de todas as características e diretrizes que marcam sua impressionante obra; limitamos a assinalar algum deles, que nos parece definidor de sua postura. Entre suas muitas obras deste período não parece muito definitória a titulada Humanismo teórico, prática e positiva segundo Marx (1965), onde observamos a crescente influência que o marxismo exerce em suas últimas preocupações filosóficas. Quiçá neste filósofo se conjugam como em duas influências extraordinariamente sugestivas: a citação de Marx, e a de Antonio Machado,a quem também há dedicado um de seus últimos títulos: Invitação a Filosofar segundo Espírito e Letra de Antonio Machado (1967). A preocupação universalista de García Bacca entronca assim com uma tradição hispânica de recente fatura. Entre outros livros seus, temos de citar: Elogio da técnica (1968), Ensaios (1970) e Curso Sistemático de Filosofia Atual (1969). Este último vem a ser uma continuação de sua Metafísica (1965), e constitui, depois daquela, o livro mais importante do autor. Sua importância requer uma análise exclusiva e há vindo a corroborar sua significação ao monumental livro: Lições da História da Filosofia (2 volumes, 1972-73). A tarefa de García Bacca é precisamente dar explicação e sentido filosófico à empresa humana de ser homem, entendida como afã transubstanciação ou transformador do universo. Se a filosofia moderna teria já a transubstanciação, a atual está já intitulada na ação transubstanciadora mesma; neste sentido, coincidem filosofia e ciência atual, porquanto ambas tendem a uma humanização positiva do universo e a uma universalização positiva do homem. O caminho iniciado, pois, pela física atômica, se prolonga pela dialética marxista, no sentido de que ambas tendem a fazer do universo a morada própria do homem . Se no Curso Sistemático trata de explicar essa profunda ação transformadora nos planos da filosofia, a ciência, a história e a dialética, em suas Lições o faz García Bacca é mostrar-nos como essa é a direção própria de nosso tempo que nos marca a história da filosofia; daqui que o livro começa com Demócrito e termine em Marx, pois com este último, a filosofia deixa de provar, para pôr a prova real de verdade a possibilidade de um mundo humano, onde o homem deixe de ser explorado pelo homem e a natureza, transubstanciada pela técnica física, se faça posto no plano real de verdade a servir ao homem, a humanizar o universo. A luz destas considerações, não é difícil ver na metafísica de García Bacca, uma originalíssima interpretação do marxismo, que pretende dar razão ao enorme esforço que representa a façanha do homem sobre o planeta: a empresa de ser homem. Neste sentido, sua obra legítima filosoficamente a peripécia “prometeica” da espécie humana, frente ao resto do universo, falando-se por de cima de possíveis divergências ideológicas – tal é seu intento.

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS DE JUAN DAVID GARCÍA BACCA

1901 – Nasce em Pamplona (Espanha)
Doutor em Filosofia e Letras pela Universidade de Barcelona. Estudos de matemática e física na Universidade de Zurich. Cursos especializados na Universidade de Paris, Lovaina e Friburgo.
1932- Professor de Filosofia das Ciências e Lógica Matemática na Universidade de Barcelona
1939 – Professor de Filosofia na Universidade de Quito (Equador).
1942 – Professor na Universidade do México. Membro do Colégio do México.
1947 – É um dos professores fundadores da Faculdade de Filosofia e Letras na Universidade de Caracas. É decano da Faculdade de Humanidades e Educação há vários anos.
1947-62 – Professor do Instituto de Pedagogia.
1959 – Adquire a titularidade da cátedra na Universidade Central da Venezuela. Diretor do Instituto de Filosofia.
1962 – Membro da “Hispanic Society of America, Nueva York”.
1971 – Se jubila como professor e elege como lugar de residência uma casa do Valle de Tumbaco (Quito, Equador).
1982- A Biblioteca do Instituto de Filosofia (Caracas) toma o nome de “García Bacca”. Constituí a cátedra “Juan David García Bacca” na Faculdade de Humanidades da Universidade Central da Venezuela.
1992 – Morreu em Quito por uma breve enfermidade. Foi doutor Honoris Causa por várias Universidades (Venezuela, Lima, Complutense). Ao longo de sua vida foi objeto de numerosas homenagens, distinções e condecorações.

OBRAS DE JUAN DAVID GARCÍA BACCA
Livros
– Introducción a la lógica matemática, Barcelona, 1934.
– Ensayos modernos para la fundamentación de las matemáticas, 1934.
– Introducción a la lógica moderna, Barcelona, 1935.
– Invitación a filosofar, México, 1942.
– Tipos históricos de filosofar físico, Tucumán, 1942.
– Filosofía de las ciencias, México, 1942.
– Filosofía en metáforas y parábolas, México, 1945 (1.a edición).
– Introducción literaria a la filosofía (2.a edición, 1963).
– Nueve filósofos contemporáneos y sus temas, Venezuela, 1947.
– Disputaciones metafísicas de Alfonso Briceño, Caracas, 1955.
– Teoría de la realidad, 1956.
– Antropología filosófica contemporánea, Caracas, 1957.
– Gnoseología y ontología en Aristóteles, Caracas, 1957.
– Antropología y ciencias contemporáneas, Caracas, 1962.
– Existencialismo, México, 1962.
– Historia filosófica de las ciencias, México, 1963.
– Metafísica natural estabilizada y problemática metafísica espontánea, FCE, México, 1963.
– Humanismo teórico, práctico y positivo según Marx, FCE, México, 1965.
– Elementos de filosofía de las ciencias, Caracas, 1967.
– Invitación a filosofar según espíritu y letra de Antonio Machado, Mérida,
Venezuela, 1967.
– Curso sistemático de filosofía actual, Caracas, 1969.
– Lecciones de Historia de la Filosofía, 2 vols. Caracas, 1972-73.
– Cosas y personas, FCE, México, 1977.
– Antropología filosófica contemporánea, Barcelona, 1982.
– Antropología y ciencia contemporánea, Barcelona, 1983.
– Tres ejercicio literario-filosóficos de dialéctica, Barcelona, 1983.
– Tres ejercicios literario-filosóficos de economía, Barcelona, 1983.
– Vida, muerte e inmortalidad, Caracas, 1984.
– Transfinitud e inmortalidad, Caracas, 1984.
– Tres ejercicios literario-filosóficos de antropología, Barcelona, 1984.
– Tres ejercicios literario-filosóficos de moral, Barcelona, 1984.
– Pasado, presente y porvenir de Marx y el marxismo, FCE, México, 1985.
– Qué es Dios y quién es Dios, Barcelona, 1986.
– Tres ejercicios literario-filosóficos de lógica y metafísica, Barcelona, 1986.
– Elogio de la técnica, Barcelona, 1987.
– Pasado, presente y porvenir de grandes nombres (mitología, teogonia, teología,
filosofía, ciencia, técnica), 2 vols., México, 1988.
– De magia a técnica (Ensayo de teatro filosófico-literario-técnico), Barcelona, 1989.
– Nueve grandes filósofos contemporáneos y sus temas, Barcelona, 1990.
– Filosofía de la música, Barcelona, 1990.
– Sobre el Quijote y Don Quijote de la Mancha (Ejercicios literario-filosóficos),
Barcelona-Pamplona, 1991.
– Sobre virtudes y vicios (Tres ejercicios literario-filosóficos), Barcelona, 1993.

Antologías
– Antología del pensamiento filosófico venezolano de los siglos xvn y xvm, Caracas, 1953.
– Antología del pensamiento filosófico en Colombia de 1647 a 1761, Bogotá, 1955.
– Fragmentos filosóficos de los presocráticos, México, 1942 (2.a edición, 1964).
– Textos clásicos para la historia de las ciencias, Caracas, 1961.

Traducciones
– Platón, Diálogos, Introducción y notas de J. D. G. B., México, 1942-45.
– Aristóteles, Poética, México, 1944.
– Euclides, Elementos de geometría, México, 1944.
– Plotino, Enéadas, Losada, Buenos Aires, 1946.
– Jenofonte, Memorias y banquete.
– El poema de Parmenides, México, 1942.
– Plotino, Presencia y experiencia de Dios, notas de G. Bacca, Séneca, México, 1942.

Notas:
1. “Filosofía y literatura, según un filósofo español”: Sobre Ortega y Gasset y otros trabajos, pp. 173-174.
2. O autor nem sequer se compromete a escrever dita metafísica. Na primeira página de seu livro nos diz: “Esta obra não é o primeiro volume de uma obra total. Forma um todo, e os volumes que talvez venha cronologicamente seguindo, levaram um título que não se parecem – por razão, claro está, do conteúdo – a nenhum dos títulos esperados talvez pelo leitor: ontologia, metafísica especial, ontologia fundamental…”
3. Metafísica, p. 28.
4. Ibid., p. 273.
5. Ibid., pp. 60-61.
6. Ibid. p. 48.
7. Ibid., pp. 153-154.
8. Ibid., p. 127.
9 Introducción literaria a la filosofía, pág. 11.
10 M. Calvo Hernández, “La ‘tercera generación” de cerebros”: índice, n.° 193, febrero 1965.
11. Metafísica, p. 132.
12. Ibid.
13. Ibid., p. 158.
14. Ibid., p. 166.
15. Ibid., p. 208.
16. Antropologia filosófica contemporânea, p. 24.
17. Metafísica, p. 296.
18. Ibid.. pp. 297-298.
19. Ibid., p. 233.
20. Ibid.., p. 234.
21. Ibid.. p. 236.
22. Ibid., p. 243.
23. “Sentimental é um sentimento corpóreo que esta feito de, ou é de, um conjunto bem determinado de coisas e processos reais de diversas ordens; e que está sendo em sua encarnação de maneira total e indisposta; por exemplo, uma dor de dente”. (Ibid., p. 89)
“Sentimentalidades, por outro lado, são essas especiais realidades que nos voltam no universo habitável – como morada, hotel, hospedaria -, que fazem que estejamos sendo nas coisas por muito diversas que sejam – físicas, químicas, orgânicas, figuras, números… -, como em casa e troquemos real e sentidamente universo no mundo” (Ibid., p. 91).
Tantas sentimentos como sentimentalidades têm sentido, isto é, gozam de um significado, se bem os sentimentais somente nos descobrem o sentido nele, pois não ele sentindo dele, isto é, a realidade a que tendem ou nos descobrem. Esta é a tarefa metafísica a que García Bacca dedica uma importante parte de seu livro, mas que nós somente podemos aqui indicar muito sumariamente.
24. Metafísica, p. 270.
25 Ibid., p. 272.
26 Ibid., p. 274.
27 Ibid., p. 315.
28 Ibid., p. 327.
29 “Filosofía y economía”: índice, n.° 166, noviembre 1962.
30. Metafísica, p. 331.

Ernildo Stein - O Transcendental e o Problema de Deus em Martin Heidegger [Transcrição & Diagramação por Prof. Isaías Klipp]

Professor | Pesquisador
Fundador do projeto Proscênio Filosófico (2017). É Tradutor de textos filosóficos. Bacharel (2020) e licenciando em Filosofia (2022) pela Universidade de Caxias do Sul, UCS.
isaías klipp
Professor | Pesquisador
Licenciado em Filosofia (2021). É pesquisador na filosofia e obra de Vilém Flusser. Pesquisador voluntário junto ao CNPq, no Observatório de Educação da Universidade de Caxias do Sul, UCS.
luan moraes
© 2022 • Revista Proscênio Filosófico CNPJ 46.534.106/0001-76 • Todos os Direitos Reservados. Termos de Uso • Política de Privacidade

Gabriel Marcel – Aproximação ao Mistério do Ser – Posição e Convergência Concreta ao Mistério Ontológico

Proscênio Filosófico.

Que o Eco das Grandes Obras ressoe em vós!

Aproximação ao Mistério do Ser | Gabriel Marcel

O título que hei escolhido para este ensaio, se bem que não somente é capaz de assustar aos profanos, senão também de escandalizar aos mesmos filósofos. Os filósofos, em efeito, têm o costume de deixar o mistério [1] aos teólogos, ou bem aos vulgarizadores, já sejam da mística, já sejam o ocultismo, como por exemplo Maeterlinck. É evidente, ademais, que a palavra ontológico está desacreditada aos olhos dos filósofos formados em contato com o idealismo, e que para os não filósofos apenas significa um nada. Enquanto aos pensadores da tradição escolástica, a palavra ontologia tem para eles um som familiar, pois em geral tais pensadores reservam quase sempre o nome de mistério para designar os mistérios revelados.

Tenho plena consciência das resistências com que forçosamente vou me encontrar e das reprovações que vou receber. Devo dizer, não obstante, que a terminologia em questão me parece a única adequada ao conjunto de apreciações que vou esboçar e cuja importância considero central. Os leitores do meu Journal Métaphysique [2], não teriam nenhuma dificuldade de comprovar que as teses fundamentais que vou propor são o resultado de toda a evolução filosófica e espiritual que se persegue através do Journal.

Mas que a partir imediatamente de definições abstratas e de argumentações dialéticas que desanimaram de entrada aos meus leitores*, quisera começar apresentando uma espécie de caracterização global e intuitiva do que é um homem a quem lhe falta o sentido ontológico, o sentido do ser, ou, mais exatamente, que há perdido a consciência de possuí-lo. Em geral, o homem moderno é assim, e se, todavia, lhe inquieta a exigência ontológica é muito surdamente, como um impulso débil. Me pergunto se um psico-análises mais delicada e mais profunda que o desenvolvimento até o momento presente não chegaria a discernir os efeitos perniciosos que engendra o rechaço neste sentido, desta exigência não reconhecida.

A época contemporânea creio que se caracteriza por algo que poderia chamar-se, sem dúvida, exorbitação da ideia de função; e tomo aqui a palavra função em sua acepção mais geral, a que compreende, a sua vez, as funções vitais e as funções sociais.

O indivíduo tende a aparecer ante si mesmo e também ante os demais como um simples conjunto de funções. Por razões históricas muito profundas, e que nós não captamos, todavia, senão somente em parte, o indivíduo ha sido induzido a tratar-se a si mesmo, cada vez mais, como uma suma de funções cuja hierarquia se lhe aparece ademais problemática e, em todo caso, sujeita às interpretações mais contraditórias

Em primeiro lugar, funções vitais. Apenas é necessário indicar o papel que hão podido desempenhar nesta redução o materialismo histórico por um lado e o freudismo por outro.

Em segundo lugar, funções sociais: função de consumidor, função de produtor, função de cidadão, etc.

Entre umas e outras há lugar, teoricamente, para as funções psicológicas. Pois em seguida se vê que as funções propriamente psicológicas sempre teriam a interpretar-se, ou bem em relação às funções vitais, ou bem em relação às funções sociais, e que sua autonomia seria precária, e sua especificidade posta na tela de juízo. Neste sentido Comte, ajudado ademais por sua incompreensão total da realidade psicológica, deu provas de uma espécie de adivinhação quando recusou assinar um lugar de psicologia na classificação das ciências.

Até aqui, ainda estamos em plena abstração. Contudo, o passo a experiência mais concreta se opera com extrema facilidade neste domínio.

Muitas vezes me pergunto, com uma espécie de ansiedade, que pode ser a vida ou a realidade interior, por exemplo, de qualquer emprego do metro: o homem que abre e fecha as portas, ou o que pica os bilhetes. Há que reconhecer que, nele e fora dele, a sua vez, tudo concorre para determinar a identificação entre este homem e suas funções. E não falo somente de sua função de empregado, ou de afiliado a um sindicato, ou de eleitor, senão também de suas funções vitais. A expressão, bastante horrível no fundo, de emprego do tempo, encontra aqui sua plena utilização. Tantas horas estão consagradas a tais funções. O sonho é também uma função, mas que há que cumprir para poder levar a cabo as outras funções. E o mesmo ocorre com o ócio e com o descanso. Concebemos perfeitamente que um higienista chegue a declarar que um homem necessita divertir-se tantas horas por semana. Trata-se aqui de uma função orgânica-psicológica que, por exemplo, suponho deve ter-se tão em conta como as funções sexuais. É inútil insistir; com este esboço basta. Vemos concretar-se aqui a ideia de uma espécie de escala vital cujos detalhes variam naturalmente segundo os países, os climas, os empregos, etc. Pois, o importante é que haja uma escala.

Sem dúvida, podem manifestar-se princípios de desordem, de ruptura; o acidente sobre todas suas formas, a enfermidade. Por isso resulta compreensível, e é o que sucede com frequência na América, e creio que também na Rússia, que se submete ao indivíduo, como a um relógio [3], a verificações periódicas. A clínica aparece aqui então como uma casa de controle ou como uma oficina de reparações. E assim também, desde este ponto de vista de funções, é como são considerados problemas essenciais como o de Birth Control (controle de natalidade).

Inclusive a morte aparece aqui, desde um ponto de vista objetivo e funcional, como a posta fora de uso, como o inutilizável, como o dejeto puro.

Apenas é necessário insistir na impressão de asfixiante que se desprende de um mundo cujo eixo central é a função. Me limitarei a recordar aqui a penosa imagem do ancião jubilado, e outra também semelhante à anterior, desses domingos de cidade em que os viajantes dão precisamente a impressão de ser jubilados da vida. Em um mundo deste tipo, a tolerância de que se beneficia o jubilado tem algo de irrisório e quase de sinistro.

Contudo, não somente é triste este espetáculo para quem o mira. Existe também o surdo e intolerável mal estar experimentado por quem se vê reduzido a viver como se efetivamente se lhe confundira com suas funções; e este mal estar basta para demonstrar a existência de um erro ou um abuso de interpretação atroz, ao que uma ordem social cada vez mais inumano e uma filosofia também inumana (filosofia que se bem há performado essa ordem, depois há copiada dele) hão tendido igualmente a arraigar nas inteligências indefesas.

Tive a ocasião de escrever que, a condição de que se lhe tomará em sua acepção metafísica e não física, a distinção do cheio e do vazio me parecia mais acertada que a do uno d o múltiplo. Esta observação toma aqui plena significação. Em um mundo centrado na ideia de função. Em um mundo centrado na ideia de função, a vida está exposta a desesperação, desemboca na desesperação [4], porque soa em eco; se a vida resiste a desesperação, é únicamente na medida em que atuam, no seio desta existência e em seu favor, certos poderes secretos que a vida não esta em consideração de pensar, nem de reconhecer. Pois essa profunda cegueira tende inevitavelmente a reduzir a ação possível dessas potências e privá-las, ao final das contas, de seu ponto de apoio.

Advertirei que esse mundo, por uma parte, está cheio de problemas, e por outra parte, está animado pela vontade de não fazer lugar algum ao mistério. Me reservo para depois precisar tecnicamente o sentido desta distinção – a meu juízo fundamental – entre problema e mistério. Por momento me limitarei a indicar que, eliminar ou tratar de eliminar o mistério, é, no mundo funcionalizado do que temos falado, por em jogo, em presença de acontecimentos que rompem o curso da existência, como o nascimento, o amor, a morte…, esta categoria psicológica e psico-científica do inteiramente natural que mereceria um estudo em particular. Trata-se, em verdade, do resíduo de um racionalismo degradado, para o qual a causa explica o efeito, isto é, da conta dele plenamente. Pois, um mundo assim está cheio de infinidade de problemas, porque não conhecemos em detalhe as causas e, portanto, há lugar para investigações indefinidas. Além desses problemas teóricos, existem também uma infinidade de problemas técnicos ligados à questão de saber como podem exercer-se, a sua vez, e sem prejuízo mútuo, às diferentes funções vitais e sociais que previamente se hão inventariado. Por outra parte, entre problemas teóricos e problemas técnicos dependem de técnicas definidas, e, inversamente, os problemas técnicos não podem resolver-se mais que ali onde um certo saber teórico há sido previamente constituído.

Em um mundo assim, a exigência ontológica, a exigência de ser, se há extenuado na medida precisa em que por uma parte, a personalidade se fraciona, e por outra, triunfa a categoria do inteiramente natural e onde se atrofiam, por conseguinte, o que haveria que chamar aqui quiçá as potências do assombro. Esta palavra, me apressou a dizê-lo, não é acertada; nosso idioma não dispõe de palavras que equivalem a wunder e wonder que asseguram a possibilidade de uma certa circulação vital entre o assombro e o milagre.

Contudo, em fim, não podemos agora abordar diretamente e tratar de estreitar esta exigência ontológica? Em realidade isto somente é possível até certo ponto. Por razões profundas, e que aparecerão pouco a pouco, suspeito que esta exigência apresenta o caráter singular de não poder ser integralmente transparente a si mesma.

Se nos esforçarmos em traduzi-la sem alterá-la, chegaremos a dizer aproximadamente o seguinte:

É necessário que haja – ou seria necessário que houvesse – ser; que no todo se reduza a um jogo de aparencias sucessivas e inconsistentes – esta última palavra é essencial – ou, como diria Shakespeare, a uma história contada por um idiota; neste ser, nesta realidade eu aspiro avidamente a participar de alguma maneira; e quiça esta mesma exigencia seja já, em certo grau, uma participação por rudimentária que seja.

Observemos que uma exigência semelhante está já no coração do pessimismo mais radical. O pessimismo somente adquire sentido quando diz: seria necessário que o ser fosse, contudo não é, e, portanto, eu mesmo que faço esta comprovação sou nada.

Enquanto que ao definir mais precisamente o que quer dizer a palavra ser, convenhamos que é estranhamente difícil. Proporei somente esta via de aproximação [5]: o ser é aquilo que se resiste – ou seria aquilo que se resistiria – a uma análise exaustiva sobre dados da experiência e que tratará de reduzi-los progressivamente a elementos cada vez mais desprovidos de valor intrínseco ou significativo (uma análise deste tipo é o que se leva a cabo nas obras teóricas de Freud, por exemplo).
Quando na la Ville, o pessimista Besme declara que nada é, quer dizer justamente que nenhuma experiência resiste a estas análises, a esta prova. E esta espécie de apologética ao revés, que constitui o pessimismo absoluto, estará sempre gravitando em toda a morte considerada precisamente como exposição, como evidência desta última.

No entanto, é possível uma filosofia que se negue a ter em conta a exigência ontológica: e justamente para esta abstenção é para onde há tendido o pensamento moderno em seu conjunto. Pois aqui é necessário distinguir duas atitudes que às vezes unicamente se está tentado a confundir: uma, consistirá em manter-se sistematicamente em reserva, será a atitude agnóstica sobre todas as suas formas; outra muito mais ousada, mais valente, mais coerente, tenderá a ver na exigência ontológica expressão de um dogmatismo caduco do que a crítica idealista há feito justiça de uma vez por todas.

A primeira atitude tem, a meu modo de ver, um sentido exclusivamente negativo; corresponde em realidade a uma comodidade da inteligência: A questão não se empreenderá.

A segunda atitude, ao contrário, pretende apoiar-se em uma teoria positiva do pensamento. É impossível criticar em detalhe uma filosofia desta índole; observei tão somente o que me parece que tende para um relativismo que recusa reconhecer-se a si mesmo, ou também para um monismo do universalmente válido que ignora o pessoal sobre todas suas formas, que ignora o trágico, que nega o transcendente e pretende reduzi-lo a expressões caricaturais essenciais. Observarei também que pelo fato mesmo de que essa filosofia faz continuamente ênfase na atividade verificadora, acaba ignorando esta presença, esta realização interior da presença no centro do amor que transcende infinitamente toda verificação concebível, já que se exerce no seio de um imediato situado mais além de toda mediação pensável. Isto se esclarecerá em certa medida com o que segue.

Em minha opinião, creio que somente um ato arbitrário, ditatorial, mutilador da vida espiritual em sua raiz mesma, pode reduzir ao silêncio a exigência ontológica. Isto sempre é possível; nossas condições de existência são tais que podemos afirmar realmente que o fazemos; e isto não o devemos duvidar.

Estas primeiras reflexões acerca da exigência ontológica, ao fazer ressaltar sua indeterminação, deixa aparecer uma paradoxa essencial. Enunciar esta exigência é comprometer-me, primeiro, em um labirinto de problemas: o ser é? O que é o ser? Pois sobre estes problemas eu não posso levar minha reflexão sem ver o que se abre sobre meus pés um novo abismo: eu, que interrogo pelo ser, posso estar seguro de que sou?

E, no entanto, eu, que formulo esse problema, deveria poder manter-me fora – mais próximo ou mais além – desse mesmo problemas que formulo. Em realidade está claro que não ocorre assim; a reflexão me mostra que este problema invade, de alguma maneira, de modo inevitável, esse proscenium teoricamente preservado Somente mediante uma ficção o idealismo, em sua forma tradicional, intenta manter a margem do ser uma consciência que o afirme ou que o negue.

Não posso, pois, deixar de perguntar-me, a sua vez: quem sou eu, que me pergunto sobre o ser? Que qualidade tenho eu para realizar essas investigações? Se eu não sou, como esperarei vê-las concluir? Ainda admitindo que eu seja, como posso estar seguro de que sou?

Contrariamente à ideia que há de apresentar-se aqui de modo natural, penso que neste plano o cogito não pode apresentar-nos ajuda alguma. Não obstante o que Descartes tenha podido pensar dele, se ele não põe em possessão de algo indubitável, este algo concerne somente ao sujeito epistemológico como órgão de um conhecimento objetivo. O cogito, hei escrito em outra parte, guarda o umbral do universalmente válido, e isso é o todo; a prova disso está na indeterminação acerca do eu. A mim me parece que o eu sou se apresenta como um todo indivisível.

Resta prever uma objeção. Uma de duas, se dirá: ou bem o ser aludido na questão, que sou? concerne ao sujeito do conhecimento, pois neste caso estamos exatamente no plano do cogito; ou bem o que chamamos exigência ontológica não é mais que o extremo – se não a falaciosa transposição – de uma exigência propriamente vital da que o metafísico não deve preocupar-se.

Pois, acaso o erro não amarra aqui, antes de tudo, em cortar arbitrariamente a questão eu sou do problema ontológico tomado em seu conjunto? Em realidade, ambos somente podem tomar-se e abordar-se simultaneamente. Pois, ademais, como vamos a ver, se destroem em certa maneira enquanto problemas.

Há que aludir que a posição cartesiana, de fato, não pode separar-se de um dualismo que, por minha parte, rechaçar sem dúvida alguma. Empreender o problema ontológico é interrogar-se pela totalidade do ser e por mim mesmo enquanto totalidade.

Ademais, de maneira correlativa, pode perguntar-se se está dissociado entre o intelectual e o vital, com o desprezo arbitrário ou a exaltação arbitrária do vital resultantes, não deve justamente rechaçar-se. É certo que é legítimo fazer distinções hierárquicas no seio da unidade de um ser vivo que pensa e se esforça por pensar-se; pois o problema ontológico somente se desenvolve mais além dessas distinções e para isso ser tomado em sua total unidade.

Se tratamos de dominar a situação a que temos chegado neste ponto de nossa reflexão, comprovamos que estamos em presença de um desejo de afirmação que, em última análise, parece não poder estabelecer-se, pois eu não posso julgar-me qualificado para enunciá-la mas que partir dessa mesma afirmação.

Observemos que esta situação não poderia apresentar-se quando me encontro efetivamente frente a um problema por resolver; em tal caso, em efeito, eu trabalho sobre dados, e ao mesmo tempo tudo ocorre e tudo em autorizada a proceder como se não tivesse eu que ocupar-me desse eu em questão, como se ele não contara para nada. Ele é um suposto, e nada mais.

Aqui, ao contrário, o que eu chamaria estatuto ontológico de perguntar toma uma importância decisiva. Enquanto me sujeito à reflexão mesma, parece que me comprometo em uma digressão sem término. Pois, pelo fato mesmo que concebo a impossibilidade de assinar um término a esta digressão, a rebaixo em certa maneira; reconheço que este processo regressivo se mantém dentro de uma certa afirmação que eu sou antes de enunciá-la: ao enunciá-la a destroço, a divido, me disponho a traí-la.

Poderia dizer em uma linguagem inevitavelmente aproximativa, que minha interrogação sobre o ser pressupõe uma afirmação na que eu estaria em certo modo passivo, e da qual eu seria o objeto antes que o sujeito. Pois isto não é mais que um limite, e um limite que não posso realizar sem contradição. Me oriento, pois, para a posição ou o reconhecimento de uma participação que possui uma realidade de sujeito; esta participação [6] não pode, por definição mesma, ser objeto de pensamento; não poderia fazer as vezes de uma solução, porque se enquadra mais além do mundo dos problemas: é meta-problemática.

De modo inverso, podemos ver que, se é possível afirmar algo meta-problemático, é somente transcendendo a oposição de um sujeito que afirma o ser e o ser enquanto afirmado por esse sujeito, e como fundado em certa maneira esta oposição. Supor um meta-problema é dar a primazia ao ser com respeito ao conhecimento (não do ser afirmado, senão, de melhor modo, do ser que se afirma); é reconhecer que o pensamento está envolto pelo ser, que lhe é, em certa maneira, interior, em um sentido quiçá análogo ao que Paul Claudel buscou precisar em sua Art Poétique.

Desde este ponto de vista, contrariamente aos que a teoria do conhecimento se esforça em vão por estabelecer, há em realidade um sublime mistério do conhecer; o conhecimento se suspende em um modo de participação do qual nenhuma epistemologia pode esperar dar conta porque ela mesma o supõe.

No ponto em que estamos podemos precisar já a distinção entre problema e mistério [7]: um mistério é um problema que avança sobre seus próprios dados, que o invade, e que se rebaixa por esse mesmo como simples problema. Uma série de exemplos nos permitirá conferir a esta distinção um conteúdo compreensível.

É evidente que há um mistério na união da alma com o corpo. A unidade indivisível, que expressamos sempre de forma inadequada mediante fórmulas tais como: tenho um corpo, me sirvo de meu corpo, sinto meu corpo, etc… é exterior a toda análise, e de modo algum se poderia reconstruir por via sintética a partir de elementos que lhe seriam logicamente anteriores; tal unidade não somente está dada, senão que eu diria que é doador no sentido de o que chamarei a presença de mim mesmo a mim mesmo, presença cujo ato de consciência em si não é senão uma simbolização inadequada.

Vemos imediatamente que não se pode traçar uma linha demarcatória entre problema e mistério. Pois um mistério colocado ante a reflexão tende inevitavelmente a degradar-se em problema. Isto é particularmente manifesto com respeito ao problema do mal.

Quase inevitavelmente, em efeito, me vejo levado a tratar o mal como uma desordem que contemplo e cujas causas ou razão de ser o, ainda, finalidade secreta trato de discernir. Como esta máquina funciona de modo tão defeituoso? Ou é que este caráter defeituoso aparente deriva de um caráter defeituoso e real de minha visão?

Neste segundo caso, seria em mim onde residiria a desordem verdadeira, por esta desordem seguiria sendo objetivo respeito a meu pensamento que o discerne ou o comprove. Pois o mal puramente comprovado ou contemplado deixa de ser o mal sofrido: simplesmente, deixa de ser o mal. Em realidade somente o capto como mal na medida em que me preocupa, isto é, em que estou implicado nele como se pode estar implicado em um negócio; esta implicação é aqui o fundamental, e somente pode fazer abstração dela mediante uma ficção injustificável, pois ao mesmo tempo procederia como se fosse Deus e um Deus contemplador.

Aqui vemos com claridade como se derruba a distinção entre o que é em mim e aquilo que está diante de mim; caí sobre a lógica de uma reflexão a segunda potência [8].

Pois, evidentemente onde melhor vemos borrar-se a fronteira entre o em mim e o diante de mim, é no amor [9]. Inclusive, quiçá, seria possível mostrar que, em efeito, a esfera do meta-problemático coincide com a do amor; que um mistério como o da união da alma e o corpo somente é compreensível a partir do amor e que em certa maneira o expressa.

Por outra parte, é inevitável que uma reflexão que não se reflete sobre si mesma, ao aplicar-se ao amor, tende a dissolver este mata-problema e interpretá-lo em função de elementos abstratos tais como o querer viver, a vontade de poder, a libido, etc. Ademais, dado que a ordem dos problemas é a ordem do válido, seria extremamente difícil, e quiçá impossível, refutar essas interpretações sem colocar-se em um terreno diferente, no qual, a dizer a verdade, perdem seu sentido. Ao mesmo tempo me é assegurado, me é garantido – e esta segurança me envolve como um manto protetor – que, quando eu amo realmente, não tenho que inquietar-me por essas reduções depreciadoras.

Haverá quem pergunte: Qual é então o critério do amor real? Há que responder que somente existe criteriologia na ordem do objeto ou do problematizados, e já desde distante advertimos o valor eminente que desde o ponto de vista ontológica há que assinar a fidelidade [10].

E aqui outro exemplo mais imediato, mais particular, e que me parece mais apropriado para eliminar a diferença entre um mistério e um problema.
Realiza um encontro que chegará a ter em tua vida uma repercussão profunda, inextinguível. Todo o mundo pode haver feito a experiência do que significa as vezes um encontro desde o ponto de vista espiritual, e no entanto isto é algo que os filósofos comumente hão ignorado ou desdenhado, sem dúvida porque o encontro não afeta mais que a pessoa enquanto pessoa, não é universalizável, não concerne ao ser pensante em geral.

É evidente que um encontro desta índole, se se quer, empreende em cada ocasião um problema. Pois vemos também com grande nitidez que a solução deste problema fica mais próxima da única questão que verdadeiramente importa. Se me diz, por exemplo: Você encontrou uma tal pessoa em tal lugar porque lhe gostam as mesmas paisagens, ou porque sua saúde me obriga a receber o mesmo tratamento que você, se vê de imediato que não há resposta. Há em Florença ou em Engadina, ao mesmo tempo que eu, uma multiplicidade de pessoas que, se supõe, compartilham meus gostos; há no balneário em que me banho, um número considerável de enfermos que sofrem a mesma afecção que eu. Contudo presume identidade destes gostos ou desta enfermidade não nos aproxima no sentido real da palavra; não tem relação com a afinidade íntima, única em seu gênero, de que se trata aqui. Ademais, seria ultrapassar os limites do raciocínio universalmente válido, considerar esta afinidade como a causa e dizer: é precisamente ela a que há determinado nosso encontro.

Me encontro, pois, em presença de um mistério, isto é, de uma realidade cujas raízes se aprofundam mais além do que propriamente falando, é problemático. Eludimos a dificuldade dizendo que não se trata, depois de tudo, mas que de um feliz azar ou uma coincidência? Um protesto aumenta subitamente desde o fundo de mim mesmo contra esta fórmula vazia, contra esta negação ineficaz de algo que eu aprendo com o mais íntimo de meu ser. Uma vez mais encontramos aqui a definição inicial do mistério como problema que rebaixa a jurisdição de seus próprios dados; eu, que me interrogo acerca do sentido e da possibilidade deste encontro, não posso situar-me realmente fora dele nem frente a ele; estou comprometido neste encontro, dependo dele, lhe sou, em certo modo, interior; me envolve e me abarca embora eu não lhe abarque a ele. Por conseguinte, somente, por uma espécie de deslealdade ou traição posso dizer: Depois de tudo, podia não ter sucedido isto é seguir eu sendo o mesmo que era, o mesmo que, todavia, sou. Nem tampouco, se pode dizer: hei sido modificado por ele como uma causa exterior. Não; ele me há desenvolvido desde dentro, atuando sobre mim como princípio interior a mim mesmo.

Agora, isto é muito difícil de compreender sem deformá-lo. Inevitavelmente me verei tentado a reagir contra este sentimento de interioridade do encontro; e tentado por minha própria honradez, tentado, porque certa medida deve julgá-lo como o melhor que tenho de mim, como o mais seguro sempre.

Estas desilusões correm o risco, para dizer a verdade, de reforçar indiretamente no espírito de meus leitores uma objeção prévia que convém empreender aqui do modo mais claro possível.

Este meta-problema, se dirá, é de qualquer forma um conteúdo de pensamento; portanto, como não interrogar-me sobre o modo de existência que lhe pertence?Que nos assegura acerca desta existência? Não é ela mesma altamente problemática?
Minha resposta será aqui o mais categórica possível: Pensar, ou mais exatamente, afirmar que o meta-problemático é afirmá-lo como induvidavelmente real, como algo do qual não posso duvidar sem contradição. Estamos aqui em uma zona em que já não é possível dissociar a ideia mesma e a certeza ou o índice de certeza que a afeta.

Pois esta ideia é certeza, é garantia de si; nesta medida é outra coisa e mais que uma ideia. Pois as palavras conteúdo de pensamento que figuravam na objeção são extremamente enganosas. Pois um conteúdo é, apesar de tudo, algo extraído da experiência; e, pelo contrário, não podemos elevá-lo ao meta-problemático ou ao mistério senão por uma operação que nos desprenda ou nos separe da experiência. Desprendimento real; separação real, e não abstração, isto é, ficção reconhecida como tal.

E aqui não encontramos frente ao reconhecimento, pois é nele reconhecimento e somente nele onde tal desprendimento se cumpre. Estou convencido por minha parte que não há ontologia possível, isto é, apreensão do mistério ontológico, de nenhum grau, senão para um ser capaz de recolher-se e de testemunhar que não é um puro e simples ser vivo, uma criatura entregada a sua vida e sem domínio sobre ela.

É preciso assinalar que o tema do recolhimento (reminiscência) [11]; que há preocupado muito pouco aos filósofos, é muito difícil de definir, embora somente seja porque transcende o dualismo potência e ato, ou mais exatamente porque coincida em si esses dois aspectos anti-nomicos. O recolhimento é essencialmente o ato pelo qual eu me recobro como unidade: a palavra mesmo o indica. Pois esta recuperação, esta nova apropriação, reveste o aspecto de uma distensão, de um abandono. Abandono a – distensão em presença de – sem que, em nenhum caso, me seja possível fazer posteriores estas proposições a um sujeito que elas regeriam. Ao caminho se detém o umbral…

Por demais, a problematização se verificará aqui como em todas as partes, e é o psicólogo quem se esforçará por fazê-lo. É necessário assinalar que o psicólogo não está em melhor situação para esclarecer-nos a questão acerca do alcance metafísico do recolhimento que acerca do valor noético do conhecer.

No seio do recolhimento tomo posição – ou, com maior exatidão, me ponho em estado de tomar posição – ante minha vida; me distancio [12] dela em certa maneira, pois não como o sujeito puro do conhecimento: nesta distanciação me levo comigo o que sou e o que quiçá minha vida é. Aqui aparece o intervalo entre meu ser e minha vida. Eu não sou minha vida; e se me encontro em estado de julgá-la – e não posso negar isto sem inclinar-me para um ceticismo radical que não é senão desesperismo (desespero) – é a condição de poder primeiro reunir-me no recolhimento mas além de todo juízo possível, e mais além de toda representação. O recolhimento é sem dúvida o menos espetacular que há na alma; não consiste em mirar algo; é uma recuperação, um restabelecimento interior, e caberia perguntar-se, o anoto somente de passo, se não seria necessário ver nele o fundamento ontológico da memória, o princípio de unidade efetiva e irrepresentável sobre o qual descansa a possibilidade mesma da recordação. A expressão inglesa to recollect one self (reunir-se consigo mesmo) é reveladora.

Poderia unicamente perguntar se o recolhimento não se confunde, depois de tudo, com esse momento dialético de volta sobre si ou, de melhor modo, do Fur-sich-sein (ser-para-si-mesmo) que está no centro do idealismo alemão?

Verdadeiramente, não o creio. Entrar em si não significa ser para si e mirar-se de certo modo na unidade inteligível do sujeito e do objeto. Pelo contrário, eu diria que estamos aqui em presença desse paradoxo que é o mistério mesmo em virtude do qual o eu no qual entra, cessa, pelo mesmo, de ser para mim mesmo. Não sou vocês. Estas grandes palavras de São Paulo sobram aqui sua significação, a sua vez, ontológica e essencialmente concreta; são as que melhor traduzem a realidade em torno da qual nos movemos agora. Esta realidade poderia perguntar-se, não é objeto de intuição? O que chama de recolhimento não é o que outros chamam a intuição?

Também agora me parece necessário ser extremamente prudente. Se é possível falar aqui de uma intuição, é de uma intuição que não se dá nem pode dar-se como tal.

Quanto mais central é uma intuição, quanto mais ocupa o fundo mesmo do ser que ilumina, tanto menos é susceptível, precisamente, de voltar sobre si e apreender-se.
Se reflexionarmos também no que poderia ser uma intuição do ser, vemos que tal intuição não é – nem deve ser- suscetível de figurar em uma coleção, de inventariar como uma experiência ou um Erlebnis (sucesso) qualquer, que, pelo contrário, apresenta sempre esse caráter de poder ser umas vezes integrada, e outras vezes isolada e como posta a descoberto. Desde logo, todo esforço por evocar esta intuição, para representá-la diria eu, tem que ser infrutífero. Neste sentido, falamos da intuição de ser é convidar-nos a tocar um piano mudo. Esta intuição, não se pode produzir a plena luz pela sensível razão de que, em verdade, não se a possui.

Estamos tocando aqui o ponto mais difícil de toda minha exposição. Em lugar de usar o término intuição, mas voltaria a dizer que temos que havê-la com uma segurança que sustém todo desenvolvimento do pensamento, inclusive o discursivo; portanto, somente podemos aproximarmo-nos a ele mediante um movimento de conversão, isto é, por uma reflexão segunda:a reflexão em virtude da qual me pergunto como, a partid de que origem, foram possíveis os passos de uma reflexão inicial que postulava o ontológico sem sabê-lo. Esta segunda reflexão [13], na medida que é capaz de pensar-se a si mesma, é o recolhimento.

Me resultaria muito penoso, em verdade, ter que usar uma linguagem tão abstrata quando se trata, no fundo, não de uma dialética ad usum philosophorum, senão do que pode haver de mais vital, e, diria de mais dramático no ritmo de uma consciência que se põe a prova com o fim de recobrar-se.

Este aspecto dramático é o que devemos esclarecer agora.

Voltamos ao que assinalei no começo: a exigência ontológica, a exigência de ser, pode negar-se a si mesma. Em outro nível, o ser e a vida não coincidem; minha vida, e por refração toda vida, pode parecer definitivamente inadequada a algo que levo em mim, que em rigor eu sou, mas que no entanto a realidade rechaça e exclui. A desesperação [14] é possível em todas suas formas, em todo instante, em todos os graus. Pode parecer que a estrutura mesma de nosso mundo nos recomenda, se é que não nos a impõe, esta traição. O espetáculo de morte que nos oferece este mundo pode ver-se, desse certo ângulo, como uma incitação perpetua a negação, a deserção absoluta. Inclusive, poderia dizer-se que a possibilidade permanente do suicidio é, neste sentido, o ponto quiçá essencial de todo pensamento metafísico verdadeiramente autêntico.

Talvez alguns se surpreendam ao ver aparecer em meio deste desenvolvimento abstrato e repousado, palavras tão extremamente carregadas de potencial afetivo, palavras vedette como suicidio ou traição. Não se trata de uma concessão ao sensacionalismo. Tenho persuadido que é no drama e através do drama [15], onde o pensamento metafísico se entende a si mesmo e se define em concreto. Jacques Maritain, em uma conferência pronunciava faz um ano ou dois anos em Lovaina sobre o Problema da Filosofia Cristã, disse: Nada mais fácil para uma filosofia que do que ser trágica; não tem mais que abandonar-se a seu peso humano, alusão sem dúvida as especulações de Heidegger. Eu creio, ao contrário, que a tendência natural da filosofia a inclina para regiões em que parece que o trágico houvesse desaparecido pura e simplesmente, se houvesse voltado ao contato com o pensamento abstrato. E isso é o que observamos em muitos idealismos contemporâneos. Porque ignoram a pessoa, e o sacrifício a não sei que verdade ideal, a não sei que principio anônimo de interioridade pura, e se revelam incapazes de abraçar estes dados trágicos da vida humana aos que fiz alusão; os expulsam junto com a enfermidade e tudo quanto esta implica, para não sei que suburbios de má fama em que o filósofo digno deste nome desdenha aventurar-se. Mas esta atitude é intimamente solidária, já o hei dito, de rechaço da exigência ontológica; na realidade é o mesmo.

Se hei feito enfase na desesperação, na traição, no suicidio, é porque, neles encontramos as expressões mais manifestas de uma vontade de negação que alcança efetivamente ao ser.

Tomemos por exemplo a desesperação. Se trata aqui do ato pelo qual unicamente desespera da realidade em seu conjunto, no sentido de que unicamente desespera de alguém. A desesperação se apresenta como a consequência ou a tradução imediata de certo balanço: por muito que eu possa apreciar o real – e o que excede minhas faculdades de apreciação é para mim como se não existisse – eu não descubro ali nada que resista a um processo de disposição que se prossegue no fundo das coisas e que minha reflexão me permite reconhecer e assinalar. Na raíz da desesperação creio encontrar esta afirmação: nada há na realidade que me permita apresentar-me crédito; nenhuma garantia. É um caso de insolvência absoluta.

A esperança, pelo contrário, implica justamente este crédito. Contrariamente ao que assinalou Spinoza, quem me parece haber confundido aqui noções totalmente distintas, o temor é correlativo não dá esperança senão do desejo, enquanto que o correlato negativo da esperança é ato que consiste em pensar o pior das coisas, um ato do qual constitui uma ilustração surpreendente e o chamado derrotismo, e que sempre corre o risco de degradar-se no desejo do pior. A esperança consiste em afirmar que há no ser, mais além de tudo o que é dado, de tudo o que pode ser matéria de um inventário ou servir de base para um cálculo qualquer, um princípio misterioso que está em cumplicidade comigo mesmo, que não pode deixar de querer o que eu quero, ao menos se o que eu quero merece efetivamente ser querido, e o quero realmente com todo meu ser.

Evidentemente estamos aqui no centro do que chamei de mistério ontológico, e os exemplos mais sensíveis são também os melhores. Esperar contra toda esperança que o ser amado triunfará da enfermidade incurável que o consome é como dizer: não é possível que eu seja o único a querer sua cura, é impossível que a realidade em sua estranheza seja hostil ou indiferente ao que eu afirme que é em si um bem. Será inútil citar exemplos, casos próprios para me desencorajar: mais além de toda experiência, de toda probabilidade, de toda estatística, afirmo que certa ordem será restabelecida, que a realidade está comigo para querer que ele seja assim. Eu não desejo: afirmo. Isto é o que chamaria a ressonância profética da verdadeira esperança.

Se me objetará: contudo, na imensa maioria dos casos somente se trata de uma ilusão. Mas, deixando a um lado o fato de que é próprio da essência do ato de esperar excluir a consideração de casos, seria necessário mostrar aqui que existe uma dialética ascendente da esperança, pela qual esta é levada a transferir-se sobre um plano transcendente a respeito a todos os desmentidos empíricos possíveis, ao plano da salvação por oposição ao plano do êxito qualquer que seja a forma em que este se apresente.

Não é menos certo que a correlação entre a esperança e a desesperação absoluta subsiste até o final. Não me parecem separáveis. Quero dizer, que a estrutura do mundo no que vivemos permite e em certa maneira parece aconselhar uma desesperação absoluta: pois somente em um mundo semelhante pode surgir uma esperança invencível. Hei aqui porque, finalmente, não me pode estar demasiado agradecido aos grandes pessimistas da história do pensamento; eles hão levado até o limite certa experiência interior que devia ser vivida plenamente e cuja possibilidade radical não deve mascarar apologética alguma. Eles nos hão preparado para compreender que a desesperação pode ser o que foi para Nietzsche (ainda que no registro infra-ontológico, em uma zona semeada de saltos mortais): o trampolim da mais alta afirmação.

Por outra parte, segue sendo certo que, na mesma medida em que a esperança é um mesmo mistério, como o ha visto Péguy, é possível desconhecer tal mistério e convertê-lo em problema [16]. Então se trata a esperança como um desejo revestido de juízos ilusórios que disfarçam uma realidade objetiva da que unicamente tem interesse em desconhecer seu verdadeiro caráter. Sucede aqui o que já temos anotado a propósito do encontro ou do amor; precisamente porque o mistério pode, e em certo sentido deve, logicamente, degradar-se em problema, é porque uma interpretação como a de Spinoza, com a confusão que implica, possa ser proposta em um momento dado. Enquanto não se coloca mais próximo do ontológico, uma atitude semelhante não pode dar pé a nenhuma crítica. Isto é muito importante e necessário insistir nele. Enquanto eu conserve ante a realidade a atitude de quem não está ali implicado [17], mas que se considera obrigado a levantar dela um ato, o mais exato possível (e está é por definição a atitude do científico), tenho fundamentos para observar frente a esta realidade uma série de desconfiança de princípio que não implica nenhum limite de aplicação; tal é a atitude do homem de laboratório, quem em nenhum grau poderia prejulgar os resultados das análises que realiza, e que pode mais facilmente examinar o pior, pois neste plano a noção mesma do pior se esvazia de sentido. Mas justamente uma investigação desta ordem, rigorosamente comprovável a de um sensor de contas, se leva a cabo mais próximo da ordem do mistério, da ordem em que o problema rebaixa seus próprios dados.

Em realidade, quando me interrogo, por exemplo, sobre o valor da vida, estou em uma profunda fantasia se me imagino que posso conservar, todavia, essa atitude: é um verdadeiro paralogismo pensar que posso prosseguir essa investigação como se eu mesmo não estivesse em jogo.

Desde logo, entre a esperança, a realidade da esperança no coração daquele em que ela habita, e os juízos que têm acerca dela um espírito que segue prisioneiro da objetividade, há a mesma partição que separa o problema do mistério.

Nos encontramos aqui em um nó vital de nosso tema no que aparecem algumas conexões particularmente íntimas.

O mundo do problemático é ao mesmo tempo o mundo do desejo e do temor, que não podem ser separados; é também, sem dúvida alguma, o mundo funcionalizado ou funcionalizados que hei definido ao começo desta meditação; é, no fim, aquele mundo no que reinam as técnicas quaisquer que sejam. Não há técnica que não esteja diretamente, ou que não possa estar, posta ao serviço de tal desejo, de tal temos; e, inversamente, todo desejo ou todo temor tenderá a inventar técnicas que lhe sejam apropriadas. Desde este ponto de vista, a desesperação consiste em reconhecer a ineficácia última das técnicas, sem consentir ou sem chegar a colocar-se em um terreno em que toda técnica se reconheceria incompatível com os caracteres fundamentais de ser, que por essência escapa a nosso domínio (isto estando em nosso domínio se exerce no mundo dos objetos e nele exclusivamente). Esta é a razão pela qual pode parecer que hoje em dia hajamos deixado de crer na técnica, isto é, de considerar a realidade como um conjunto de problemas, e, ao mesmo tempo, o fracasso global das técnicas é tão claramente discernível como o são seus triunfos parciais. A pergunta que pode o homem? Ainda respondemos: o homem pode o que pode sua técnica [18]; mas, ao mesmo tempo, temos que reconhecer que esta técnica se revela incapaz de salvar-lhe a si mesmo, e inclusive se mostra capaz de compactuar com o inimigo que o homem leva dentro de si, as mais temíveis alianças.

Entregado a técnica. O qual significa cada vez mais incapaz de dominá-la, ou, melhor, de dominar seu próprio domínio. Pois o domínio de seu próprio domínio, que é a expressão no plano da vida ativa do que hei chamado à reflexão segunda, somente pode encontrar seu centro ou seu ponto de apoio no recolhimento.

Se me objetar que o homem mais imbuído da crença na técnica está obrigado a reconhecer que existem campos imensos sobre os quais ele não tem nenhum poder. Pois o que importa aqui não é esta constatação, senão a maneira como o espírito a julga. Estamos obrigados a reconhecer que carecem completamente de poder sobre as condições meteorológicas, mas se trata de saber se estimamos, já que seria desejável e justo que se nos concedesse este poder. Quanto mais tende a desaparecer o sentido do ontológico na persona, mas ilimitadas lhe resultam suas pretensões, inclusive até de alcançar uma espécie de poder cósmico, porque cada vez mais será menos capaz de interrogar se sobre os títulos que possa ter para exercer esse poder.

Devemos aludir que quanto mais aumente a desproporção entre as reivindicações da inteligência técnica e a fragilidade, – isto é, a precariedade persistente do substrato material que segue sendo, depois de tudo, seu assento ao menos aparente -, tanto mais irão exacerbando-se as possibilidades permanentes de desesperação no fundo dessa inteligência. Neste sentido, realmente há uma correlação dialética íntima entre um otimismo do progresso técnico e uma filosofia da desesperação que emana dele quase inevitavelmente, e não é necessário insistir sobre as ilustrações que a este propósito nos proporciona o mundo de 1933.

Se poderá dizer: depois de tudo, este otimismo do progresso técnico está animado por uma grande esperança. Como pode conciliar-se isto com uma interpretação ontológica da esperança?

Metafisicamente falando, creio que é preciso responder que a única esperança autêntica é aquela que se dirige ao que não depende de nós, aquela cujo recorte é a humildade, não o orgulho. E aqui nós vemos induzidos a considerar outro aspecto do mistério, sempre único, sobre o qual trato de fazer algumas observações.

O problema metafísico do orgulho, da hybris, que já os gregos advertiram e que foi um dos temas essenciais da teologia cristã, me parece que há sido quase integralmente desconhecido pelos filósofos não teólogos dos tempos modernos. Era este um terreno reservado aos moralistas. Mas desde o ponto de vista em que eu me situo é, ao contrário, uma questão essencial, e até quiçá a questão vital. Basta ver a identificação que Spinoza da da soberba na Ética (III, def. XXVIII) para comprovar até que ponto desconheceu o problema: O orgulho, diz, é uma opinião demasiado boa que o amor próprio nos dá de nós mesmos. Em realidade esta é uma definição da vaidade. O orgulho consiste em encontrar a força somente em si mesmo; separa aquele que o experimenta de uma certa comunhão com os seres, e ao mesmo tempo, tende a destruí-la; atua como um princípio de destruição.

Esta destruição, por outra parte, pode dirigir-se contra ele mesmo; e, de modo algum, o orgulho é incompatível com o ódio a si mesmo, inclusive pode levar ao suicidio [19]; e isto, me parece, é o que não advertiu Spinoza.

Neste ponto a que temos chegado ameaça surgir uma objeção geral muito grave.

No fundo, se me dirá, quiçá, o que vocês se vê levado a justificar ontologicamente não é uma espécie de quietismo moral que se satisfaz com a aceitação passiva, a resignação, a esperança inerte? Que tem que ver, nisto tudo, o homem, enquanto homem, enquanto ser que atua? Não é a mesma ação a que está condenada, na medida em que a ação implica uma confiança em si, se se a relaciona com o orgulho? A mesma ação não é, ao fim das contas, uma degradação?

Sinalizarei que esta objeção implica uma série de equívocos.

De entrada, a ideia de uma esperança inerte é, a meu modo de ver, contraditória. A esperança não é uma espécie de espera adormecida. É algo que subjaz na ação ou que o plana sobre ela, mas que certamente se degrada ou desaparece quando a ação mesma se extenua. A esperança aparece como a prolongação no desconhecido de uma atividade central, isto é, arraigada no ser. Por onde suas afinidades não são como o desejo senão como a vontade. A vontade, em efeito, implica também um rechaço a fazer um cálculo dos casos possíveis, ou, ao menos, uma parada em tal cálculo. Não poderia, então, definir-se a esperança como uma vontade que se aplica ao que não depende dela?

Temos a prova experimental desta conexão no fato de que nos homens mais santos é onde a esperança há alcançado seu mais alto grau; isto seria inconcebível se a esperança fosse um simples estão inconstante da alma. O que aqui há de falsificado tudo, como também nas partes mais altas da ética, é uma certa representação estóica da vontade concebida como rigidez, enquanto que, pelo contrário, é aberta entrega e criatividade.

Esta palavra criatividade [20] se nos apresenta pela primeira vez, e no entanto, é a palavra decisiva. Onde há criatividade não há, nem pode haver, degradação. E na medida em que a técnica é ou implica criatividade, de modo algum, é degradação. A degradação começa no momento em que a criatividade se repreende ou se hipnotiza sobre si, se contará sobre ela mesma. E nisto podemos advertir a fonte de certos equívocos que denuncie a propósito do recolhimento.

Grande é a tentação de confundir dois movimentos que nossas metáforas espaciais nos impedem opor claramente entre si: essa contração se desprende sobre si que os inseparáveis do orgulho, que até o simbolizam, não deveriam ser confundidos com a retirada humilde que convém ao recolhimento e mediante o qual eu recubro o contato com minhas bases ontológicas.

Cabe pensar que a mesma criatividade estética supõe essa retirada, esse recolhimento. A criatividade estética [21] o mesmo que a investigação científica, excluem em realidade o ato pelo qual o eu se centra, se concentra em foco a si mesmo, e este ato é ontologicamente pura negação.

Pode parecer que me aproximo aqui das teses bergsonianas até o ponto de coincidir com ela. No entanto, não creio que seja assim realmente. Os termos com que quase sempre se ha servido Bergson fazem pensar que para ele o essencial na criação é a inventiva, a inovação vital. Pois me pergunto se, ao concentrar a atenção com demasiada exclusividade sobre este aspectos da criação não se tende a perder de vista sua significação última, sua raíz no ser. É aqui onde inverteria a noção de fidelidade criadora [22], noção tanto mais difícil de amarrar e, sobretudo , de precisar conceitualmente quanto que encobre uma paradoxal insondável, quanto que está no centro mesmo do meta-problemático.

É importante observar que, em uma metafísica bergsoniana, parece difícil salvar a fidelidade porque corre sempre o risco de ser interpretada como uma rotina, como uma observância no sentido pejorativo da palavra, como uma salvaguarda mantida arbitrariamente contra o poder de renovação que é o espírito mesmo.

Me inclino a crer que neste desconhecimento dos valores da fidelidade há algo que vicia profundamente a noção de religião estática tal e como aparece na palavra As duas fontes [23]. E aqui uma meditação sobre a fidelidade criadora, da qual somente posso indicar alguns traços, poderia permitir uma pontualização indispensável.

A fidelidade é em realidade o contrário de um conformismo inerte; é o reconhecimento ativo de uma certa permanência não formal, a maneira de uma lei, senão ontológica. Neste sentido se refere sempre a uma presença [24] ou a algo que pode e deve manter-se em nós e ante nós como presença, mas que ipso facto pode perfeitamente ser esquecido, desconhecida, obstruída; e aqui vemos reaparecer de novo a sombra da traição que, em minha opinião, envolve todo nosso mundo humano como uma névoa sinistra.

Se dirá que falamos do que comumente se entende por fidelidade a um princípio? Fica por saber se não há aqui uma transposição ilegítima de uma fidelidade de outra ordem. A princípio, enquanto se reduz a uma afirmação abstrata, não pode exigir nada de mim, pois deve toda sua realidade ao ato pelo qual eu o sanciono ou o proclamo. A fidelidade a um princípio enquanto princípio é uma idolatria no sentido etimológico da palavra; pode ser para mim uma obrigação sagrada renegar de um princípio do qual se há retirado a vida, e ao qua sendo qual sinto que já não me adere: se continuo conformado segundo a minha conduta, é a mim mesmo – a mim mesmo enquanto presença – a quem traiu.

A fidelidade não tem nada de conformismo inerte já que implica uma luta ativa e contínua contra as forças que tendem em nós para a dispersão interior e para as escleroses da rotina. Me será dito: depois de tudo, não é senão uma espécie de conservação ativa; é o contrário de uma criação. Aqui é necessário, creio, penetrar muito mais fundo na natureza da fidelidade e da presença.

Se a presença não fosse mais que uma ideia em nós, cuja característica fosse ser somente ela mesma, tudo quanto poderíamos esperar, em efeito, seria necessário em nós ou ante nós esta ideia como se guarda uma fotografia na caixa sobre a lareira. Pois o próprio de uma presença enquanto presença é ser incircunscrita (sem limites); e aqui, uma vez mais, encontramos o meta-problemático. A presença é mistério na medida mesma em que é presença. Pois, a fidelidade é a presença ativamente perpetuada, é a renovação do bem estar da presença, de sua vontade, que consiste em ser uma misteriosa incitação a criar. Todavia, aqui a consideração da criatividade artística pode nos ser de grande ajuda, pois esta somente é concebível a partir de uma certa presença do mundo para o artista; presença no coração e na inteligência, presença no ser mesmo.

Portanto, se é possível uma fidelidade criadora é porque a fidelidade é ontológica em seu princípio, porque prolonga uma presença que corresponde a um certo poder do ser sobre nós; por isso mesmo multiplica e aprofunda, de uma certa maneira, quase insondável o eco desta presença no centro de nossa duração. Me parece que isto tem consequências em certo modo inesgotáveis, embora somente seja a respeito das relações entre os vivos e os mortos.

Convém insistir, todavia, mais nisto: uma presença a qual nos mantemos fiéis não é a imagem zelosamente preservada de um objeto desaparecido; a imagem, apesar de tudo, não é mais que um simulacro, metafisicamente é menos que o objeto, é uma redução dele. A presença ao contrário, é mais que o objeto, o desborda em todos os sentidos. Nos encontramos no umbral de um caminho a cujo término a morte [25] aparece como a prova da presença. Ponto essencial sobre a prova da presença. Ponto essencial sobre o qual convém concentrar agora nossa atenção.

Se dirá: Que estranha maneira de definir a morte! A morte é um fenômeno definido em termos biológicos. Não é uma prova.

Há que responder: ela é o que significa, e o que significa para um ser situado no nível espiritual mais elevado ao que possamos chegar. É evidente que quando me informa o periódico da morte de fulano, de um fulano que somente é para mim um homem, não é mais que um objeto de notificação; significa que posso taxar-lhe do número de pessoas as quais posso dirigir me para perguntar-lhes algo ou para informar-lhes de algo. Ocorre algo totalmente distinto com um ser que se me ha dado como presença.

Aqui depende de mim, da minha atitude interior, manter esta presença que poderia degradar-se em imagem.

Se replicou que se trata somente de uma tradução na linguagem insólita e inutilmente metafísica de um fato psicológico muito trivial. É evidente que depende de nós, em certa medida, que os mortos vivam ou não em nossa recordação. Pois essa é uma existência totalmente subjetiva.

Eu creio que, na realidade, se trata de algo muito distinto, de uma realidade infinitamente mais misteriosa. Quando se diz: depende de nós que nossos mortos vivam em nós, se alude uma vez mais a ideia como redução ou como imagem. Se admite que o objeto tenha desaparecido, contudo que subsiste nele um simulacro que está em nosso poder conservar, no sentido mais familiar do termo, igual que uma assistente conserve limpo um apartamento ou um mobiliário. Está muito claro que este cuidado não apresenta nenhum valor ontológico. Pois se a fidelidade é criadora, no sentido que tratei de defini-la, ocorre algo totalmente distinto. Uma presença é uma realidade, um certo influxo; depende de nós permanecer ou não permeáveis a este influxo, pois não, para dizer a verdade, suscitá-lo. A fidelidade criadora consiste em manter-se ativamente no estado de permeabilidade; e aqui vemos operar-se uma espécie de intercâmbio misterioso entre o ato livre e o dom pelo qual é correspondido.

Há que prever uma objeção inversa e simétrica com respeito a precedente. Se me dirá: está bem, acaba você de decorar com vocábulos metafísicos um lugar comum da psicologia, pois somente é para afirmar gratuitamente uma tese indemonstrada e que excede toda experiência possível; e isto é assim desde o momento em que você substituí o termo neutro e ambíguo de presença pelo de influxo, que é infinitamente mais comprometedor.

Para responder a essa objeção creio necessário referimos uma vez mais ao dito sobre o mistério e o recolhimento. Em efeito, somente o terreno meta-problemático pode acolher-se a noção de influxo. Se se a tomarmos em sua acepção objetiva, a de uma aportação de força, nos encontramos frente a uma tese não metafísica senão física, que seria própria, efetivamente, para despertar todas as impugnações. Quando digo que um ser me é dado como presença ou como ser (equivale ao mesmo, pois não há um ser para mim se não é uma presença), ele significa que não posso tratá-lo como se estivesse simplesmente posto ante mim; entre ele e eu se amarra uma relação que em certo sentido desborda a consciência que eu pudesse ter dele; tal ser não está somente ante mim, estas categorias ficam separadas, perdem seu sentido. A palavra influxo traduz, embora de uma maneira excessivamente espacial, demasiado física, a espécie de aportação interior, de aportação desde dentro, que se realiza desde o momento em que a presença é efetiva. Grande por certo, quase invencível, será a tentação de pensar que esta presença efetiva não pode ser mais que a presença de um objeto; pois, com ele voltamos a cair mais proximamente do mistério, no plano do problemático; e então se faz ouvir este protesto da fidelidade absoluta: ainda quando eu não possa nem tocar-te nem ver-te, eu sinto que tu estás comigo; seria negar-te o não estar seguro dele. Com-migo. Notemos aqui o valor matafísico desta palavra com, tão raramente reconhecido pelos filósofos, e que não corresponde nem a uma relação de exterioridade. Será essencial – estou obrigado a adotar aqui a palavra latina – que um coesse autêntico, isto é, que uma intimidade real, se preste a análises de uma reflexão crítica; pois, sabemos já que a outra reflexão, uma reflexão sobre essa mesma reflexão, e que se refere a uma intuição subjacente, confusa porém eficaz, cujo secreto magnetismo ela experimenta.

É preciso aludir – e com ele nos dispomos a passar a outra esfera – que o valor de tal intimidade, em particular não concerne às relações entre os vivos e os mortos, será tanto mais alta e irrecusável quanto mais claramente se situe esta relação em um mundo de disponibilidade espiritual, isto é, de pura caridade; e anoto de passo que uma dialética ascendente da fidelidade criadora corresponde a dialética da esperança a qual acabo de fazer alusão.

A noção de disponibilidade não é menos importante para nosso tema que a de presença; aludo que entre uma e outra existe um vínculo evidente.

É um fato de experiência irrecusável, contudo do qual é difícil dar uma tradução inteligível, que há certos seres que se nos revelam como presentes, isto é, como disponíveis quando sofremos, quando tememos necessidade de confiarmos a eles, e que há outro que não causam este sentimento e não obstante sua possível boa vontade. Se deve assinalar imediatamente que a distinção entre presença e não presença em nenhuma forma se reduz a oposição entre estar atento e estar distraído.

O ouvinte mais atento, o mais conscientizado, pode dar-me a impressão de não estar disponível; não me aponta nada, não pode realmente fazer-me um lugar em si mesmo, qualquer que sejam os serviços materiais com que possa me preencher. Em realidade há uma maneira de escutar que é uma maneira de dar; há outra maneira de escutar que é uma maneira de recusar, de recusar-se: o dom material, a ação visível, não é necessariamente um testemunho de presença. Não falamos de prova; aqui a palavra prova desentonaria. A presença é algo que se revela e irrecusavelmente em uma mirada, em um sorriso, em um assento, em um aperto de mãos [26].

Diria, para esclarecer tudo isto, que o ser disponível é aquele ser capaz de estar íntegro comigo quando eu o necessito; o ser indisponível, pelo contrário, é aquele que parece operar em meu favor uma espécie de atribuição momentânea no conjunto dos recursos dos que possa dispor. Para o primeiro eu sou uma presença, para o segundo um objeto. A presença implica uma reciprocidade que sem dúvida exclui toda relação de sujeito e objeto ou de sujeito a sujeito-objeto. E aqui uma análise concreta da indisponibilidade não é menos necessária que o da traição, a renegação ou a desesperação.

Na realidade, no coração da indisponibilidade encontraremos sempre uma certa alienação. Alguém solicita minha simpatia por um certo infortúnio que me expõe; compreendo o que me diz, reconheço de uma maneira abstrata que as gentes de que me falam merecem minha compaixão; discernir ali um caso ao que seria lógico e justo responder com simpatia, e a concedo, se se quer, contudo somente em ideia, pois em fim me vejo forçado a confessar-me que não sinto nada. Por outra parte lamento; esta contradição entre o que experimento de fato – é dizer, minha indiferença – e o que reconheço que deveria experimentar, me é penosa e me irrita, inclusive me diminui a meus próprios olhos. Pois é em vão. O que fica em mim é o sentimento bastante inconfessável de que, depois de tudo, se trata de gentes que não conheço; que se fosse necessário comover-se por todos os infortúnios humanos então a vida não seria possível, e que ademais não daria suprimento. Desde o momento em que penso, depois de tudo não é mais que o caso 75-627, tudo há terminado, já não se pode experimentar nada.

Contudo, a característica da alma presente ou disponível é, justamente, não pensar em casos; para ela não há casos.

E no entanto, está claro que no crescimento normal de uma pessoa, se dá uma espécie de assinatura cada vez mais precisa e como automática entre aquilo que lhe concerne e aquilo que não lhe concerne, entre aquilo do que é responsável e aquilo do que não é; cada um de nós se converte assim no centro de um espaço mental que se dispõe segundo zonas concêntricas de aderência e de interesse decrescentes. No fundo é como se cada um de nós segregasse uma comparação cada vez mais dura que o aprisiona; e a esclerose está ligada ao endurecimento das categorias segundo as quais nós representamos o mundo e o valoramos.

Felizmente, a cada um de nós pode ocorrer um encontro [27], que rompe os esquemas de toda esta topografia egocêntrica. Pessoalmente, posso compreender por experiência, que de um desconhecido chamado ao azar surja subitamente uma chamada irresistível para o ponto de perturbar todas as perspectivas habituais, exatamente como uma corrente de vento perturbava todos os planos escalonados de um decorado: o que pareceria próximo se tornaria infinitamente distante, e inversamente. São brechas que se fecham quase de imediato. Estas experiências nos deixam frequentemente, um gosto amargo, uma impressão de tristeza e quase de angústia. Não obstante as creio benéficas, pois nos mostram, como em um relâmpago, o que há de contingente e de acidental nas cristalizações mentais que fundamentam nosso sistema pessoal.

Pois, sobretudo, o fato da santidade de algumas pessoas está ali para demonstrar-nos que o que chamamos ordem normal não é, depois de tudo e desde um ponto de vista superior, desde o ponto de vista de uma alma arraigada no mistério ontológico, senão a subversão de uma ordem estabelecida. Neste sentido, a reflexão sobre a santidade com todos seus atributos concretos me parece apresentar um valor especulativo imenso: não faria falta pressionar-me demasiado para fazer-me dizer que a santidade é a verdadeira introdução a ontologia.

Aqui, uma vez mais, a confrontação com a alma indisponível arroja sobre nosso tema claridades decisivas.

Estar indisponível é, em certa maneira, estar não somente ocupado de si mesmo, senão aprisionado por um mesmo. Digo de certa maneira, pois o objeto imediato pode variar indefinidamente: estar ocupado de um mesmo, da própria fortuna, dos amores, e inclusive do próprio perfeicionamento interior. Daqui se poderia extrair a conclusão que estar ocupado de si, é muito menos que estar ocupado de certo objeto – aqui quais inespecificável – que estar de certa maneira que fica por definir [28].

Devemos reparar em que o contrário de estar ocupado de si não é o estar vazio ou indiferente. O que se opõe aqui é, de melhor modo, ser opaco ao ser transparente. Pois igualmente é necessário chegar a pensar esta mesma opacidade interior. Trata-se, creio, de uma espécie de obturação ou de fixação; e me pergunto se, generalizando muito e flexibilizando certos dados psicanalíticos, não deveria reconhecer-se que esta fixação, em uma zona ou em um registro determinado, é a fixação de uma falsa inquietude. Pois, o notável é que tal inquietude persiste no centro desta fixação, e ademais lhe dá esse caráter de tensão do que já disse algumas palavras a propósito da vontade degradada. Tudo permite pensar que esta inquietude indeterminada se confunde em realidade com a angústia da temporalidade, com a aspiração do homem não para, senão pela morte, que está no coração do pessimismo.

As raízes do pessimismo são as mesmas que as da indisponibilidade; se esta aumenta à medida que envelhecemos, é porque muitas vezes a angústia cresce em nós acercando-nos ao que consideramos um término, para proteger-se dela mesma, esta angústia deve pôr em ação um aparato de defesa cada vez mais pesado, cada vez mais minucioso, e também aludir, cada vez mais vulnerável. A incapacidade para a esperança se faz cada dia mais completa à medida que o ser está mais motivado em sua experiência e na prisão das categorias na qual esta experiência o amargura, a medida que ele se entrega mais integralmente, mais desesperadamente, ao mundo do problemático.

E aqui se reúnem como em um haz os principais motivos ou elementos temáticos que me hei visto forçado a apresentar em forma sucessiva. A pessoa mais disponível é a mais consagrada, a mais interiormente dedicada: está protegida contra o desespero e contra o suicidio, que se assemelham e se comunicam, porque sabe que sua existência não a deve a si mesma, e que o único uso totalmente legítimo que pode fazer de sua liberdade consiste precisamente em reconhecer que não se pertence.

Somente a partir deste reconhecimento pode atuar, pode criar…

Não se pode dissimular nem por um instante, as dificuldades de toda ordem com que tropeça uma filosofia deste tipo. Tal filosofia se encontra inevitavelmente ante uma alternativa inquietante: ou bem tratará de resolver essas dificuldades, de dar-lhes solução, e cairá então de seus princípios vitais e, acrescentaria, de uma teodiceia sacrílega; ou bem, simplesmente deixará subsistir tais dificuldades colocando-lhes a etiqueta de mistérios.

Entre estes dois escolhos creio que existe uma via média, um caminho estreito, difícil, perigoso. É o que hei tratado não de traçar, senão de encontrar. Pois aqui somente se pode proceder pelas chamadas, como Karl Jaspers em sua Filosofia da Existência: se, como tive ocasião de comprovar, algumas consciências respondem, não a consciência em geral, senão este ser, aquele ser, então é que existe verdadeiramente um caminho. Pois – creio que Platão o viu com uma nitidez incomparável – esse caminho somente pode descobrir-se pelo amor, somente para ele se faz visível; e aqui aparece um caráter, mais profundo quiçá que todos os outros, dessa realidade meta-problemática da que tentei explorar certas regiões.

Outra gravíssima objeção há que mencionar finalmente. Se me dirá: Em realidade, tudo quando você disse implica uma referência – inconfessada, informulada ademais -, aos dados cristãos, e somente a sua luz se esclarece positivamente. Assim compreendemos o que você entende pela presença quando evocamos a Eucaristia, pela fidelidade criadora quando pensamos na igreja. Pois então qual será o valor de tal filosofia para consciências não cristãs, isto é, que ignoravam o cristianismo, ou, em todo caso, se declaram incapazes de aderir-se a ele?

Minha resposta será a seguinte: é muito possível que a existência dos dados cristãos fundamentais seja necessária de fato para permitir ao espírito conceber algumas das noções cuja análise hei esboçado: porém não se pode dizer que estas noções estejam sobre a dependência da revelação cristã. Não a supõem.

Por outra parte, se se chega a declarar que a razão deve proceder fazendo inteira abstração de tudo o que não se dá universalmente a um ser pensante qualquer que seja, eu direi que nisso há uma pretensão abusiva e em último extremo uma fantasia.

O filósofo, hoje como em qualquer época, se encontra em uma certa situação histórica da que é muito pouco verossímil que possa abstrair-se realmente: somente sendo vítima de uma ficção se imagina que pode fazer o vazio em si e em torno de si. Pois, esta situação implica, como um de seus dados essenciais, à existência do fato cristão com tudo o que este implica, e isto já seja que um se adere ou não a religião cristã, ou que considere como verdadeiras ou como falsas as afirmações cristãs centrais. O que está claro para mim é que não podemos pensar como se antes de nós não houvesse havido séculos de cristianismo, o mesmo que, na ordem da teoria do conhecimento, não podemos pensar como se antes não houvesse séculos de ciência positiva. Somente que a existência do dado cristão, como a existência da ciências positiva, não julgam aqui mais que o papel de um princípio fecundante. Favorece em nós a eclosão de certos pensamentos aos quais de fato não havíamos chegado quiçá sem ela. Esta fecundação pode efetuar-se no que eu chamaria de zonas peri-cristãs, e, pessoalmente, encontro a prova dele no fato de que se produziu em mim mesmo quase vinto antes de que eu tivesse a mais distante ideia de converterem ao catolicismo [29].

Por outra parte, tenho que fazer notar – e esta vez me dirijo sobretudo aos católicos – que desde meu ponto de vista, a distinção entre o natural e o sobrenatural deve ser mantida rigorosamente. Se dirá que o emprego da palavra mistério corre o risco de criar aqui um equívoco e favorecer a unificação que eu rechaço? Responderei que para mim não existe o problema de confundir os mistérios envoltos na experiência humana enquanto tal – o conhecimento, o amor, por exemplo – com os mistérios revelados com a Encarnação ou a Redenção; a estes mistérios nenhum esforço de um pensamento que reflexione sobre a experiência nos permite nos elevar.

Se me objetará: nesse caso, por que usar a mesma palavra em duas acepções tão distintas? Contudo observei aqui que uma relevação, qualquer que seja, tampouco é pensável senão enquanto se dirige a um ser comprometido no sentido que hei tratado de definir, isto é, que participa em uma realidade não problematizada e que o eleva enquanto sujeito. A vida sobrenatural deve encontrar manuseio, pontos de inserção, na vida natural. E, de modo algum, isto significa que seja o resultado da vida natural.

Tudo o contrário. Me parece que se aprofunda na noção da natureza criada, fundamental para um cristão, nos vemos levados a reconhecer no fundo da natureza, uma razão que lhe está ordenada, um princípio de radical inadequação a si mesma que é como a ansiosa antecipação de uma ordem indiferente.

Para resumir minha posição sobre este ponto particularmente importante e difícil, direi que o reconhecimento do mistério ontológico, onde eu vejo o reduto central da metafísica, sem dúvida somente é possível de fato graças a uma espécie de irradiação fecundante da revelação mesma, que pode produzir-se perfeitamente no centro de almas alheias e qualquer religião positiva; que este reconhecimento que se efetua através de certas modalidades superiores da experiência humana, não implica, de modo algum, a adesão a uma religião determinada, pois permite, no entanto, a quem se há elevado até ele, entrever a possibilidade de uma revelação de um modo muito diferente a como poderia fazê-lo quem, não havendo rebaixado os limites do problematizados, se faz mais próximo do ponto em que o mistério do ser pode ser advertido e proclamado. Tal filosofia se lança assim, com um movimento irresistível, ao encontro de uma luz que pressente e da qual experimenta no fundo de si mesma como um secreto estímulo e um ardente presságio.

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NOTAS:
[01] Toda filosofia de Gabriel Marcel podemos definir como um esforço metodológico por aceder ao Mistério Ontológico.
[02] O Diário Metafísico (1914-1923), compreende uma série de pensamentos dispersos que surgem quase espontaneamente e sem desenvolvimento sistemático, entre os anos de 1914 e 1923. Foi publicado em Paris no ano de 1927. Depois escreve MARCEL um segundo Diário Metafísico entre os anos 1928 e 1933, e aparece publicado (em 1935) sobre o título de “Être et Avoir. Move a confusão o título de Diário Metafísico publicado pela editorial Guadarrama (1969) quando, em realidade, essa tradução corresponde a obra intitulada por G. MARCEL Ser e Ter. Para evitar erros, seria aconselhável aludir sempre (1914-1923) ou (1928-1933), segundo o Diário Metafísico de que se trate. Por outra parte, a obra Présence et Immortalité é o terceiro diário metafísico escrito por G. MARCEL entre os anos de 1938 e 1943 (publicado em 1959).
[03] G. MARCEL emprega aqui a mesma expressão que põe na boca de Christiane, a protagonista de Le monde cassé, quando sente desmoronar-se a sua vida: vivemos… em um mundo quebrado (partido) … como um relógio.
[04] Despertar é, segundo G. MARCEL, tudo o contrário a fazer a experiência da esperança. A esperança, em efeito, será aquele ato pelo qual fica superada e vencida a tentação de desesperar.
[05] A palavra apropriação está carregada de pleno sentido metodológico. O Ser para G. MARCEL não é um mero conceito ou uma mera ideia. É, pelo contrário, o mais concreto e o mais cheio de vida que existe.
[06] Segundo G. MARCEL o homem pode unir-se ao real através de diferentes experiências de participação. Resumindo muito sua postura, podemos distinguir em sua obra até três níveis distintos de participação. Em um primeiro momento o homem se vincula ao real através dos sentidos: é o nível da encarnação (o homem é espírito encarnado) concretada na experiência de meu corpo. Outra maneira, superior a encarnação, de unir-se o homem a realidade série o que ele chama a comunhão com os demais seres (a intersubjetividade). Contudo, todavia, pode o homem, em um terceiro nível, aproximar-se mais da realidade, e é através da experiência da transcendência. É, em definitivo, a participação no nível de ser. É a experiência metafísica, sumo grau da montagem de conjunto do real. Aqui desaparece a divisão dualista cristã de alma e corpo, para confundir-se em uma única substância: o ser pessoal.
[07] A distinção que estabelece G. MARCEL entre problema e mistério é a nosso juízo, uma das ideias mais geniais e mais fecundas de toda a Filosofia do século XX.
[08] Por reflexão segunda o homem descobre o fundamento dos juízos verdadeiros. A segunda reflexão é o nervo do esforço filosófico. Ela permitiu a G. MARCEL revelar o ser implicado no eu, o amor implicado na liberdade.
[09] Se desejarmos estar com alguém que amas não estás já ao seu lado? Podem os quilômetros separar a duas pessoas que se amam? Estes exemplos nos mostram, em efeito, que o em mim e o diante de mim perde sentido ao mover-nos no âmbito do amor.
[10] Por amor, e entranhado no centro da fidelidade, escapa o homem a solidão e ao desespero e penetra no mistério da esperança.
[11] Há que transcender o esquema tradicional potência-ato, para poder compreender este estado de ânimo que chamamos recolhimento. G. MARCEL fala em outro momento de sua obra, que um dos mais maiores que inquietam a humanidade contemporânea é que a perdido o sentido do recolhimento.
[12] Trata-se aqui de uma distância em chave metodológica: me distancio depois de poder ganhar presença. No recolhimento tomo distância de minha vida, para depois encontrar-me a mim mesmo.
[13] Veja-se a nota 08.
[14] O desespero (desesperismo) está sempre à nossa porta. Pode surgir de golpe. G. MARCEL alude, em outro momento de sua obra, as possibilidades de desespero que nos rodeiam por todas as partes e brotam a nosso passo, comparando-as a uma vegetação luxuosa e maléfica.
[15] Não podem ser mais taxativas estas palavras. Quando G. MARCEL quer esclarecer um tema que coloca alguns personagens a caminhar pelo drama da vida. Filosofia in concreto.
[16] O homem sempre tem a seu alcance a tentação de degradar o mistério em problema. Trata-se de uma redução, um reducionismo, fácil de consequências catastróficas.
[17] “Eu não assisto o espetáculo” aponta no segundo Diário Metafísico (1928-1933), dando a entender que há que comprometer-se com a realidade.
[18] SAINT-EXUPÉRY dizia que não há mais que um problema no mundo: dar aos homens um sentido espiritual, uma inquietude espiritual. Não se pode viver de técnicas. Não se pode viver sem poesia, sem cor, sem amor. Trabalhando unicamente para os livros materiais da técnicas, estamos construindo nossa própria prisão.
[19] Uma forma isolada de suicidio é a de matar o tempo, como fazem por exemplo Vladimir e Estragon, protagonistas da obra Esperando a Godot de SAMUEL BECKETT; sem dúvida, precursores do fenômeno atual passotismo (passividade).
[20] Traduzimos aqui a palavra création (criação) por creatividad (criatividade), porque, a nosso entender, é mais apropriada que a palavra castelhana creación (criação), pelo que está implica de necessidade. Desde o momento em que há criação (criatividade), seja do grau que seja, estamos no Ser. O sublinhado é meu.
[21] G. MARCEL é um pensador experimental, contudo não empirista. Sua filosofia não se baseia em meros fatos, senão em acontecimentos criadores. Por isso se refere aqui às mais altas cotas de criatividade artística e estética.
[22] Pela primeira vez aparece este matiz de criadora aplicado à fidelidade. Em rigor, não há fidelidade senão uma pessoa. Não a uma ideia ou a um ideal. A fidelidade criadora consiste em manter-se ativamente em estado de permeabilidade para essa pessoa.
[23] BERGSON: As duas fontes da moral e da religião.
[24] Para fazer ver a diferença que separa o objeto e a presença, MARCEL cita exemplos da experiência cotidiana. Hei aqui um texto de sua obra O Mistério do Ser que nos parece sumamente clarificador a este respeito: Suponhamos que há alguém no quarto onde estamos. Posso mirar-lhe com atenção, falar-lhe, tocar-lhe e, no entanto, não resulta infinitamente mais distante que um ser querido que se encontra a mil léguas de distância ou que nem sequer pertence a este mundo. O que o homem que temos ao lado carece de presença…
[25] O problema da morte se esfuma ante o mistério. A meditação sobre a morte pode chegar a ser uma meditação sobre a vida.
[26] A presença, em definitivo, se patenteia de maneira luminosa no ser disponível.
[27] Nada está perdido para um homem que vive um grande amor ou uma verdadeira amizade; pois tudo está perdido para o que está só. Carta de G. MARCEL a ROGER TROIS FONTAINES.
[28] Estar disponível, pois, é mais uma atitude interior que uma ação objetivável.
[29] Aduz aqui G. MARCEL sua própria experiência de conversão ao catolicismo quando contava já com 40 anos de idade. Em 5 de março de 1929 escreve: Se acabarão as dúvidas. Pela primeira vez hei experimentado claramente o que é a graça (…). Segundo Diário Metafísico (1928-1933). 

Gabriel Marcel - Aproximação ao Mistério do Ser - Posição e Convergência Concreta ao Mistério Ontológico [Trad. Prof. Isaías Klipp]

Professor | Pesquisador
Fundador do projeto Proscênio Filosófico (2017). É Tradutor de textos filosóficos. Bacharel (2020) e licenciando em Filosofia (2022) pela Universidade de Caxias do Sul, UCS.
isaías klipp
Professor | Pesquisador
Licenciado em Filosofia (2021). É pesquisador na filosofia e obra de Vilém Flusser. Pesquisador voluntário junto ao CNPq, no Observatório de Educação da Universidade de Caxias do Sul, UCS.
luan moraes
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Roberto J. Walton – Aristóteles e a Ontologia Contemporânea

Proscênio Filosófico.

Que o Eco das Grandes Obras ressoe em vós!

Aristóteles e a Metafísica Contemporânea | prof. Dr. Roberto J. Walton (1980)

Roberto J. Walton - Aristóteles e a Ontologia Contemporânea [Trad. Prof. Isaías Klipp]

As considerações sobre a presença de Aristóteles na Ontologia contemporânea se limitaram àqueles pensadores que têm procurado reinterpretar o conjunto das doutrinas fundamentais de sua Metafísica. Não contempla questões parcializadas já que as comparações seriam intermináveis. Por exemplo, na fenomenologia, poderíamos mencionar as alusões a Edmund Husserl a lógica aristotélica em relação com sua ontologia formal. Ademais, se excluem aquelas referências de índole muito genérica que não alcançam arrojar o conjunto dos temas fundamentais. Constitui um exemplo, na filosofia analítica, a metafísica descriptiva de Strawson entre cujos propósitos se encontra o de retornar a pensar os conceitos de Aristóteles em termos contemporâneos porque “é improvável que existam verdades novas que possam ser descobertas” (1). Nem em um caso nem em outro diz algo com respeito aos problemas em que se há de insistir aqui. Por último, se omitem também aquelas posições que explicitamente reivindicam para si herança aristotélica em termos de uma finalidade estreita.

Estas limitações nos deixam com alguns poucos filósofos nos quais a aporética aristotélica é um elemento vivo e condicionante de seu pensamento. Em primeiro lugar, como culminante da filosofia moderna do mesmo modo que Aristóteles o é da antiga, é necessário ocupar-se de Hegel. A comparação se impõe porque converge em uma concepção teleológica do universo compartilhado não somente em seus termos gerais, senão em seu caráter específico de uma teleologia das formas em relação com uma escala da natureza. E esta teleologia comum permite introduzir, seja por via de censura ou de reelaboração, outros dois pensadores. O primeiro é Nicolai Hartmann que tem efectuado uma aguda crítica às concepções teleológicas considerando a Aristóteles como o patriarca desse pensamento, e o restante é Alfred N. Whitehead que ha intentado restabelecer uma visão teleológica do universo com expressas referências ao Motor Imóvel aristotélico e a ideia hegeliana. Assim como Hegel termina a Enciclopédia com a transcrição de um extenso fragmento do livro XII da Metafísica de Aristóteles, Whitehead cita nas últimas páginas de Processo e Realidade uma passagem desse mesmo livro, situado algumas linhas antes, para finalizar com um comentário que procura com algumas correções salvar o essencial no afirmado por Aristóteles. Enquanto Hegel colocando o texto ao final sem comentários, Whitehead se encontra compelido a dizer algo complementario que não empenha, contudo, que se feche sua filosofia em completar-se com a mesma alusão.

Eleger a Hartmann e a Whitehead é fazer eco a uma afirmação de H. Wein para quem ambos se encontram em um “esplêndido isolamento” em meio a remoção de problemas nos azares da filosofia contemporânea. Ademais, G. Martin finaliza seu exame das grandes teorias do ser com uma exposição das ideias de Hartmann, Whitehead e Heidegger (2). E antes dessa referência, importa fazer notar que Heidegger se contrapõe aos pensadores já mencionados que se mantém no âmbito do que ele há denominado ontoteologia e cuja origem se remonta a Aristóteles. Para todos eles o plano em que se desenvolve o pensamento aristotélico não permite um retrocesso em busca de algum suposto fundamento que de modo geral ou elementar alimentaria suas raízes – segundo a imagem cartesiana que Heidegger retoma e corrige. Nossas considerações têm lugar, pois, no horizonte da metafísica com respeito ao qual Heidegger quer dar um passo atrás, que o conduza a essência da metafísica (3). Sobre a validez da determinação heideggeriana da aporética aristotélica como ontoteologia retornaremos a modo de conclusão e com o proveito do que acerca dela pode ser derivado do pensamento de Hartmann e Whitehead.

§ I. Hegel: A Interpretação da Teleologia das Formas e o Pensamento do Pensamento

Se há assinalado que Hegel foi o primeiro filósofo situado no espírito do pensamento moderno que efetuou um estudo profundo e frutífero sobre Aristóteles (4). Ao ocupar-se dele em sua História da Filosofia, recorre aos termos mais elogiosos e critica a filosofia moderna que o há ignorado. Assinala que a filosofia de Aristóteles “contém os mais profundos conceitos especulativos” porque “a conhecido a especulação mais fundamental, o idealismo…” (5). Segundo Hegel, o estudo da história da filosofia é o estudo da filosofia mesma porque a sucessão histórica dos sistemas representa a sua maneira o desprender de diversas das derivações lógicas das determinações conceituais da Ideia. A esse respeito assinala Michelet que “não há nenhum princípio, nenhuma categoria, nenhum pensamento, enfim, nenhuma verdade na Metafísica de Aristóteles que não se conserve… na lógica de Hegel” (6). E é principalmente a doutrina da essencial onde se reiteram os conceitos básicos da metafísica aristotélica em um ordenamento que se ajusta em grande medida ao encadeamento original. Quando reitera que Hegel há desenvolvido a totalidade dos princípios estruturais do sistema aristotélico, G.R.G Mure insiste na Doutrina da Essência “não é menos e talvez mais crítica reconstrução que se tenha visto de Aristóteles do que a Metafísica de Descartes, Spinoza, Leibniz o Kant.” (7). Aparecem ali as noções de matéria e forma, potência e ato, e a interpretação de causalidade permite passar a Doutrina do Conceito em que a causalidade eficiente que antes predominava se subordina à causa final.

Matéria e forma são retomadas por seu nome como subcategorias da categoria de coisa que aparece mais próxima a ousia aristotélica que a determinação ulterior de substância se se tem em conta que esta não admite uma distinção entre caracteres essenciais e acidentais porquanto se reflita integralmente em seus acidentes de tal modo que todos eles são essenciais. A matéria é a relação consigo mesma ou ser interior da coisa enquanto que a forma é a relação com outro, a diferenciação com respeito a uma matéria indeterminada. Os dois momentos que definem a essência – a imediatez ou relação consigo mesma e a mediação ou relação com o outro – se apresentam respectivamente como matéria e forma. A matéria é o momento da indiferenciação e coincidência consigo mesma da essência, porém não subsiste sem a forma e é susceptível de qualquer determinação (8).

Em um primeiro momento, se somente se pode pensar como componente do par matéria-forma – como já o advertiu Aristóteles -, a matéria é indiferente à determinação daquilo que é substrato. Pode ter muitas formas que, por sua vez, podem cada uma aplicarem-se a distintas matérias. Em um segundo momento, contudo, matéria e forma se apresentam no pensamento de Hegel como conteúdo e forma. Não se trata já da unidade da matéria e a forma em geral, senão que estas determinações se conectam de tal modo que a matéria somente pode ter uma forma e a forma uma matéria. Esta concepção hegeliana do conteúdo nos remete a matéria próxima aristotélica, isto é, a matéria imediatamente inferior com respeito a uma forma dada. Não obstante, a matéria próxima é algo menos que o conteúdo.

Enquanto aquela não inclui a forma final – por exemplo, o mármore é a matéria próxima da estátua, enquanto tal é alheia a forma final – , o conteúdo hegeliano compreende a forma final porque ambas as determinações – conteúdo e forma – são a totalidade completa de tal modo que o que se encontra em uma está também na outra (9). Com a diferença indicada, a isto apontava Aristóteles quanto afirmou que “a matéria próxima e a figura são uma e a mesma coisa; uma em potência, a outra em ato” (10).

A análise da ousia em termos de matéria próxima e forma antecipa o exame através das noções de potência e ato: “…a matéria está em potência porque pode encaminhar-se a sua forma, e quando está em ato então está na forma” (11). A mesma conexão se encontra na análise hegeliana da possibilidade e da efetividade. O problema do conteúdo e a forma pré-anunciada – na relação essencial que implica entre o interior (o conteúdo) e o exterior (a forma) – a noção de efetividade como união explícita do interior e do exterior em que o momento da interioridade se distingue como possibilidade. Recordemos que a matéria hegeliana é uma indiferenciação que pode receber múltiplas determinações, isto é, a potência de múltiplas formas. Assim aparecem as noções hegelianas de possibilidade e efetividade como paralelo das aristotélicas noções de potência e ato (12).

Hegel distingue dois tipos de possibilidade: a possibilidade formal e a possibilidade real. A primeira se caracteriza pela mera ausência de contradições, e a segunda tem em conta as condições pelas quais algo pode ser efectivo. Este segundo conceito de possibilidade real é o que Hegel remete a potência aristotélica que é “capacidade, não a possibilidade indeterminada” (13). De igual modo que a potência aristotélica, a possibilidade real implica uma disposição e uma tendência a efetividade como o desprendimento que corresponde ao ato. Hegel as considera explicitamente na Doutrina das Essências, as noções de possibilidade e efetividade estão presentes desde o primeiro momento no desprendimento das determinações da Ideia por meio da oposição entre o ser-em-si como o ser implícito e o ser-para-si como ser articulado. E se reitera a prioridade aristotélica do ato com respeito à potência porque a Ideia como ato puro se põe a si mesma, negando-se a si mesma, na imediatez do ser-em-si. A potência é o resultado da autodeterminação da ideia, e não somente é posta senão também impulsionada pelo ato já que na razão de sua origem é muito mais que ela mesma. Em sua potencialidade está obrigada a negar-se a si mesma e ir mais além de si mesma. Hegel afirma que o ato é “a atividade (Tatigkeit), o efetivante (das Verwirklichende), a negatividade que se relaciona consigo mesma” (14).

A teoria aristotélica da causa eficiente aparece ao final da Doutrina da Essência na análise hegeliana da causa e efeito. Segundo Aristóteles, para que se realize o que está em potência, é necessário que a forma esteja já presente em um agente: “…tudo o que se gera chega a ser algo a partir de algo por algo que é idêntico enquanto a forma” (15). A esta identidade de conteúdo em virtude da preexistência da forma se refere Hegel quando analisa a causalidade: “O efeito não contém nada em absoluto que não contenha a causa. Inversamente, a causa não contém nada que não esteja em seu efeito.” (16). A mesma forma está na causa e no efeito, e, portanto, há uma identidade de conteúdo. Este se apresenta em um caso como efetividade poente e no outro como efetividade posta. Em termos aristotélicos, a efetividade que põe é aquilo em ato que permite a passagem do que está em potência ao ato ou efetividade posta.

Na medida em que a causa retorna a si mesma no efeito, estão implícitas neste processo uma perfeição e uma espontaneidade. A causa não apresenta somente um carácter eficiente senão que “promete chegar a ser algo como o que Aristóteles caracteriza como “entelequia”, a que tem em si mesma o fundamento e o fim do movimento” (17). Com ele se passa a um estágio superior da lógica caracterizado por uma teleologia manifesta: a Doutrina do Conceito explicita a identidade mediante a subordinação da causa eficiente a uma causa final que somente realiza o que já estava presente nela de antemão. Hegel distingue a “finalidade externa e finita” em que os meios e o fim podem existir um sem outro, e a “finalidade interior” – verdadeira forma da teleologia – em que meios e fim existem um em e para o outro de tal modo que em última instância são idênticos. E remete a esta verdadeira finalidade a Aristóteles cujo pensamento “se encontra por isso infinitamente mais além do conceito da teleologia moderna que somente teria em vista a finalidade finita, a finalidade exterior” (18). A finalidade interior atua por meio das forças mecânicas e químicas que refletem a causalidade eficiente, e as coloca a seu serviço convertendo-se desse modo enfim realidade. Esta expressão “realizado” (ausgefuhrt) é o equivalente do termo aristotélico para o acabado ou consumado, isto é, téleios (19).

Ao traçar paralelo entre os dois pensadores, N. Hartmann assinala que a afinidade entre eles é ainda mais notável em virtude da grande variedade que se observa nos tipos de teleologia (20). Destaca que Aristóteles considera todo processo de um modo teleológico e que detrás dos processos descobre uma teleologia das formas. As formações inferiores encontram sua consumação nas superiores em uma escala da natureza que, através de graus intermédios, culmina no pensamento do pensamento, isto é, o Primeiro Motor – escala superior de que como primeiro princípio depende todo o demais. Esta superposição de um modo inferior e um modo superior de conformidade a fins está no centro mesmo da filosofia de Hegel. Os processos naturais e espirituais orientados desse modo estão condicionados por uma teleologia das formas que se enlaça com o desprendimento dialético das categorias, isto é, a ascensão das determinações inferiores do pensamento as superiores em que a imperfeição daquelas se compensa nessas. Cada forma inferior têm a tendência a converter-se na superior para alcançar sua plenitude do mesmo modo que a gradação aristotélica do Primeiro Motor atrai para si toda a série de formas.

A teleologia hegeliana das formas se diferencia pela tese de que “a verdade é o todo” e a crença de que o princípio decisivo não é o grau superior da escala por si só, senão esse grau como culminação de toda a série ascendente (21). O Deus de Aristóteles é independente do mundo que aspira a ele, e o essencial do pensamento de Hegel pode interpretar-se – assinala Mure – como um intento de relacionar o Primeiro Motor como o absolutamente atual com o relativamente potencial mediante a inclusão no ato puro dos estágios que para o filósofo grego conduzem a esse princípio sem alcançá-lo. Hegel converte o pensamento do pensamento no fundamento da escala que lhe está subordinada no sentido de que essa atividade é a geração da série das formas (22).

Nas passagens da História da Filosofia em que se ocupa da caracterização aristotélica de Deus, Hegel diz: “Deus é a atividade pura (reine Tatigkeit), é o que é em e para si, não necessita de nada material: não há um idealismo mais elevado… O movimento principal na filosofia aristotélica é que o pensar e o pensado são uma unidade… O verdadeiro é a unidade do subjetivo e o objetivo e por onde nem um nem outro tanto como o um e o outro. Aristóteles se há absorvido por essas profundas formas especulativas (23). Esses textos mostram a estreita relação da filosofia hegeliana com a noção aristotélica de ato puro. Assim como o Motor Imóvel é o pensamento do pensamento, a Ideia absoluta de Hegel é o pensamento que se tem tão somente a si mesmo como objeto. Não recebe algo de fora senão que se exterioriza como seu próprio objeto em que se contempla a si mesmo. A idéia absoluta é em si mesma o objeto do pensar, a atividade do pensar e o objeto do pensar, e neste movimento que a caracteriza como Ideia em si se encontra implícito o desprendimento pelo qual se opõe a si mesmo na natureza e retorna a si mesmo no espírito como Ideia em e para si (24). Se separa e reconcilia-se consigo mesma a fim de que o outro com respeito a ele esteja compreendido dentro dela e não afete sua perfeição infinita.

Recordemos que a finitude é a determinação por outro, a má infinitude é a série ilimitada das coisas finitas que se determinam umas a outras e se sucedem indefinidamente sem escapar a finitude, e a verdadeira infinitude é a auto-determinação. Desde o ponto de vista de Hegel, o Deus de Aristóteles é finito porque, por ser totalmente transcendente, está limitado por um outro exterior. O Primeiro Motor é algo particular que ocupa seu lugar entre outras coisas particulares, e desse modo, por eminente que seja, não pode escapar à finitude. Em consequência, se bem chega a concepção da unidade do subjetivo e o objetivo e por isso conhece a mais profunda das especulações – isto é, o idealismo -, Aristóteles não desenvolveu esta concepção de um modo verdadeiramente concreto desprendendo o particular a partir desse Absoluto: “O defeito da filosofia de Aristóteles reside, pois, em que uma vez que por meio da pluralidade dos fenômenos se eleva ao conceito, este se desintegra em uma série de conceitos determinados, e não se faz valer a unidade, o conceito que os unificava de modo absoluto.”(25).

§ II. Hartmann: Negação da Teleologia através da Crítica da Potência como Disposição e o Ato como Perfeição.

Hartmann critica a concepção teleológica e suas consequências teístas, pois julga que o importante em Aristóteles não é o sistema senão a aporética que ainda conserva sua vigência. (26). Estima que o problema ontológico tenha sido adequadamente formulado como a questão do ente enquanto ente, e que o erro consiste em haver passado com demasiada rapidez as questões parciais como a ousia, a forma, etc. O ente enquanto ente deve explicitar-se previamente mediante um esquema ôntico fundamental que resulta do entrecruzamento da relação conjuntiva dos momentos do ser (os tradicionais existência e essência) e da relação disjuntiva das maneiras de ser (a idealidade e a realidade). Desse modo se definem quatro âmbitos configurados por uma essência ideal e uma existência ideal em relação conjuntiva, e uma essência real e uma existência real também em relação conjuntiva, e uma essência real e uma existência real também em relação entre si, porém em relação disjuntiva com o par anterior. E assim como Platão introduziu incorretamente a essência real na idealidade de tal modo que na realidade somente a existência e a essência se identifica com a idealidade, Aristóteles em uma redução inversa é igualmente errônea incorporou a idealidade a essência real e não considerou necessário admitir uma esfera do ser ideal (27).

Toda a estrutura da ontologia de Hartmann, e, por conseguinte, suas considerações a aporética aristotélica, estão determinadas por este esquema de quatro âmbitos sobre cuja base é possível levar a cabo uma análise categorial já sendo modal ou constitutivo. As categorias modais correspondem a existência ou ser-aí (Dasein): são alheias ao conteúdo e se referem a maneira de ser, isto é, a natureza do ser real e o ser ideal. As categorias constitutivas, em contrapartida, têm que ver com a essência ou o ser-assim (sosein): contemplam as determinações do ente, isto é, as diferenças de conteúdo. As noções aristotélicas de potência e ato se tratam entre as categorias modais, e as de matéria e forma, as quatro causas e a escala da natureza são temas da análise categorial constitutiva.

Hartmann, assinala que os começos da teoria da modalidade se encontram nas noções de potência e ato com as que se relacionam em parte seus conceitos de possibilidade e efetividade. Para compreender sua posição frente a Aristóteles se deve ter em conta ante tudo que, por um lado, critica o conceito de potência reivindicando a ideia megárica da possibilidade mediante sua lei real da possibilidade, e que, por outro, aceita a tese aristotélica da prioridade do ato com respeito a potência mediante sua lei modal fundamental.

Aristóteles havia se oposto à concepção megárica segundo a qual “algo somente têm potência quando exerce uma ação, e não a têm quando não exerce ação alguma” (28). Hartmann retoma a posição criticada enunciando uma lei real da possibilidade segundo a qual um ente somente é realmente possível quando suas condições são cumpridas em sua totalidade. Portanto, o que é realmente possível é, por sua vez, realmente efetivo. A possibilidade real nem é disjuntiva nem desaparece quando algo chega a ser efetivo. Desde esse ponto de vista, a potência aristotélica é uma possibilidade parcial não real que aceita a alternativa aberta da efetividade e a não efetividade.

Aristóteles define o movimento como a passagem da potência ao ato em que uma forma já está pressuposta de antemão como causa final. Para Hartmann, em contrapartida, o processo não é a atualização de uma disposição preexistente, isto é, a realização teleológica de algo previamente traçado senão progressiva possibilitação real de algo ao mesmo tempo que sua efetivação real. Isto implica uma identidade entre a possibilidade e a efetividade reais a diferença da potência e o ato que se restabelecem ou substituem-se excluindo-se mutuamente. Ou seja, o processo se dirige para algo que somente é conhecido pelo resultado, e portanto, não têm que completar-se de uma maneira predeterminada. Em cada estado manifesta algo efetivo junto com algo ainda não efetivo que se aproxima, e somente depois de terminado se sabe em qual das múltiplas possibilidade parciais está compreendida na possibilidade real total, e, portanto, qual é a efetividade real que se alcança (29).

A potência e o ato não são princípios puramente modais senão “os pólos de uma relação de sentido e de finalidade posta na base de todo devir” (30). A potência não é a possibilidade real porque é o estado de disposição que se encontra orientado teleologicamente para o estado de efetuação de algo que está já pre-delineado como meta. E, por sua vez, o ato não é a efetividade de algo senão sua perfeição porque é a realização de uma forma que está dada de antemão como fim. Portanto, o fragmentário e incompleto que não exibe uma forma não é algo efetivo. A tal respeito, Hartmann assinala que o princípio hegeliano de que somente o racional é efetivo e somente o efetivo é racional tem sua origem na concepção aristotélica de que o efectivo é o que se ajusta a uma forma. Porém os estados de transição entre a potência e o ato são também algo efetivo, e isto implica um conceito ateleológico da efetividade. Com o objetivo de não desprender esta consequência, Aristóteles alude ao movimento como um ato imperfeito, isto é, como a realização do que está em potência na medida em que está em potência. Porém Hartmann julga que tal transferência do ato a um ente em potência conduz a uma contradição porque implica o ser acabado de algo inacabado justamente enquanto é inacabado, portanto, a efetividade deve examinar-se com independência da teleologia (31).

Não obstante, se se prescinde da construção teleológica, os conceitos de potência e ato se assemelham aos modos puros da possibilidade e da efetividade. E assim como Aristóteles afirma que o ato é anterior a potência, Hartmann enuncia sua lei modal fundamentalmente segundo a qual toda possibilidade está referida retroativamente a uma efetividade. Ou em outros termos mais gerais em que Hartmann apresenta a questão, necessidade, possibilidade e impossibilidade não são modos que descansam em si mesmos senão modos relacionados que somente aparecem em relações de dependência com respeito a algo de sustentação que é a efetividade (32).

Se a possibilidade real não é um estar aberto de maneira indeterminada, não poderia coincidir com ela a matéria com sua indeterminação com respeito a uma forma específica de determinação. Assim, ambas as noções – matéria e possibilidade real – se separam. E com a oposição matéria-forma se ingressa no âmbito das categorias constitutivas que se ocupam do conteúdo e de compreender em primeiro lugar certas oposições entre as quais se encontram, ademais da que se acaba de mencionar, a oposição determinação-dependência que introduz o problema da causalidade (33). Entre os tipos de determinação real se encontram a causalidade eficiente no ser físico e no nexo final no ser espiritual. Como entende que somente pode haver uma causa final onde existe uma coincidência que se propõe o fim e elige os meios, hartmann crítica a concepção que se estende “desde Aristóteles até Hegel” (34) segundo a qual a relação de meio afim se encontra detrás da relação de causa e efeito como uma conexão inversa tanto desde o ponto de vista temporal como com respeito a determinação.

Hartmann considera que a imposição de uma teleologia aos processos reais em sua totalidade implica uma transgressão de limites “para baixo” porque estende uma determinação do estrato espiritual aos níveis psicológico, biológico e inorgânico. Segundo suas leis da estratificação – algumas das leis categoriais que seguem as oposições no conjunto das categorias constitutivas -, certas categorias dos estratos inferiores retornam aos superiores sem que se apresente a situação inversa. E segundo as leis da dependência, a força das categorias é maior no estrato inferior de modo que tudo está condicionado desde baixo. Se rompem essas leis categoriais quando se sustem que uma causa final, que participa da natureza do espiritual, está presente já nas formas inferiores do ser (35). Tal é a posição da filosofia do organismo.

§ III. Whitehead: Restabelecimento da Teleologia através das metas subjetivas e o Princípio de Concreção.

É fundamental na metafísica de Whitehead a distinção entre entidade atual e forma ou objeto eterno. Estas entidades básicas ocupam o lugar da ousia e a forma aristotélicas (36). As entidades atuais são os elementos reais últimos de que se compõe o universo. São atos de experiência que se caracterizam pelo modo em que sentem ou prendem outros centros de experiência. Toda entidade atual é uma “concrescência” ou crescimento conjunto desses sentires ou prehensões (preensões, o que seguiremos no restante do texto) de outras entidades atuais, e pode ser pensada como algo análogo a nossa experiência porque é um sentir seu entorno e racionar a ele. Ou seja: o conhecimento como apreensão de um objeto por um sujeito é um caso particular de uma atividade de preensão que está presente em todo o real.

Os objetos eternos são formas de determinação que se reiteram em diversas entidades atuais. Por meio delas se explicam o devir, e Whitehead recorda que “para Aristóteles o processo do mundo atual tem sido concebido como um ingresso real de formas na potencialidade real, o que conduz a essa conjunção real que é uma coisa atual” (37). As formas somente existem como componentes das entidades atuais. Não são reduzíveis a elas, porém tampouco podem desprenderem-se delas. As preensões físicas das entidades atuais constituem sempre a base ou os dados necessários para as preensões conceituais dos objetos eternos. Assim, quando examina a relação entre entidades atuais e formais, Whitehead enuncia o princípio ontológico, isto é, “o princípio aristotélico geral de que, a parte das coisas que são atuais, não há nada – nada de fato ou eficácia” (38).

Whitehead rechaça a identificação da forma com o ato. Está de acordo com Aristóteles em não atribuir a atualidade à matéria. Porém no lugar de relacionar o ato com a forma, elimina a matéria e põe em seu lugar a criatividade como a atividade que se manifesta no processo pelo qual o múltiplo se converte no uno em uma concrescência ou o uno se converte no múltiplo ao servir de dado para concrescentes ulteriores. De igual modo, a matéria, a criatividade (aqui atividade de criação) não pode ser por si mesma a fonte de determinação das entidades atuais e, portanto, exige o reconhecimento das formas ou objetos eternos. Se assemelha a matéria primordial aristotélica por quanto é indeterminada: “A criatividade carece de caráter próprio” (39). Pois a criatividade implica uma decisão entre possíveis formas de determinação, e por isso não têm o caráter passivo da matéria que necessita do ato para que se realize o que é em potência. Em suma: a entidade atual como análogo da ousia tem dois componentes que não são a matéria e a forma senão a criatividade – equivalente do ato – e a forma. Whitehead abandona em todos os casos o que Aristóteles somente rechaça no caso da ousia divina (40).

O ato implica enquanto criatividade uma decisão em meio da potencialidade constituída pelas entidades atuais já contempladas, que têm perecido, com suas respectivas formas de determinação. Tal decisão estabelece as preensões positivas de dados antecedentes – isto é, o que se há de incorporar à concrescência -, e responde sempre a uma meta subjetiva. Não pode haver nenhuma atividade se uma meta não está presente como causa final desde o começo do devir interno no qual a entidade atual chega a si mesma. E o processo de transição de uma entidade atual a outra é o veículo da causa eficiente representada pelos dados objetivados em função da guia oferecida pela meta subjetiva. Toda entidade atual é autônoma no sentido de que é responsável pela seleção das diversas preensões que se reúnem na concrescência. (41). Dessa maneira, seguindo a tradição aristotélica – hegeliana, Whitehead assina um papel central nos processos teleológicos. Com respeito a Aristóteles, afirma: “Sua filosofia chegou a uma desmedida ênfase na noção de causas finais durante a Idade Média cristã; e logo, por uma reação, a correlativa acentuação da noção de “causas eficientes” durante o período científico moderno. A tarefa de uma sã metafísica é mostrar as causas finais e eficientes em uma adequada relação umas com as outras (42).

A meta subjetiva ou causa final da concrescência é uma preensão conceitual das formas que se hão de realizar nesse processo interior. De acordo com o princípio ontológico, deve derivar de uma entidade atual: as preensões físicas antecedem sempre as preensões conceituais. Porém nenhuma entidade atual pode proporcionar sua própria meta porque não existe com anterioridade a esta. E a causa final tampouco pode proceder das entidades atuais temporais antecedentes porque elas constituem um conjunto de possíveis dados e é necessário um critério em termos do qual pode efetuar-se em uma decisão em meio da potencialidade e pluralidade de alternativas. O problema é análogo ao que enfrentou Aristóteles na relação com o movimento, e a solução é também similar.

Como explicação última do movimento, Aristóteles recorre ao Primeiro Motor que, enquanto ato puro, se move como uma causa final inamovível ao que tudo aspira como a um objeto do desejo. Paralelamente, Whitehead têm que dar conta do processo. Posto que a entidade atual emergente e as entidades atuais do universo passado não podem oferecer uma meta subjetiva, se deve admitir uma entidade atual intemporal como fonte dela: “Nesse sentido, Deus é o princípio da concreção; ou seja, Ele é a entidade atual da qual cada concrescência temporal recebe essa meta inicial, e a partir dela se inicia sua auto causação” (43). O princípio da meta subjetiva é estabelecido por Deus a fim de iniciar o processo desde uma situação ambígua para uma entidade atual plenamente determinada. Na natureza primordial de Deus que consiste na preensão do conjunto dos objetos eternos se organiza e evalua esta totalidade segundo graus de importância para cada entidade atual de modo que as formas possam compor em cada caso a meta inicial. Não se trata de uma determinação exaustiva, senão que de um condicionamento inicial que não afeta a auto-causação das entidades atuais. Deus opera no universo por persuasão na base da atração dos fins que proporciona as entidades atuais na medida em que surgem na existência. Isto significa que se constitui como “o objeto do desejo” inicial que estabelece a fase inicial de cada meta subjetiva” (44). Whitehead evoca a passagem do livro XII da Metafísica em que Aristóteles afirma que “há algo que move sem ser movido, algo eterno que é a sua vez, ousia e ato. O objeto do desejo e o objeto do pensamento… movem sem ser movidos” (45). Em suma, através das metas subjetivas, o Princípio de concreção move o universo como causa final de igual modo ao Primeiro Motor de Aristóteles.

Porém é preciso assinalar também as diferenças, porque nelas se adverte uma coincidência com Hegel. Enquanto o Motor Imovel não recebe nenhuma ação do universo, Whitehead discerne junto com a natureza primordial de Deus – transcendente e imutável em sua preensão dos objetos eternos – uma natureza consequente que consiste na preensão das entidades atuais temporais que surgem no mundo. Assim como a natureza primordial se assemelha a Ideia em si enquanto sistema de determinação do que depende o mundo criado, a natureza consequente – ou, de melhor modo, Deus concebido concretamente com ela – é o paralelo da Ideia em e para si porque recolhe todo o desprendimento da natureza e o espírito que resulta da exteriorização da natureza primordial através da especificação de metas para as entidades atuais (46). Não obstante essas observações que reiteram o intento hegeliano de salvar a separação do ato puro, Whitehead estima que as considerações aristotélicas sobre o Primeiro Motor constituem com algumas correções uma apresentação satisfatória da natureza primordial de Deus em sua relação com as entidades ordinárias: “Se pode duvidar de que uma metafísica adequadamente geral possa alguma vez… chegar muito mais distante que Aristóteles” (47).

§ IV. Conclusão: validez do conceito de onto-teologia.

O esquema seguido há tido como fio condutor a visão teleológica de Aristóteles e Hegel. O pensamento de Aristóteles constitui a primeira expressão acabada do que Heidegger há denominada onto-teologia, isto é, a determinação da metafísica, por um lado, como ontologia, com o estudo do ente enquanto ente, e, por outro lado, como teologia como o estudo do ente supremo (48). E no pensamento de Hegel se manifestam assim mesmo esses dois aspectos.

Porém não sucede o mesmo na ontologia de Hartmann que é alheia a noção de um ente supremo. Não aparece nele Deus nem sequer outro tipo de ente supremo. As leis categoriais que definem as relações entre os estratos do real excluem a possibilidade de um ente supremo ao estabelecer um equilíbrio entre todos os níveis pelo qual nenhum pode ser reduzido a outro. E se se pensa que o ente supremo é o que se caracteriza pela efetividade – em um intento de manter o esquema onto-teológico -, isto não faz mais que converter a questão do ente enquanto ente na do efetivo enquanto efetivo e então se têm que perguntar por uma efetividade suprema que também está ausente. Ademais, se deve observar que a efetividade não é uma determinação constitutiva do ente, senão um tipo de modalidade, e que nas figuras que Heidegger considera com o caráter de entes supremos se distinguem por notas de índole constitutiva.

Por outro lado, Heidegger rechaça o Deus da metafísica que termina por ser concebido como uma causa sui a qual não se pode direcionar nem rezas e nem reverências, e enlaça esta objeção com as palavras de São Paulo dirigidas contra a sabedoria do mundo (49). Porém a crítica deveria reconsiderar-se em vista de uma concepção para a qual toda entidade, já seja Deus ou a mais simples ocasião de experiência, é causa sui. Esta generalização corre paralela com um contexto que transforma o problema de um modo decisivo. Deus como causa sui não é a culminação distante de uma série de causas, impassível ante o destino humano, senão um partícipe direto em cada ocasião de experiência. Todas as entidades se preendem entre elas de tal modo que ainda Deus é enriquecido pelas experiências das criaturas, e não é compreensível de si porque se hão de excluir as que Heidegger questiona. Deus as recebe em sua natureza consequente com “uma ternura que não perde nada que possa ser salvado” com as metas iniciais que sua natureza primordial proporciona, as atrai como “o poeta do mundo, que, com terna paciência, o guia por meio de sua visão da verdade, a beleza e o bem” (50). Não resultam em claras as razões pelas quais esta concepção de Deus como causa sui tenha que estar conflitada com a de um “Deus divido”.

Segundo Whitehead, não se pode avançar muito além de Aristóteles desde o ponto de vista de uma metafísica que se ocupa do caráter geral do universo, e para um maior conhecimento de Deus se deve recorrer ao âmbito das experiências com “uma interpretação da experiência religiosa da humanidade” (51). Ademais, e é o que importa, esta experiência necessita de um fundamento metafísico a fim de não obscurecer ante a intensidade das emoções que produz. Há uma metafísica fundada na experiência geral – que conduz inevitavelmente a um Deus análogo ao Primeiro Motor de Aristóteles -, e ulteriores noções que se originam na experiência religiosa e permitem alcançar conhecimentos mais definidos.

Porém essas noções podem prescindir daquele “primeiro passo” para não desvanecer se. O enfoque difere, pois, do de Heidegger: um Deus de inspiração aristotélica não se contrapõe ao Deus da religião, senão que é exigido por este para consolidar-se. É sugestivo nesse caso que Whitehead evoca São João em lugar de São Paulo (52).

Há uma ontologia sem ente supremo (Hartmann), e uma teologia cujo Deus não se ajusta às características que Heidegger assinala a Deus da metafísica (Whitehead). Essa dupla situação põe de relevo que o pensamento que pode desenvolver-se sobre a base da aporética de Aristóteles, mas além dos limites de seu sistema, não se esgota no marco descrito por Heidegger como ontoteologia. Este pensador não somente prejudica o sistema ao estabelecer o caráter derivado de seus conceitos fundamentais senão que limita as possibilidades da aporética al encerrá-la em um marco que – se bem é válido para caracterizar o sistema – resulta demasiado estreito para abarcar todas as ontologias de inspiração aristotélicas. A fecundidade da aporética não consiste em esgotar-se nessa interpretação da metafísica como ontoteologia. E se esta é uma abstração que não pode dar conta do que deveria estar incluído nela, haveria que indagar se não fica comprometida a concepção do caráter derivado da metafísica, precisamente enquanto ontoteologia, com respeito a um fundamento esquecido. Se o supostamente fundado não põe os caracteres que se lhe atribuem, se deve questionar sua condição para tal E se há de perguntar também se não se deve abandonar a concepção de uma história do ser que depende dessa situação, porque representa o desenvolvimento da ontoteologia. Ante uma resposta afirmativa, e seu exame é algo que deverá ficar para outra oportunidade, o que se impõe não é a destruição dos conceitos da metafísica clássica, ao modo de Heidegger – por reverente que que seja esta destruição – senão uma metafísica “neo-clássica” – impressão whiteheadana – fundada na possibilidade de retornar a considerar no estilo de Hegel e de Whitehead os mesmos problemas enunciados por Aristóteles.

Referências Bibliográficas e Notas:
(*) Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas. Universidade de Buenos Aires.
P.F. Strawson, Individuals. An Essay in Descriptive Metaphysics, London, Methuen, 1964, p. 10.
Cf. H. Wein, “ In Defense of the Humanism of Science: Kant and Whitehead”, en Ivor Leclerc (comp.), The Relevance of Whitehead, London, Allen & Unwin, 1961, p. 293; y G. Martin, Allgemeine Metaphysik. Berlin, W. De Gruyter, 1966, cap. 1.
Cf. M. Heidegger, Identität und Differenz, Pfullingen, G. Neske, 1957, pp. 41, 64-65.
Cf. G..R.G. Mure, An Introduction to Hegel, London, Oxford University Press, 1948, p. 51.
G.W.F. Hegel, Vorlesungen über die Geschichte der Philosophie, II, Sämtliche Werke (Jubiläumsausgabe), XVIII, Stuttgart, Frommann, 1959, pp. 298-99. Hegel afirma que “”nenhum filósofo há padecido tanta injustiça por parte de tradições completamente órfãos de pensamento que se hão mantido à margem de sua filosofia e ainda estão na ordem do dia apesar de haver sido ao largo dos séculos o maestro de todos os filósofos”, p. 299. Talvez o maior elogio seja o seguinte: “Se se toma a sério a filosofia, não há nada mais digno que dar cursos sobre Aristóteles”, p. 314. Adiante se cita: Vorlesungen.
K. L. Michelet, Exame Crítico da Metafísica de Aristóteles, Buenos Aires, Imán, 1946, p. 347.
G.R.G. Mure, A Study of Hegel’s Logic, London, Oxford university Press, 1967, p. 149.
Cf. G.W.G. Hegel, Enzyklopädie der philosophischen wissenschaften im Grundrisse, Hamburg, F. Meiner, 1959, p. 133-No.129. Hegel descreve o modo em que se chega a concepção da matéria indeterminada de um modo muito similar a Aristóteles: “Se se faz abstração de todas as determinações, de toda forma de algo fica então a matéria indeterminada. A matéria é algo pura e simplesmente abstrata. (não é possível ver, tocar, etc., a matéria – o que se vê ou se toca é uma determinada matéria, isto é, uma união da matéria e da forma-.) G.W.F. Hegel, Wissenschaft der Logik. Zweiter Teil, Hamburg, F. Meiner, 1963, p 70 c. A passagem aristotélica correspondente diz: “… se se elimina tudo o demais, não fica evidentemente nada mais que a matéria… Por matéria entendo o que por si mesmo não é algo nem uma certa quantidade nem alguma das outras categorias pelas quais o ente é definido”. Metafísica, VII, III, 1029 a 12-22. A relação é destacada por Peter Rochs, Form und Grund, Hegel-Studien, Beiheft 6, Bonn, Bouvier, 1961, pp. 158-59.
Cf. G.R.G, Mure, A Study of Hegel’s Logic, P. 117.
Metafísica, VIII, vi, 1045 b 18-20.
Metafísica IX, viii, 1050 a 15-17. Cf. G.R.G. Mure, An Introduction to Hegel, p. 6.
“Não há chave mais precisa para o pensamento ao longo das categorias da Wirklichkeit do que a doutrina aristotélica da dynamis e a enérgeia consideradas como a caracterização mais concreta de matéria e forma”. G.R.G. Mure, An Study of Hegel’s Logic, p. 138.
G.W.F. Hegel, Vorlesungen, p. 321. “Com respeito ao desprendimento como tal deve distinguir-se duas coisas, por assim dizer dois estados: a disposição, a capacidade, o ser-em-si (potentia, dynamis) e o ser -para-si, a efetividade (actus, enérgeia) A possibilidade é “o gérmen, a disposição, a capacidade, o que Aristóteles chama, dynamis, i.e, a possibilidade superficial em geral)….” G.W.F. Hegel. Einleitung in die Geschichte der Philosophie, Hamburg F. Meiner, 1959, pp. 101-102.
G.W.F. Hegel, Vorlesungen, p. 321.
Metafísica, IX, viii, 1049 b 28-30.
G.W.F. Hegel, wissenschaft der Logik, 11, p. 190c.
Bernhard Lakebrink, Die europáische Idee der Freiheit l. Teil: Hegels Logik und die Tradition der Selbstbestimmung, Leiden, E. J. Brill, 1968, p. 353.
G.W.F. Hegel, Encyclopédie, p. 178. (No. 204.)
Cf. Metafísica, V, xvi, 1021b 23-25; e G.R.G Mure, A Study of Hegel’s Logic, p. 258. Hegel assinala que a enteléquia “é em si mesma fim e realização do fim”, e que é “a mesma determinação conceitual da enérgeia, porém na medida em que ela é livre atividade, e tem fim dentro de si mesma, o a põe ela mesma e é ativa a fim de pôr-se”. G.W.G. Hegel, Vorlesungen, pp. 321-325.
Cf. N. Hartmann, “Aristóteles und Hegel”, Kleine Schriften, II, Berlin, W. de Gruyter, 1957, p. 247. Cf. p. 430 ss.
Cf. N. Hartmann, Teleologisches Denken, Berlin, W. de Gruyter, 1951, p. 43. /Trad. casto de J. Gaos, Ontología IV. Filosofía de la naturaleza V. El pensar teleológico, México, F.C.E., 1964, p. 277./
Cf. G.R.G. Mure, An Introduction to Hegel, pp. 52-53; e “Foreword” em Frederick Gustav Weiss, Hegel’s Critique Of Aristotle’s Philosophy of Mind, The Hague, M. Nijhoff, 1969, pp. xvii-xviii. É interessante a observação de P. Aubenque sobre a síntese que Hegel efetua, em sua exposição de Aristóteles, entre as características do Motor Imovil e o primeiro céu a fim de atribuir a Deus um movimento circular – imagem da verdadeira infinitude e autodeterminação que caracteriza a Ideia absoluta -. Aristóteles efetua em primeiro lugar uma separação entre o Motor Imovil e o mundo celeste que está em movimento contínuo e circular, e o segundo lugar um corte entre o mundo celeste e o mundo sublunar que está em movimento descontínuo e desordenado. Hegel faz converter o que está a cada lado da primeira separação, isto é, atribui ao Motor Imovel o movimento do primeiro céu. Enquanto que Aristóteles caracteriza o ato divino como “ato de imobilidade”. Ética a Nicômaco, VII, xiv, 1154 b 27. – porque o movimento é um ato inacabado e está excluído do Primeiro Motor que é ato puro-, Hegel sustenta a identidade do ato divino e o movimento interpretando como automovimento ou movimento circular a imobilidade do Primeiro Motor. Cf. P. Aubenque, Hegel et Aristote, en J. D’Hondt (comp.), Hegel et la pensée grecque, París, PUF, 1974, pp. 103-108.
G.W.F. Hegel, Vorlesungen, pp. 326, 330-31. “Com isso, Hegel parece adotar sem alterações a teologia aristotélica, na qual se examina o pensamento que Deus tem de si mesmo, como sua própria filosofia, em especial a teoria da Ideia. No entanto, se adverte que “interpreta a teoria aristotélica do pensamento que se pensa a si mesmo a partir dos empreendimentos da teoria da subjetividade”. Klaus Düsing, Das Problem der Subjektivität in Hegel’s Logik, Hegel-Studien, Beiheft 15, Bonn, Bouvier, 1976, p. 305.
Cf. A. Léonard, Commentaire littéral de la logique de Hegel, París, Vrin, 1974, p.19.
G.W.F. Hegel, Vorlesungen, p.417.
Cí. N. Hartmann, Zur Grundlegung der Ontologie, Berlin, W. de Gruyter, 1935, p. ix. /Trad. cast. de J. Gaos, Ontología l. Fundamentos, México, F.C.E., 1954, p. xiv./
Cr, Ibid., pp. 41-43, 121-25. /Trad. cast., pp. 48-49, 139-43./
Metafísica, IX, viii, 1049 b 5.
Cf. N. Hartmann, Philosophie der Natur, Berlin, W. de Gruyter, 1950, pp. 265-67. /Trad. cast. de J. Gaos, Ontología IV. Filosofía de la naturaleza, México. FCE, 1960, pp. 297 -98./
N. Hartmann, Theologisches Denken, p. 100. /Trad. cast., p.343./
Cf. Física, 11I, 1, 201 a 10-11; y N. Hartmann, Theologisches Denken, pp. 48-50 /trad. cast., pp. 283-86/.
N. Hartmann n , Móglichkeit und wirklichkeit, Meisenheim a. G., A. Hain, 1949, pp. 82-85. /Trad. cast. de J. Gaos, Ontología 1/. Posibilidad y efectividad, México, F.C.E., 1956, pp. 93-97./
Cf, N. Hartmann, Der Aufbau der realen Welt, Meisenheim a. G., A. Hain, 1949, p. 286. /Trad. cast. de J. Gaos, Ontología fll. La fábrica del mundo real, México, FCE., 1959, p. 315./
N. Hartmann, Philosophie der Natur, p. 331. /Trad. cast., p. 368./ Cf. N. Hartmann, Der Aufbau der realen Welt, p. 313 y ss. /Trad. cast., p. 344 y ss./
“Nesse caso deve naturalmente o princípio estar contido e ser efetivo desde abaixo já nas formas ínfimas do ser, a saber, nas da natureza inanimada e da matéria. Porém como o sumo princípio final somente pode encontrar-se na mais alta forma do ser, ou seja, tem que ser da índole do ser espiritual, resulta que já na matéria tem que estar disposto o espírito para desprender-se a partir daí na série ascendente das formações” N. Hartmann, Theologisches Denke, p. 42 (trad. cast., p. 276.)
Cf, 1. Leclerc, Whitehead’s Metaphysics, London, AJlen& Unwin, 1958, pp. 17-23 y 85-86.
A. N. Whitehead, Process and Reality, New York, Macmillan, 1929, p. 147. Aristóteles leva a cabo “uma análise magistral da noção de ‘geração”’, p. 319/.
Ibid, p. 64. As diferenças entre a ousia e a entidade atual residem no que Whitehead exige que “se abandone completamente a noção de uma entidade atual como sujeito inalterável da mudança”, p. 43. A noção de algo que perdura no meio das mudanças de qualidades e relações acidentais – isto é, de algo que pode receber determinações contrárias enquanto permanece como um e o mesmo. Cf. Categorias, V, 4a 10-12. É uma abstração útil porém errônea enquanto “enunciado fundamental acerca da natureza das coisas”, p. 122. Algo perdurável se constitui tão somente quando certos caracteres comuns – uma conjunção organizada de formas – se transmitem em um nexo de entidades atuais: “Na filosofia do organismo não é a ‘substância’ o que é permanente senão a “forma”, p. 44. A mudança e a permanência consistem na variação e na reiteração das formas compartilhadas pelas sucessivas entidades atuais. Ou seja: as coisas que perduram têm uma existência derivada. Não obstante, a noção de entidade atual não deve considerar-se como um retaliar senão como uma reinterpretação da noção de ousia. Ocupa o lugar dessa e compartilha suas características de unidade, individualidade, subsistência e delimitações próprias. Se há, ademais, assinalado que a exigência hegeliana de que a substância se converta em um sujeito, pode considerar-se como uma característica da filosofia de Whitehead se se tem em conta que está referida a uma pluralidade de substâncias. Cf. W.W. Hocking, “Whitehead on Mind and Nature”, em P.A. Schilpp (comp.), The Philosophy of Alfred North Whitehead, New York, Tudor, 1951, p. 390. Whitehead difere dos críticos da noção de substância porque “aceita a necessidade de uma doutrina reformada”, William A. Christian, An Interpretation of Whitehead’s Metaphysics, Connecticut, Greenwood, 1977, p. 118.
Ibid., p. 47.
Cf. 1. Leclerc, op. cit., p. 82 Y ss.; Y “Form and Actuality “, en The Relevance of whitehead, pp. 169-89. Um intérprete de Whitehead expressa: “A ‘matéria’ é o esconderijo da pura e simples ignorância, e sua única função útil é postergar para uma ocasião mais convergente as especificações do tipo de realidade psíquica requerida no caso dado. Aristóteles carecia do conhecimento fático para levar a cabo esta especificação excepto no caso dos animais. Que só agora começamos a ter.”, C. Hartshorne, Beyond Humanism. Essays in the Philosophy of Nature, Gloucester, P. Smith, 1975, p. 236/.
Cf. A.N. Whitehead, Process and Reality, pp. 228, 320.
Ibid., pp. 128-29. “Com referência a Hegel, Whitehead sustem que há querido transformar as principais doutrinas do idealismo absoluto sobre uma base realista, e assinala que ‘o desenvolvimento da meta subjetiva… não é outra coisa que o desenvolvimento hegeliano de uma ideia’”, Ibid, p. 254; Cf., p. viii.
Ibid., p. 374.
Ibid., p. 522. Cf. A. Parmentier, La philosophie de Whitehead et le problème de Dieu, Paris, Beauchesne, 1968, pp. 408-409.
Metafísica, XII, vii, 1072 a 23-32.
Cf. E.E. Harris, Nature, Mind and Modem Science, London, Allen & Unwin, 1968, pp. 253, 437-38.
A.N. Whitehead, Science and the Modern World, New York, Macmillan, 1967, p. 173. “Se temos de conceder a alguém a posição do mais grande metafísico tendo em conta a genialidade da visão, o conjunto geral de seus conhecimentos e o estímulo de sua estirpe, devemos eleger a Aristóteles”, loc. cit.
Cf. M. Heidegger, Was ist Metaphysik?Frankfurt a. M., V Klostermann, 1969, p. 19.
Cf. M. Heidegger, Identitát und Differenz, pp. 64-65; y Was ist Metaphysik, p. 20.
A. N. Whitehead, Process and Reality, pp. 525-26.
Ibid., p. 254.
Cf. A.N. Whitehead, Religion in the Making, London, Cambridge University Press, 1930, pp. 64, 71-76; y Science and (the Modern World, pp. 173-74, 178.

 

Roberto J. Walton - Aristóteles e a Ontologia Contemporânea [Trad. Prof. Isaías Klipp]

Professor | Pesquisador
Fundador do projeto Proscênio Filosófico (2017). É Tradutor de textos filosóficos. Bacharel (2020) e licenciando em Filosofia (2022) pela Universidade de Caxias do Sul, UCS.
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Professor | Pesquisador
Licenciado em Filosofia (2021). É pesquisador na filosofia e obra de Vilém Flusser. Pesquisador voluntário junto ao CNPq, no Observatório de Educação da Universidade de Caxias do Sul, UCS.
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© 2022 • Revista Proscênio Filosófico CNPJ 46.534.106/0001-76 • Todos os Direitos Reservados. Termos de Uso • Política de Privacidade

HEINRICH BECK – Conceitos e Pressupostos Gnosiológicos do Método Indutivo

Proscênio Filosófico.

Que o Eco das Grandes Obras ressoe em vós!

Conceitos e Pressupostos Gnosiológicos do Método Indutivo | Heinrich Beck

Heinrich Beck - Conceitos e Pressupostos Gnosiológicos do Método Indutivo [Trad. Prof. Isaías Klipp]

Heinrich Beck – Conceitos e Pressupostos Gnosiológicos do Método Indutivo

O método indutivo é fundamental para todas as ciências que de «um número limitado de observações particulares» deduzem uma lei geral sobre a natureza ou o comportamento das coisas. Sendo, pois, importante, em primeiro lugar, para as Ciências Naturais, para a Psicologia empírica e para a Pedagogia; mas também para a Filosofia, quando esta se serve dos resultados dessas ditas ciências. E, como todo método complexo, o método indutivo somente é possível sob o pressuposto de certas idéias fundamentais; ou seja, sobre certas condições gnosiológicas. E, estas “ideias fundamentais” não podem ser adquiridas primeiramente por indução: como são elas que possibilitam o processo do conhecimento indutivo, temos que considerá-las como princípios primários. Ademais, são esses princípios gnosiológico-filosóficos que fazem possível o conjunto das ciências indutivas; seu esclarecimento significa, portanto, para as ciências indutivas um passo para a clarificação total de seu caráter cognoscitivo.

Para poder averiguar a continuação de tais pressupostos gnosiológicos do método indutivo, convém agora precisar o empreendimento do problema, ou seja, aclarar em primeiro lugar o que se deve entender em rigor por «método indutivo» e por «pressuposto gnosiológico».

§ 01 – Conceito de Indução:
Para determinar com mais precisão o conceito do método «indutivo», podemos partir em primeiro lugar de sua contraposição com o método «dedutivo». Visto que, a dedução é o processo descendente de uma proposição universal para uma proposição particular, a indução, em contraposto, significa o processo lógico mediante o qual de uma proposição particular se passa a uma proposição universal. No entanto, o conteúdo proposicional segue sendo em cada caso o mesmo. É o que acontece, por exemplo, na afirmação particular: Alguns corpos – quer dizer, os observados – caem com um movimento uniformemente acelerado, para a proposição universal: Todos os corpos – portanto, também os corpos não observados – caem com um movimento uniformemente acelerado, que representa na ordem do conhecimento um «processo» indutivo [visto que, é uma passagem que se generaliza a partir de um nexo extraído dos casos particulares]. Em contrapartida, o inverso representará o método dedutivo. Mas no procedimento indutivo, conquanto que a proposição particular inicial expresse o resultado da experiência imediata ou da observação, a indução significa um transcender do âmbito da experiência imediata e da observação. Pois, somente podem ser observados alguns corpos – seguindo o exemplo aludido –, nunca todos os corpos, a afirmação induzida a respeito a todos os corpos possíveis excede radicalmente o âmbito da experiência imediata.

Não obstante, a proposição: Todos os corpos que caem, sem exceção, tomam um movimento uniformemente acelerado, somente pode se justificar caso se verifique que o fato de acelerar-se uniformemente pertence necessariamente ao sentido de corpos que caem enquanto tais. Isto é, o passo da afirmação particular a universal somente é possível quando se conhece que existe uma conexão necessária do predicado afirmado com o conteúdo da noção do sujeito. Portanto, o «objetivo» direto da indução é o conhecimento dessa conexão necessária. A pertença necessária e, por conseguinte, também regular do predicado a um sujeito se chama «lei»: se o predicado expressa uma qualidade do ser, se fala de uma lei do ser; se expressa um modo de comportamento, se fala de uma lei operativa ou causal. Por este motivo, pode-se dizer que o fim imediato da indução é encontrar leis do ser e do comportamento das coisas. Mas como os fenômenos particulares conhecidos pela experiência, esta necessidade com caráter de lei muitas vezes aparece somente imperfeitamente, seu descobrimento apresenta a forma de uma introdução, de uma «­in-dução», ao núcleo significativo essencial que se oculta na roupagem empírica das coisas particulares.

No entanto, sob o aspecto gnosiológico, há de se distinguir aqui dois tipos de induções essencialmente distintas, de acordo com a lei induzida seja ela imediatamente cognoscível em si mesma ou não. Na lei, por exemplo, o todo é maior que a parte, a mera comparação do conteúdo do sujeito todo e do conteúdo do predicado «ser maior que a parte» se vê imediatamente que o conteúdo do predicado pertencer de modo necessário ao conteúdo do sujeito; do qual se infere, ao mesmo tempo, que aquele tem de estar realizado simultaneamente em todas as coisas particulares que caem sob a noção do sujeito. Por outro lado, no exemplo da lei da gravidade, aludida anteriormente, não é possível um conhecimento imediato da conexão necessária do predicado com o sujeito; se o «acelerar-se com uniformidade» pertence de modo necessário ao corpo grave enquanto tal – e, portanto, a todos os corpos graves possíveis – não pode ser percebido à base de uma mera comparação dos conteúdos significativos de ambos os términos, «corpo grave» e «acelerar-se uniformemente».

É evidente que a obtenção desses dois tipos de conclusão requer em cada caso um gênero de indução essencialmente distinto. No exemplo da lei do todo e da parte, a proposição particular inicial: alguns todos são maiores que a parte, não é propriamente o princípio que revela ao conhecimento a lei geral, senão somente a condição indisponível, para que se possa formar as noções do sujeito todo e do predicado maior que a parte; a verdadeira captação intelectual da conexão essencialmente necessária de ambos não se segue de sua coincidência fática, comprovada repetidas vezes pela experiência, senão da comparação de suas essências. O caso da lei da queda dos corpos é distinto. Aqui não se pode dar uma concepção imediata a base de uma mera compreensão das essências respectivas. Neste caso é precisamente a proposição inicial, particular e empírica, o princípio que produz o conhecimento: do fato atestado pela experiência de que o predicado se dá uma e outra vez, ou seja, se dá constante e regularmente no sujeito; concluímos que lhe corresponde de modo necessário e essencial.

Todavia, assim como o conceito clássico de indução não distingue ainda suficientemente ambas as classes de indução, o conceito moderno do mesmo conceito só abarca a segunda classe. A partir, por exemplo, de Bacon de Verulam e de John Stuart Mill, começa-se a compreender a singular problemática aí contida e busca-se regras para sua aplicação na prática de experimentos; experimentos que adquirem, desse modo, um fundamento científico.

II. § 02 –O Problema Gnosiológico:
Agora, referindo-nos ao conceito de intuição tomado exclusivamente no sentido moderno, fixamo-nos no problema gnosiológico que aqui se empreende. Este pode ser formulado mais ou menos do seguinte modo: Com que razão se pode concluir de uma constante e regular coincidência do predicado com o sujeito, comprovada unicamente pela experiência, que o predicado pertence certa e necessariamente ao sujeito; e como se sabe que semelhante conclusão está justificada em princípio? Não perguntamos, pois, agora, a que grau de conhecimento e de certeza proporciona em cada caso particular o procedimento indutivo, senão se este procedimento representa um método absolutamente justificado e cognoscível em si mesmo. O grau de conhecimento de cada um dos resultados da indução depende sempre das diversas condições empíricas iniciais; será tanto mais alto, quanto maior o número de casos particulares observados e quando mais claramente se faça comprovado à regularidade. Porém, isto supõe que, de uma regularidade puramente mostrada pela experiência, se pode concluir com absoluta razão uma necessidade fundamental.

Mas como a justificação última do método indutivo não é de nenhum modo imediatamente evidente em si mesma, seu entendimento tem que ser facilitado por outros princípios, cuja inteligibilidade se dá por suposta. Portanto, o conhecimento desses princípios se realiza pelo menos de forma implícita, simultaneamente com o conhecimento da conclusão induzida, e representa por esse motivo para o método indutivo um princípio inteiro de inteligibilidade. A questão que temos empreendido sobra à justificação fundamental do método induzido: se empreende agora, pois, sobre seus pressupostos gnosiológicos.
Um pressuposto gnosiológico é aquele princípio que tem que ser conhecido pelo menos de modo implícito simultaneamente com outra coisa, para que possa ser conhecido. Em contraposição a isso, um pressuposto ontológico é um conteúdo de ser ou de verdade, que tem que existir, para que outra coisa possa existir. Por isso, em concreto, não se pode passar por alto, sem mais, que deva existir de antemão uma verdade divino-infinita e uma estrutura determinada da ordem do ser e do entendimento humano, a fim de que o método indutivo tenha possibilidade de ser; porém, daqui não se segue, todavia, que tudo isso tenha que ser conhecido também anteriormente, para que a justificação do método indutivo possa ser conhecida. A esfera dos pressupostos gnosiológicos está contida dentro do âmbito dos pressupostos ontológicos, ainda que não o esgote.

III. § 03 – Pressupostos Gnosiológicos:
Depois dessa delimitação necessária e essa precisão do empreendimento do problema, pode-se intentar agora esboçar uma solução. Que outros conhecimentos pressupõem, pois, o conhecimento da ideia fundamental do método indutivo, ou seja, o conhecimento de que uma regularidade fática de coincidência – regularidade contrastada sempre pela experiência – se baseia em uma coincidência necessária? Digamos já em uma palavra: O conhecimento de uma estrutura inteligível do ser em geral, do qual pode ser de possibilidade e de necessidade. Se a regularidade observada não fosse expressão de uma necessidade fundamental, então seria algo puramente casual.

Todavia, se a regularidade observada não possa se atribuir à causalidade, vamos aclarar, em primeiro lugar, com um exemplo: Ao lançar um dado de jogos de tabuleiro com construção regular, todas as suas faces têm a mesma possibilidade de cair na face superior em que fora jogado; por isso, nenhuma «pode» aparecer mais vezes que outra. Se, apesar de tudo, ocorre que a cifra de número 6, por exemplo, sair com mais regularidade, a maior possibilidade, que corresponde ao número 6, tem que proceder de um princípio de possibilidade suplementar. Esse princípio de possibilidade suplementar, portanto, decide, por assim dizer, entre as muitas possibilidades por si iguais e faz a uma delas mais e com maior frequência possível que as outras. Não obstante, isso significa que a constância e a regularidade observada não são algo casual, senão que em qualquer caso se fundam necessariamente em um princípio comum de possibilidade, concretamente no fator decisivo e determinante entre as muitas possibilidades. De modo parecido, há o exemplo da lei da gravidade que possui um princípio que fixa os corpos que caem em um modo de comportamento na aceleração uniforme e exclui todas as demais possibilidades. Esse princípio poderia ser aqui – de modo semelhante ao exemplo do dado (acessório do jogo de gamão, por exemplo) – a natureza comum do corpo diretamente, posto que não se possa supor no âmbito dos seres não espirituais um costume de comportamento originado por livre autodeterminação.

O princípio que faz possível a regularidade é, por conseguinte, tal, enquanto fixa o comportamento concreto a uma forma determinada entre outras muitas formas possíveis e faz, portanto, aquela forma concreta de comportamento mais possível que as outras, mais ainda, em casos especialmente precisos inclusive a uma só possível e as demais as faz absolutamente impossíveis. Assim, com isso se há expressado o princípio ontológico de razão suficiente, o qual neste caso significa: uma coisa é somente real na medida em que está possibilitada e determinada de alguma parte, por algum princípio, e por este motivo está posta a realidade correspondente. O conhecimento desse princípio representa para a conclusão indutiva um princípio de inteligibilidade, um pressuposto gnosiológico, que não se adquire inicialmente por indução.

Dito isso, oferecemos outro passo: no formulado princípio de razão suficiente se expressa uma inteligibilidade de princípio ou referência do ser em geral ao logos. Pois, assim como se faz claro e inteligível, o modo como a regularidade observada em geral que pode «ser», está dado por esse princípio, ao mesmo tempo, como imediatamente inteligível o que «ser» em geral significa. Se «ser» em geral não fosse inteligível para nós, então a pergunta sobre a condição sob a qual pode ser observada sua regularidade, não teria em absoluto um ponto de referência.
Com a inteligibilidade do ser está já, ademais, compreendido implicitamente todo aquele, sem o qual o conteúdo significativo «ser» não pode ser compreendido. Aqui pertence, sobretudo, o conteúdo formulado nos chamados «princípios ontológicos de identidade e contradição»: o ser é necessariamente ser e não pode convir com o não ser, no qual se expressa à estrutura modal do ser, ou seja, uma relação fundamental de possibilidade e de necessidade do ser, a qual pertence também o princípio de razão suficiente.

Com isso se faz, pois, estabelecido um conjunto básico de verdades ontológicas como pressupostos gnosiológicos imanentes ao método indutivo. Em todos esses princípios se trata de um conjunto de conhecimentos imediatos, que no fundo não representam senão aspectos diversos de um conhecimento do caráter modal inteligível do ser. Com o qual faz manifesto, que o processo do conhecimento indutivo das ciências indutivas consiste no esclarecer dos dados empíricos de cada caso a luz desse conhecimento fundamental e fazê-los assim compreensíveis em seu caráter ontológico específico a partir de um conhecimento fundamental e geral do ser[2].

__________________________________________
[1] Conceitos e Pressupostos Gnosiológicos do Método Indutivo de Heinrich Beck na Tradução de prof. Isaías Klipp. Disponível em Dadun: <https://dadun.unav.edu/handle/10171/1798> Acesso em 28 de Março de 2017.
[2] NOTA: Nas palavras precedentes há se intentado aplicar gnosiologicamente a problemática suscitada pelo método indutivo à luz da doutrina estrutural modal inteligível do ser, que o autor NICOLAI HARTMANN desenvolve ontologicamente em seu trabalho: «Moglichkeit und Notwendigkeit. Eine Entfaltung der ontologischen Modalitäten Lehre im Ausgang» de Nicolai Hartmann (distrito de PULLACH, Munique 1961), em que o autor aprofunda e dá continuidade em sua obra posterior: «Der Akt-Charakter der Seinslehre Thomas v. Aquinsñus einer Anregung durch das dialektische Prinzip Hegels» (Munique, 1965).

“Possibilidade e Necessidade: Um Desdobramento do Ensino das Modalidades Ontológicas a partir de Nicolai Hartmann (distrito de PULLACH, Munique 1961), no qual o autor aprofunda e continua em sua obra posterior: ‘O Caráter de Atividade na Doutrina do Ser de Thomas v. Aquino,’ uma inspiração pelo princípio dialético de Hegel”.

HEINRICH BECK - Conceitos e Pressupostos Gnosiológicos do Método Indutivo [Trad. Prof. Isaías Klipp]

Professor | Pesquisador
Fundador do projeto Proscênio Filosófico (2017). É Tradutor de textos filosóficos. Bacharel (2020) e licenciando em Filosofia (2022) pela Universidade de Caxias do Sul, UCS.
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Franscisco Romero – Sobre o Valor Metódico da História da Metafísica

Proscênio Filosófico.

Que o Eco das Grandes Obras ressoe em vós!

Sobre o Valor Metódico da História da Metafísica | Franscisco Romero (1940)

A primeira atitude filosófica foi resolutamente metafísica. Os remotos pensadores de Jonia dedicaram-se a uma ousada investigação ontológica conduzida com silêncio e total confiança na capacidade da razão. Se optarmos por ignorar as concepções míticas do animismo e outras similares, podemos imaginar o primeiro comportamento cognitivo diante da realidade como uma admissão, tal como N. Hartmann sugere, do mundo imediatamente presente, um mundo de entidades tangíveis; uma afirmação tácita de que as coisas como são percebidas constituem a realidade. A superação desta posição, e com ela o início histórico da filosofia ocidental, vem com a crítica da experiência à luz da razão, com a verificação, que deve ter parecido surpreendente na época, de que a visão imediata e direta da realidade, por mais convincente que possa parecer à primeira vista, não satisfaz assim que a análise racional, a crítica e a reflexão aguda sobre ela funcionam. Devemos encontrar, portanto, a verdadeira realidade sem censura. E a razão aplica-se a esta tarefa, sem suspeitar durante muito tempo que ela, tal como os sentidos, pode ter leis e exigências próprias, estranhas à estrutura íntima e ao comportamento da realidade. A fé primitiva nos sentidos é sucedida por uma fé não menos dogmática na razão.

A sólida fé na razão das primeiras filosofias é quebrada ou relativizada de maneiras diferentes e em etapas distintas. Destaquemos alguns desses contratempos da crença racionalista.

Já importa uma considerável atenuação da fé na razão o fato de que, mesmo aceitando-a antecipadamente, se julgue indispensável justificá-la, fundamentá-la: assim ocorre, por exemplo, com um racionalista tão convicto como Descartes. Mais grave, sem dúvida, é a impugnação cética, tão sutil e engenhosa entre os gregos, mestres não superados no uso do instrumento racional e que nos maravilham tanto quando o empregam dogmaticamente em formulações entitativas como ao revelar seus limites, falhas e incongruências. Frente ao ceticismo antigo, límpido e ágil, o moderno produz uma impressão um tanto penosa de pesadez e torpeza; mas não nos apressemos a deduzir daqui um juízo comparativo desfavorável. Porque o ceticismo moderno, exceto em algumas de suas expressões renascentistas, não se contenta com o trabalho destruidor do antigo, mas logo se põe à obra positiva de explicar e organizar filosoficamente o saber da experiência; enquanto o ceticismo antigo estava principalmente interessado no momento negativo e nele costumava permanecer, o moderno se converte em empirismo, avança associando à tese da ineficácia metafísica da razão uma teoria afirmativa sobre o funcionamento da razão no manuseio, coordenação, sistematização etc., dos dados experimentais por meio de operações relacionais, indutivas, generalizadoras etc., plenamente racionais todas, embora se entenda que não vão além do plano fenomênico. Em graus diversos e com intenções distintas, racionalismo e empirismo atribuem grande papel à razão; a discrepância consiste em que, enquanto o racionalismo concede à razão o dom de apreender o em si, o empirismo sente que não pode ir além de forjar recapitulações e elaborar extratos de experiências. O caráter diferencial do ceticismo moderno em relação ao antigo, a positividade do empirismo contraposta à negatividade do velho ceticismo dialético, sugere considerações talvez interessantes, que darão matéria para outro artigo. É nada menos do que um dos sintomas ou consequências da valorização do fenômeno, da experiência imediata e mesmo de qualquer tipo de experiência, valorização cujo incremento é um dos traços do progresso em filosofia e da subsequente ampliação da consciência filosófica.

A metafísica começa com a preocupação de encontrar uma definição da substância original em termos que satisfaçam as demandas da razão; nasce com a constatação da inconsistência do saber imediato fornecido pela experiência comum, diante da reflexão, diante do exame racional, e é natural, portanto, que postule instâncias substanciais justificáveis perante o tribunal da razão. Com Parmênides, foi alcançado um dos mais altos níveis alcançáveis para a inteligência humana. Mas dentro de sua própria concepção genial, o racionalismo já sofria, junto com o que foi provavelmente seu maior triunfo, também sua grande derrota. Porque essa perfeita intuição parmenídea da realidade substancial de modo algum permite a transição ao fenômeno, a derivação a partir dela do orbe da experiência. Uma metafísica incapaz de dar conta do fenômeno é uma metafísica truncada ou fracassada, porque o fenômeno é fenômeno da realidade em si, uma especial manifestação dela, e não um mundo autônomo. Uma metafísica negligente em conectar de modo plausível a realidade em si à experiencial, que deixe esta última em suspenso, corre seguramente o risco de necessitar de outra metafísica suplementar que leve em consideração a natureza do fenômeno e a relacione a algo extra-empírico. Quando se descuida propor um elo legítimo entre ambos os ordens — e mais, naturalmente, quando a índole da tese metafísica impede encontrar tal vínculo —, fica entreaberta a porta para que por ela se deslizem demiurgos e outros entes do estilo, mais próprios da imaginação oriental que do parcimonioso pensamento ocidental.

A propósito dessas considerações, é instrutiva a confrontação entre Parmênides e Demócrito. Parmênides negava o movimento, e seu discípulo Zenão explicitou o ponto de vista do mestre através de argumentações polêmicas que nunca foram seriamente refutadas. E de fato, para um racionalismo tão extremado como o parmenídeo, o movimento é inconcebível. Comparada com esta metafísica, produto da ratio (razão) entregue a si mesma e desenvolvendo seu jogo sem restrições, a de Demócrito é quase uma capitulação. Não apenas ele admite o movimento, condenado sem perdão pelo Eleatismo, mas também introduz a noção contraditória de algo real mas indivisível. E, no entanto, a grandeza de Demócrito corre lado a lado com a de Parmênides. Pela primeira vez, ele ensaiou uma explicação coerente e unitária do mundo dado, do conhecimento e do absoluto. Sua interpretação da realidade última está rigorosamente condicionada pela necessidade de deduzir dela o mundo da experiência imediata. E o que sem dúvida se perde pelo lado da perfeita racionalidade do em si, é ganho pelo outro lado da coordenação do fenômeno com a trama ontológica da realidade. A partir deste momento, parece formalizar-se um duelo entre a razão e a realidade.

O registro dos episódios dessa vasta contraposição, a elucidação de seu significado, reveste um interesse notável, e seria um equívoco pensar que este interesse é unicamente histórico. Oferece também, e talvez principalmente, um interesse teórico atual e até metodológico. A história da filosofia, especialmente a da metafísica, importa como a série memorável de esforços direcionados à compreensão da intimidade oculta das coisas. Mas a história da metafísica reveste além disso outra significação mais precisa. É um dos poucos caminhos para uma compreensão completa da razão, de seus desiderata, das correções que sucessivamente lhe são impostas, de suas possibilidades, de sua estrutura, de suas limitações. Após os vislumbres céticos, Kant oferece pela primeira vez uma grande e profunda teoria da razão. Mas esta teoria, mais do que o propósito de interpretar livremente os dados do problema, revela a intenção de extrair todas as consequências de alguns princípios estabelecidos de antemão, e apresenta mais de um segmento frágil e outros resolutamente inaceitáveis. Mais de uma vez surgem na Crítica da Razão Pura implicações realistas que o autor, prisioneiro de seus próprios pressupostos, não conseguiu ou não quis ver. Uma teoria que abarque a razão com um ânimo mais desprevenido que o Kantiano só poderá ir organizando seus materiais mediante um exame cuidadoso do trabalho racional, exame no qual devem ser levados em conta a lógica e a matemática, mas principalmente a história das metafísicas racionalistas, provavelmente o terreno onde a razão se exercitou de maneira mais livre e variada, descobrindo seus fins e recursos. Em nossa opinião, portanto, a história da metafísica assume diretamente um papel metodológico para o estudo da razão. Mas não é apenas isso. Esse uso metodológico se estende depois à própria ontologia, porque somente através das claridades obtidas sobre a natureza e o funcionamento da razão será possível uma ontologia mais estável do que as habituais, as quais costumavam se limitar mais aos requisitos e leis internas da razão do que a qualquer outra coisa

Francisco Romero - Sobre o Valor Metódico da História da Metafísica (1940) [Trad. Prof. Isaías Klipp]

Professor | Pesquisador
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O Transcendental e o Problema de Deus em Martin Heidegger – Ernildo Stein

Proscênio Filosófico.

Que o Eco das Grandes Obras ressoe em vós!

O Transcendental e o Problema de Deus em Martin Heidegger | Ernildo Stein (1966)

Sobre a Obra
Uma das pontes sinalizantes que comunica nossa intelectualidade com os acontecimentos do pensamento no século XX e com o grande pensador Martin Heidegger tem nome: Ernildo Jacob Stein. Nosso professor, e um dos nossos grandes exemplos de representação intelectual-acadêmica na formação do quadro filosófico brasilero, não poderia deixar de carregar latência em histórias de vida, nos acontecimentos de conquista e perseguimento de formação. E é exatamente isso que entrega a presente obra, a história que a carrega nos diz muito também sobre seu autor.

A coragem é, segundo Aristóteles, em um de seus ditames de cunho comum e de real conhecimento, o garantidor de todas as outras virtudes. Assim o é a vida de nosso professor Ernildo com os ditames de suas reviravoltas, sendo elas de ordem acadêmica, pelo fato de, talvez, ser um teuto-brasileiro perseguido pela ditadura militar brasileira como professor e que ao sair do Brasil se consagra no cochichar lancinante e presente na boca dos atentos estudiosos egressos das salas de universidades de filosofia do Brasil como o grande representante e lastro de toque-humano com os acontecimentos do pensamento do século XX. Stein é a figura representativa dessa coragem. Nessa aura, exata, que se conhece pelo peso o nome de algumas personalidades, está a dele. Pois nas referências que são direcionadas com o tom necessário para se compreender os enfrentamentos que desenham uma figura de reais contornos dados ao trabalho sobre si e aquilo que molda realmente na ordem dos acontecimentos, está a de nosso querido professor. Seu nome carrega esse peso, e sua figura representa um direcionamento àqueles que querem também assumir coragem nos problemas de ordem filosófica.

É assim que nasce a presente obra, carregada de um desenho sutil sobre o surgimento de nosso professor publicamente, ou como podemos, por vez, chamar “Apeiron”. É com esse pseudônimo que o ensaio sobre “O Transcendental e o Problema de Deus em Martin Heidegger”, promovido pela Divisão de Cultura da Secretaria da Educação e Cultura através de seu Instituto de Estudos Sociais e Filosóficos, sai em 29 de Janeiro de 1965.

A comissão julgadora entrega outros de alguns de nossos grandes nomes, entre eles o grande Gerd Bornheim, juntamente com Álvaro Magalhães e Delmar Schneider. E a conclusiva tarefa resulta de que “o primeiro prêmio coube ao Sr. Ernildo Stein que concorreu com um excelente trabalho que estudava o problema de Deus e o transcendental na obra de Martin Heidegger” (p. 57). Decidida pelo trabalho de nosso professor sobre o pseudônimo de Apeiron, pelo Vespertino Fôlha da tarde de 1965, Porto Alegre, “a comissão julgadora reconheceu a superioridade do trabalho do autor, sua maturidade filosófica e familiaridade com o mundo das ideias”, (Apud).

O autor reconhece em agradecimento o Diretório Acadêmico Pio XII da Faculdade de Caxias do Sul pelos encargos da edição da obra em questão no ano de 1966. E sobre um alto-encargo de honraria prestado na presente edição, minhas homenagens ao querido professor Ernildo Stein, que já professor em nossa Instituição Universidade de Caxias do Sul (UCS), nos honrou pelo exemplo intelectual e humano, sobre seus feitos e sobre o símbolo que nos presta enquanto figura e personalidade.

– ISAÍAS KLIPP

Ernildo Stein – O transcendental e o Problema de Deus em Martin Heidegger (Obra de 1966, agora revisada e reeditada).

O TRANSCENDENTAL E O PROBLEMA DE DEUS EM MARTIN HEIDEGGER
POR ERNILDO STEIN

HEIDEGGER apresenta uma nova forma de filosofia transcendental. Ele coloca o problema transcendental no terreno da fenomenologia (1). Filosofia transcendental e fenomenologia podem ser confrontadas e entrar em diálogo, quando a esta se dá uma dimensão radical. Não sobre a fenomenologia no sentido vulgar, mas sobre o conceito fenomenológico de fenômeno cai a tônica. Nessa fenomenologia de sentido originário, a imediatidade do puro mostrar-se exige uma descoberta (Freile gung) pela qual o não-temático se mostra e revela como uma dimensão possibilitante. Esse elemento mais profundo representa um certo a priori fundante (2).

O sentido da fenomenologia, nesta perspectiva, pode ser levado a tal radicalidade que ela possibilita o desvelamento fenomenológico do próprio ser. Assim, Heidegger pode buscar sua ontologia fundamental numa inteira fidelidade ao método fenomenológico. Neste domínio da fenomenologia primordial, o próprio manifestar-se do fenômeno pode dar-se mesmo num movimento de velamento.

Atrás do ser do ente que se desvela, não é compreensível a existência de um outro ser, como coisa em si, escondido atrás de toda a fenomenalidade que escape ao método fenomenológico. Nada há velado atrás dos fenômenos que, de algum modo, não seja desvelável. Por isso, toda ontologia só é possível como fenomenologia.

Heidegger sugere toda uma gama de dissimulações e obstruções, criadas pelas diversas camadas culturais, que escondem o que se manifesta originariamente. É por isso que as coisas não são mais captadas assim como se manifestam. Heidegger prega uma revisão completa do aparelho conceitual da Filosofia Ocidental, pela sua Fenomenologia.

Neste contexto, situa Heidegger o problema do transcendental. Portanto, de maneira bem diversa se problematiza a questão, em se a comparando com o transcendental na tradição Metafísica.

“A palavra (transcendência) designa de um lado a ultrapassagem do ente para aquilo que, como ente, é em sua ‘quididade” (Washeit) (da qualificação). A ultrapassagem para a essência é a transcendência enquanto transcendental. Kant, limitando criticamente o ente ao objeto da existência, identificou o Transcendental com a objetividade do objeto. Transcendência significa, porém, ao mesmo tempo o transcendente, o qual, no sentido de fundamento primeiro existente do ente, ultrapassa a este enquanto existente e, dominando-o, perpassando-o com toda a plenitude do essencial. A ontologia representa a transcendência como o transcendental. A teologia representa a transcendência como o transcendente”. (3) (4)

“Na ultrapassagem transcendental-transcendente, o ser é apenas aflorado como representação. O pensamento ultrapassante pensa permanentemente o ser dele se desviando, não errando, mas não se adentrando no ser mesmo e na questionabilidade de sua verdade” (5).

Essas afirmações de Heidegger mostram seu modo de problematizar o transcendental da metafísica tradicional cuja dimensão onto-teológica implica no transcendente. A Ambivalência transcendental-transcendente faz com que a metafísica esqueça o ser. Ela leva a uma teologia da criatura e não a uma ontologia do ser do ente.

Na metafísica, o ser como transcendental perde seu conteúdo, por que este é atribuído a Deus que, como transcendente, é o analogante do qual participam os entes. O ser, radicalmente, é Deus, e os entes só são porque o abismo que os separa do ser é unido pela ponte da criação. Que seria aqui o ser como transcendental? Uma concretude comum aos entes unificando-os num parentesco ontológico? Ou seria um a priori lógico que o sujeito projeta como espaço concreto no qual entra em contato com os entes?

Nessa problemática, se insere a posição que Heidegger assume com sua ontologia fenomenológica-fundamental-transcendental. O transcendental toma nova força e conteúdo Pleno. Heidegger quer alcançar o ser como transcendental na imediatidade do seu mostrar-se fenomenológico no e ao Dasein. A dimensão transcendental não se abre aqui como um espaço racional no pensamento, que não cria o lugar privilegiado da manifestação o ser (6). O ser é a sua própria dimensão transcendental na qual se desvela e se esconde, no velamento e desvelamento dos entes. O ser se manifesta no sentido pré-racional da situação do Dasein. Nesse sentimento, planifica-se como presença.

Assim, Heidegger preserva o conteúdo do ser como transcendental. Vai mais além, colocando no ser como transcendental a própria fonte originante da possibilidade de transcendência do Dasein. O Dasein está condenado a colocar todo o seu conhecimento dos entes na dimensão transcendental porque a essência do Dasein é um dom do ser. É o próprio ser que se manifesta na essência do Dasein como um dom. Portanto é o próprio ser que se abre como transcendental no Dasein. Mas esse transcendental se manifesta na temporalidade e finitude porque ele abre seu domínio no próprio ser-para-a-morte. Dessa maneira, o auto-desvelar-se e auto-velar-se do ser no Dasein é fenomênico e finito.

Perde assim o ser o sentido transcendental intemporal conjugado com o transcendente da metafísica. É o ser mesmo que, no misterioso velamento e desvelamento, possibilita a diferença ontológica, e não um ente absoluto, intemporal. Deus, nessa perspectiva, é ente. É o mais ente de todos os entes. Ele surge, concretamente, no espaço puro e transcendental da verdade do ser, elemento primário, anterior a toda concreção e determinação entitativa. Deus se situa como ente entre os entes no horizonte transcendental, que é a direção para onde e de onde algo se faz compreensível no plano ôntico-empírico-histórico.

Confirmado o conteúdo do ser como transcendental, poderá Deus continuar como transcendente absoluto, sendo ente? Reduzido ao manifestar-se fenomênico no horizonte do ser para que possa ser conhecido, poderá Deus ser tematizado na Filosofia? Que dizer, sob essa perspectiva, da afirmação de Lauer: “Deus não se fenomeniza”? Ou seria o sagrado (elemento fenomenal) a dimensão condicionante da fenomenização de Deus? Seria, talvez, o sagrado o espaço possibilitante da comunicação entre os mortais e Deus? Em termos mais radicais: continuarão as categorias finito-infinito a ter algum sentido em tal problematização?

Na esfera desse perguntar, surge a intenção de nosso ensaio. Uma tensão progressiva leva Heidegger a avançar desde “Ser e Tempo”, sob uma mesma trilha inspiradora através de todos os seus escritos, para a determinação e desvelamento do ser cujo conteúdo se perdeu na História da Metafísica Ocidental. É uma busca da nova hegemonia do ser, que lhe dê seu pleno conteúdo de transcendental e faça dele o elemento determinante do pensar e existir históricos do Dasein.

Heidegger realiza esse caminho numa lenta evolução em que, no início, acena a primazia do Dasein, mas em que, com a “Introdução à Metafísica” (1935), brilha a hegemonia do ser.

Toda a interrogação posterior – no perscrutar a História da Filosofia para uma busca e uma “volta ao não pensado”, na exaltação da comunhão com o “Én Pánta” dos pré-socráticos, nas análises da obra de arte, da poesia e da linguagem, da coisa, enfim, na meditação do ser com História, como “Ereignis”, acontecimento-apropriação – é um esforço de captação do ser na transcendentalidade pura e plena, assim como o fôra antes do esquecimento.

Existirá um acesso a Deus dentro dessa nova posição transcendental na Filosofia? Qual a posição de Deus num pensamento que se lança no abismo de um perguntar “porque há o ente e não antes o nada”?

Eis o que se anuncia neste tempo em que “chegamos muito tarde para os deuses e muito cedo para o ser, cujo poema apenas iniciado é o homem” (7).

“PODEMOS ousar o passo de volta da Filosofia para dentro do pensamento do ser, logo que nos tornamos familiares na origem do pensamento” (8)

Superado o formalismo dos sistemas, a reflexão de Heidegger é o itinerante. Não se encastela em escola nem se fecha na concepção tradicional. É um pensamento a caminho… Avança no claro-escuro da interrogação e seus escritos são marcos à beira do caminho. Não trazem a luz meridiana das respostas estáticas formuladas como deduções mortas. Nem se perdem na tagarelice ontológica de quem acumula provas para a “sua verdade”. Para Heidegger, as provas fatigam a verdade.

Heidegger itinerante é um pensador errante. Alcança de errância em errância na história da filosofia, em busca do verdadeiro caminho para o ser.

Mas várias etapas percorridas, ele não encontrou verdades absolutas. Mas, até nos descaminhos havia manifestações do mesmo ser que se vela e desvela.

Por isso, pensaremos Heidegger em movimento. Os multidimensionais aspectos do filósofo mantém a rigorosa unidade de um caminho. Principalmente seu método fenomenológico cresce e se elabora com radical fidelidade.

Não ancoramos em posições fixas nem descobriremos um sistema rígido, mas nos defrontamos com um interrogar na mesma direção. Veremos como Heidegger pergunta em torno da questão decisiva na metafísica ocidental: a onto-teo-logia, o transcendental e o transcendente, o ser e Deus.

A precariedade do resultado não se comensura com a radicalidade do tema. Mas, talvez se justifique o trabalho, quando este tem apenas a pretensão de ser um saio. Como ensaio são mais as perguntas que suscita, que as respostas que traz. Perguntar, porém, é a marca essencial da abertura para o ser.

1- PARTE

O SER

“A história do ser não é nem a história do homem e da humanidade, nem a história da relação do homem com os entes e com o ser. A história do ser é o ser mesmo e só isso. Como, porém, o ser, para a fundação de sua verdade nos entes, toma em consideração o ser humano, fica o homem inserido na história do ser, mas sempre na perspectiva do modo como ele, a partir da relação do ser consigo e conforme essa relação, assume, perde, desconsidera, liberta, aprofunda ou dissipa a sua essência” (9).

1. TRANSCENDÊNCIA FINITA E COMPREENSÃO DO SER

A – O PROJETO DE “SER E TEMPO”

A partir de suas origens, o pensamento de Heidegger se movimenta pelo caminho da pergunta antiga, que se tornou a pergunta guia da Metafísica Ocidental, a partir de Aristóteles: Tí tó ón? Que é o ente? (10).

Mas, Heidegger a faz preceder da pergunta fundamental que foi esquecida, e sem a qual a pergunta guia não se responde: Que é o ser?

A natureza do ente, a determinação do ser do ente, será o centro de reflexão da ciência primeira que, para Aristóteles, jamais se configurou como ciência, no sentido clássico. Era simplesmente a “Episteme Zetoumene”, a ciência procurada. Antes que uma ciência, era uma dialética, desembocando nas aporias insuperáveis diante do “Tó ón légetai pollaohos” (11). Era a impossibilidade de conciliar a ciência do ente enquanto ente com a ciência do ser primeiro, a teologia, única ciência possível, pois só há ciência do necessário. Mas, mesmo o ideal teológico é impossível de ser concretizado, pois vivemos num mundo contingente, submetido ao tempo e ao movimento, e as categorias deste mundo não se aplicam ao ser imóvel e separado. Diante do ideal inacessível da teologia e do ideal inacabável da ontologia, o discurso humano, disperso e aporético, se reconciliará com os estudos da forma sublunar do ser, que são os entes, e que estão radicalmente divididos pelo movimento. Assim, a ontologia real de Aristóteles não se apresenta como uma metafísica geral, mas como uma metafísica especial do ente mutável do mundo sublunar. Ela é, de certo modo, o substituto humano de uma teologia inacessível, e é a física como a verdade da metafísica. As aporias do discurso sobre o ser se tornam a expressão fiel da contingência ontológica do ser. Diante da multiplicidade dos entes, a metafísica de Aristóteles é uma metafísica do inacabado (a simples enumeração e a não delimitação taxativa das categorias o comprova), é, de certo modo, a metafísica, do homem em sua finitude. O esforço de Aristóteles para colocar o fundamento da Metafísica no mundo supra sensível, separado e imóvel, intemporal, levou-o a essas aporias que lhe terão dado o sentido do fracasso, caso não tiver tido consciência de que as aporias são o próprio sentido do filosofar na finitude.

O decisivo para Heidegger não são os caminhos da metafísica ocidental e, sim, a pergunta que ele escuta desde o ventre das aporias, a partir de Aristóteles, neste esforço de ancorar a multiplicidade no supra sensível, de fundamental uma ontologia numa impossível teologia. Se o ente se predica de muitos modos, é essencial a pergunta pela unidade da qual brotam a multiplicidade significativa do ser. A pergunta pela unidade do ser, na multiplicidade de seus sentidos, é o acicate [espora de ponta única] que conduz Heidegger na sua interrogação.

A pergunta pelo ser do ente é simplesmente a pergunta-guia; mas aquela que interroga pelo sentido do ser mesmo, é a pergunta-fundamental.

A problematização deve ser feita em torno da unidade da qual brota a multiplicidade. É a pergunta pelo sentido do ser ensaiada em “SZ”. Na tradição, o ser que permite a multiplicidade é presença que presentifica o presente no tempo. Assim, a metafísica, de modo oculto, acena para a questão: “Não pertence o tempo essencialmente a unidade do ser?”. Não no intemporal paira a unidade do ser, mas no horizonte da temporalidade.

Desse modo, a pergunta pelo ser se converte em pergunta pelo ser e tempo. Que significamos com a pergunta pelo ente? Que entende a Metafísica quando diz “é”? Não pensa ela, com demasiada facilidade, o ser como presença, esquecendo, porém, o tempo que permite pensar a presença? Não esqueceu o pensamento tradicional, quando pensa o ser do ente, o fundamento: o sentido do ser ao qual pertence o tempo?

Nas duas secções de “Ser e Tempo” que apareceram, Heidegger procura interpretar, a partir da temporalidade, aquele ente que se caracteriza pela compreensão do ser: o Dasein.

“A partir da temporalidade e historicidade do Dasein que compreende o ser, queria Heidegger fazer do tempo, que pertence ao sentido do ser, o objeto do pensamento. Desde a temporalidade do Dasein, a compreensão do caráter temporal daquele horizonte transcendental, no qual o ser se desmembra na multiplicidade de seus sentidos, deveria ser procurada na terceira secção do “SZ” (12).

O que significa para o sentido do ser em si mesmo que um ente temporal a pergunta pelo ser? Eis a síntese da problemática de SZ. Mas ela pressupõe outra interrogação: que relação existe entre a finitude do Dasein e a compreensão do ser? Qual a relação que há entre transcendência finita e o ser como transcendental?

Aqui se apresenta a primeira tarefa. Análise do problema da transcendência finita ou da compreensão temporal do ser, a partir das obras que sucedem imediatamente a “Ser e Tempo”.

A terceira secção de “Ser e Tempo” seria a abertura do quadro ontológico em que situar-se-iam todas as análises das duas secções publicadas e intitular-se “Zeit und Sein”. Nela, dever-se-ia dar uma “explicação original do tempo como horizonte da compreensão do Ser” (13).

Tempo original e ser em geral seriam examinados em mútuo relacionamento. Realmente, “SZ” não se compreende sem a visualização ontológica que seria dada na terceira secção. Isso mostra a necessidade de uma ontologia, que Heidegger tinha e tem como projeto. E porque este silêncio do filósofo? Se foi possível uma analítica existencial, na linguagem da filosofia reinante, não é possível a elaboração de uma ontologia difícil como tarefa para um homem, se confunde com a própria tarefa de construir uma nova ontologia. O silêncio não é, portanto, uma confissão de fracasso, mas a prudência de quem não quer, pela pressa, comprometer o encontro da nova ontologia.

A busca contínua nas obras posteriores, que vamos examinar em sua evolução. “Kant e o problema da Metafísica”, “Da Essência do Fundamento”, “Que é a Metafísica?” e a “Essência da Verdade” constituem os primeiros textos que seguem SZ e que, além da unidade cronológica, mantém uma unidade temática, de conteúdo. Mas, nelas já se verifica uma gradual mudança na relação do homem com o ser; uma passagem da transcendência finita para o transcendental , como passo gradual da analítica existencial para o esboço; uma lenta recuperação do sentido originário do ser.

B – TRANSCENDÊNCIA E TEMPORALIDADE

Em KM, que surgiu numa tentativa de elaboração da primeira secção da segunda parte de SZ, Heidegger continua a busca de uma ontologia fundamental, através de uma analítica existencial que possibilite a pergunta pelo ser. Ele vê em Kant, não apenas uma crítica do conhecimento do fundamento da ontologia. “Kant não procuraria só mostrar as condições de possibilidade do conhecimento humano, mas onde, como e porque surge a metafísica que pertence à natureza humana”. Segundo Heidegger, Kant teria projetado fundamentar a metafísica pela analítica do homem, mas do homem em seu conhecimento.

Kant perguntava pela possibilidade dos juízos sintéticos a priori, que são a condição de possibilidade de toda experiência. Enquanto esses juízos são supostos de todo conhecimento ôntico, eles formam o conhecimento ontológico puro, não-empírico.

O conhecimento é, para Heidegger, a compreensão pré-ontológica do ser, agora caracterizado como transcendência – que em SZ apareceu procedendo e possibilitando todo encontro ôntico com os entes. Assim, para Kant e para Heidegger, o problema da fundamentação da metafísica é o problema da pré-compreensão do ser, isto é, da transcendência, graças a qual o homem compreende o ser do ente, antes de toda experiência. O problema da transcendência é, ao mesmo tempo, o problema da finitude pois o conhecimento humano é finito.

Como pode o homem compreender a priori o ente em seu ser, antes de qualquer encontro com o ente? Qual deve ser a estrutura do homem para que esteja aberto a compreensão do ser do ente?

Kant resolve o problema pela dedução dos juízos sintéticos a priori da imaginação transcendental. Ela possibilita o conhecimento ontológico, tornando possíveis os juízos sintéticos a priori pelos esquemas que são determinações a priori do tempo.

Heidegger se fixa nessa conclusão de Kant para ressaltar o papel do tempo. Se esses esquemas da imaginação transcendental são determinações temporais, então a imaginação transcendental tem um caráter temporal interior. Ela é, como fundamento possibilitante da tríplice síntese pura, o próprio tempo originário, que corresponde à temporalidade do Dasein analisado em SZ. Com isso, é afirmado que o fundamento da possibilidade do conhecimento ontológico, isto é, da transcendência finita, é o tempo originário ou a temporalidade do Dasein. Graças à sua temporalidade, pode o Dasein projetar o ente para o ser; fundado na sua tridimensional estrutura interior temporal, pode o Dasein compreender o ser e, através dele, o ente. A temporalidade é a condição de possibilidade para captar o ente através do ser. O homem pode ser transcendência finita porque existe como temporalidade (14).

A necessidade que tem o ente finito de projetar, previamente, o ser como horizonte, no qual conhece o ente, é um signo de finitude. Portanto, a compreensão do ser não é um privilégio do homem, mas antes a expressão da sua indigência transcendental. A finitude do Dasein significa que ele só pode conhecer o ente de modo indireto. “O Homem não pode, mas deve compreender o ser a priori para poder conhecer o ente”.

Assim, a compreensão do ser está ligada à finitude. Ela é a própria essência da finitude. O homem compreende o ser porque é finito. Essa finitude se embasa na tríplice estrutura do Dasein: o já-estar-em; o estar-com e o “pré-ser-se” (15).

Desse modo, Heidegger continua, em KM, a preocupação de SZ, mas já apresenta um avanço na direção do ser como transcendental, apesar de a tônica ainda cair sobre a transcendência do Dasein.

Em KM, manifesta-se a relação que existe entre finitude e compreensão do ser. A compreensão do ser só se realiza com relação à finitude e vice-versa. São dois aspectos da estrutura radical do Dasein: a temporalidade.

Mas, há aqui como que uma hegemonia do Dasein – como transcendência finita – sobre o ser. Este realmente aparece como exigência pré-ontológica, mas com um sentido muito diluído. Só nos textos seguintes começa o movimento decisivo para uma afirmação do ser como transcendental que possibilita a própria manifestação do Dasein como finitude e condiciona, como espaço transcendental, a própria colocação do problema do ser por parte do Dasein. Mas, finitude do Dasein e, portanto, a compreensão finita do ser, sempre continuarão em evidência.

C – O SER COMO HORIZONTE DA TRANSCENDÊNCIA

Que significa para a questão do ser ou existir na finitude e na dimensão temporal daquele que por ele interroga? Nos quatro textos que seguiram a SZ, vai-se esboçando a resposta numa mudança de direção da transcendência do Dasein para o horizonte possibilitante dessa transcendência, a qual se esboça coativamente como o transcendental. É uma mudança de perspectiva que avança na direção do ser. A tematização do horizonte será elemento decisivo para a demarcação do transcendental na significação heideggeriana.

O que é este horizonte que possibilita a compreensão dos entes como tais? O ser se apresenta como e para-onde e o de-onde da transcendência, e se abre como o espaço que permite a manifestação dos entes no Dasein e para o Dasein. É claro queu esse horizonte não pode ser um ente. “Um nada, isto é, não um ente e, contudo, “algo!”. (16). Em WM, Heidegger desenvolve o horizonte como um nada. “O nada é a possibilitação do revelar-se do ente como tal para o Dasein humano” (17).

Mas ser e nada não se identificam. Não obstante, na experiência radical do sentimento de situação em que surge a angústia, o homem experimenta os entes caírem no nada, e essa inconsistência dada pela queda faz com que surja a pergunta pelo ser, pelo sentido do ser como tal, pois que os entes, ao tomarem no nada, pela angústia, com o nada se identificam. Assim, o nada é que manifesta a labilidade dos entes, e é, então, a antecâmara do ser. O nada é, pois, o véu do ser.

Podemos determinar no ser – como horizonte não entitativo dos entes – alguns caracteres importantes para a problemática do transcendental. Na abordagem ôntica dos entes, o ser não é analisado tematicamente. É enfocado “exercite sed non signate”. Como horizonte, ele não é tematizado, pois, assim, terminaria sendo um ente. A impossibilidade de uma tematização entitativa vai marcar o transcendental heideggeriano. O ser é atingido numa compreensão pré-conceitual, sendo como tal inconceitualizável. Como inconceitual e não tematizado, o transcendental é, sob certo aspecto, inquestionável e evidente. Por ser simples, ele tende ao esquecimento e nele pode cair.

O ser afinal se apresenta como fenômeno finito. Dois motivos ressaltam imediatamente dos textos. O ser se manifesta pelo desvio do nada no sentimento de angústia; e é pensado fenomenologicamente, a partir do seu aparecer no ente no e pelo Dasein. Ele só se manifesta na transcendência do Dasein que ele mesmo condiciona. Desse modo, o ser está ligado também à estrutura temporal finita deste ente. Como transcendental, só aparece finitamente. Acentua-se, dessa forma, a dimensão fenomenológica do transcendental.

A estrutura formal da transcendência vem detalhada em “A Essência do Fundamento”, onde Heidegger lhe dá o sentido de ultrapassagem. O Dasein realiza a ultrapassagem, sendo o ente o ultrapassado. O “para-onde” o Dasein ultrapassa o ente, não é o ser, mas o mundo. “Nós designamos aquilo para onde o Dasein como tal transcende, o mundo, e determinamos agora a transcendência como estar-no-mundo” (18). O mundo pertence à estrutura existencial do Dasein, como a totalidade pré-compreendida dos entes, enquanto são pensados a partir desse mesmo Dasein, e como pertencentes à sua estrutura.

Mundo e ser pertencem ao horizonte da transcendência. Em WG, o mundo é horizonte no qual o ser é compreendido, pois “o projeto do mundo possibilita (…) a prévia compreensão do ser do ente”. Entretanto, não foi bem delineada a relação mundo-ser. Até hoje, WG permanece como um ponto sombrio e nebuloso na contextura da obra de Heidegger.

O ser sempre está ligado a um mundo, e o mundo sempre é um mundo determinado, porque é o mundo de um determinado Dasein. Desse modo, o ser só aparece de modo determinante e limitado, manifestando-se como finito. Nesse enfoque, o ser como transcendental se perde num nevoeiro pardacento de reflexões que nada iluminam (19).

Já em “A Essência do Fundamento”, o horizonte da transcendência figura na tessitura de uma nova colocação da questão da verdade: o aberto. O ser recebe uma nova determinação a partir da análise da palavra grega “Alétheia”, como desvelamento em seu sentido originário. O ser originariamente desvelado, como horizonte da transcendência, é a raiz última pela qual se manifesta o ente ao Dasein. Mas, no manifestar-se dos entes, o originariamente desvelado (o ser) se vela. O ser, então, entra numa ambivalência radical de velamento e des-velamento.

A verdade em si mesma é velamento e desvelamento, sendo espaço para a manifestação do ente e, ao mesmo tempo, mistério que se esconde. É um modo positivo-negativo de o ser como verdade patentear-se e mostrar-se de modo finito. É como horizonte da manifestação de todo ente que ser e verdade se conjugam numa unidade.

A categoria do aberto, como espaço condicionante, vai mostrar-se elemento determinante na gênese e desenvolvimento do problema transcendental em Heidegger.

(Também em WW, o transcendental manifesta-se como finito).

A compreensão do ser se dá no Dasein finito e temporal. M. Heidegger o diz nos escritos rapidamente examinados. Em KM, o ser como condição pré-ontológica para o conhecimento dos entes está sujeito à temporalidade. Em WM, o ser surge no horizonte do nada de modo não entitativo e está ligado ao Dasein finito que experimenta a angústia. Em WG, o ser se manifesta no mundo determinado de cada Dasein finito, assim como em WW o ser surge na ambivalência positivo-negativa da verdade como velamento e des-velamento.

Irresistivelmente, parece impor-se a constatação: o ser é finito. Mas, é aplicável ao ser a categoria de finito? Não é incompatível com o conceito de horizonte de Heidegger? Não implicaria a consciência de limite uma presença de não-limite? Não constitui paradoxo dizer-se transcendental finito?

Realmente, os conceitos finito e infinito não são adequados para referências no sentido heideggeriano, pois são categorias tomadas do mundo ôntico. E o ser, radicalmente, não “é”. Dizer que ele é seria ir contra a evidência primeira: o ser não é ente.

Em torno do problema, Heidegger assim se expressou: “sí, aunque diría que es (el ser) finito. Todo depende de cómo se entiende el concepto de ‘finito’. Lo entiendo, no como opuesto a infinito, sino en sentido griego, como cerrado en sí mismo, como aquello por lo cual se diferencia de lo otro” (20).

Talvez o melhor modo de coordenar o problema seja este: O ser, como horizonte da transcendência humana, dura como finito, manifestar-se no mundo finito do Dasein, mostrar-se ao homem, não apenas na pura positividade, mas velando-se e desvelando-se. Desse modo, o ser dura como finito. Não é outra a resposta à questão colocada no início: que significa para o problema do ser que por ele pergunte um ser-para-a-morte? Na verdade, quando falamos em ser finito, significamos este durar fenômeno para o Dasein e no Dasein finito. Mas, a resposta plena nos virá mais adiante, na análise de uma mudança de direção do pensamento de Heidegger em que assume plena hegemonia o ser como transcendental.

2. DA TRANSCENDÊNCIA PARA O TRANSCENDENTAL

A. A “KEHRE”

Heidegger reconhece que a não elaboração da terceira secção de SZ fez com que se tornasse mais difícil acompanhar o seu esforço de pensar fora da subjetividade. Em sua Carta Sobre o Humanismo ele afirma: “Aqui o todo se inverte. (21) A secção em questão foi retida, porque o pensamento falhou no dizer suficiente desta “Kehre” (22) 4 porque não teve sucesso com o auxílio da linguagem de metafísica. A conferência “Sobre a Essência da Verdade” que pensada e transmitida em 1930, mas apenas publicada em 1943, dá uma certa visão para dentro do pensamento desta “Kehre” de “Ser e Tempo” para “Tempo e Ser”.

Este foi o primeiro aceno de Heidegger a uma volta em seu caminho e que vem tão discutido atualmente. Referindo-se a esta passagem Heidegger diz: “O pensamento da “Kehre” é uma volta em meu pensamento. Mas esta volta não é consequência que se baseia na mudança de meu ponto de vista ou a renúncia da problematização de “ST”. O pensamento da “Kehre” se demonstra por isso que eu permaneci junto a tarefa do pensamento de “ST”, quer dizer, que perguntei naquela direção que sob o título “Tempo e Ser” vinha indicada já em “Ser e Tempo”.

A “Kehre’ não é em primeira linha um processo do pensamento interrogador; ela pertence à situação da questão mesma significada pelo título “Ser e Tempo”, “Tempo e Ser” (23).

Destas referências à “Kehre” os estudiosos querem ver no pensamento de Heidegger uma mudança de direção, uma viragem, um acentuar uma nova dimensão, mas sempre sobre o mesmo chão inspirador. Esta volta se daria numa total fidelidade a ST.

Podemos afirmar que não se trata de uma conversão no pensamento, de um processo repentino de mudança na reflexão, mas de um processo que emerge lentamente e já condiciona a reflexão de muitos anos. É uma mudança difícil de ser nuançada e que exige abordagem a partir de diversas direções. Nela de certo modo o homem está em questão. O homem na sua relação fundamental com o ser, o que na “Kehre”, poderá significar o ser e sua verdade em sua relação com o homem.

Esta “Kehre” seria uma viragem “do nada para o ser” (24) ou uma mudança da hegemonia do Dasein para o ser (25). Em última análise, os autores concordam em que a “Kehre” tem sentido de avanço para a determinação mais explícita do ser como transcendental. O pensamento de Heidegger seria um caminho da transcendência do Dasein para a transcendentalidade do ser, chegando este, explicitamente, à hegemonia definitiva depois da “Introdução à Metafísica” (26).

É interessante observar como, no início, a diferença ontológica radica na transcendência e como, mais tarde, a transcendência se insere no acontecer originário da diferença ontológica. Talvez, nessa mudança, que se insinua em sua obra, radique o sentido último da… “Kehre”.

Realizou, portanto, Heidegger, uma guinada decisiva na problemática do ser, um movimento que passa da primazia do homem para a primazia do ser. Progressivamente, avança esse desvio, essa viragem, desde a aparição de SZ em que, como em KM, a transcendência do homem tem a primazia, enquanto o ser como horizonte transcendental da transcendência quase não figura tematicamente. Em WG, já aparece um aceno para o mundo como horizonte da transcendência. Em WM, é tematizado o horizonte como o nada. Em WW, o aberto, como verdade originária, assume o centro da reflexão.

“Este desenvolvimento não é de todo inesperado, pois a pergunta pelo ser foi, desde o início, o ‘leitmotiv’ do esforço de Heidegger. Assim, poder-se-ia pensar, porventura, que, com isso, Heidegger alcançará sua meta colocada origináriamente e que, agora, ele considera diretamente o que antes só vira indiretamente e à distância. Mas o desenvolvimento é mais complicado: não é apenas uma viragem do olhar do Dasein para o ser, mas uma transformação concomitante nos papéis ontológicos de ser e do Dasein” (27).

Depois a primazia do ser. Em WM, apesar de o ser ainda necessitar do Dasein para se manifestar no seu desvelar-se fenomênico, ele se torna sempre mais determinante da estrutura da transcendência do Dasein enquanto transcendental. No prefácio, surgindo alguns anos mais tarde, Heidegger desfaz todas as dúvidas: “O ser não é criação do pensamento. Pelo contrário, o pensar essencial é um acontecimento-apropriação do ser” (28). Mesmo a liberdade “brota da essência originária da verdade” (29).

Assim, Heidegger realizou a “Kehre” de sua posição. A mudança da relação com o ser (30) será cada vez mais caracterizada, à medida que aparecem as suas obras posteriores, nas quais o ser como transcendental reina o pleno meio-dia.

B – A DELIMITAÇÃO DA “KEHRE”

A “Kehre”, além de uma mudança na visualização da relação Dasein-ser, constitui uma abertura para o novo caminho sobre o mesmo solo inspirador do primigenio pensar de Heidegger, seminalmente imerso em SZ, na busca pelo sentido do ser. O interrogar itinerante de Heidegger, após os quatro textos que se seguiram a SZ, nos quais se processou a evolução examinada, agora parte do ser. É uma nova perspectiva, resultada da hegemonia do ser como transcendental sobre a transcendência do Dasein.

“Por que há o ente em geral e não, antes, o nada?”. É a pergunta radicalizante que abre as páginas da “Introdução à Metafísica”, livro que marca com segurança uma data definitiva, 1935, para o estabelecimento da “Kehre”. Heidegger delimita mais a pergunta pelo ser, colocando-a como pergunta fundamental. Essa pergunta se abre em duas dimensões: busca uma superação da metafísica ocidental, na qual o ser foi dado ao esquecimento, e ensaia novas prospecções a partir das origens do filosofar do pensamento ocidental.

Heidegger mostra como a pergunta pelo ser na metafísica foi substituída pela pergunta pelos entes. Por isso, exige, uma reinterpretação da questão do ser, questão essa que já em SZ toma novas perspectivas quando lá se fala em “horizonte transcendental”, não no sentido da consciência subjetiva à maneira de Kant.

“A questão do ser designa na interpretação corrente: Perguntar pelo ente enquanto tal (Metafísica). A questão do ser designa, quando pensada a partir de SZ: perguntar pelo ser enquanto tal. Essa significação do título é real e verbalmente adequada. Pois a questão do ser, no sentido de pergunta metafísica pelo ente, não realiza a interrogação temática pelo ser. Este é esquecido”. (31).

É assim que se poderia dizer que o próprio título do livro é dúbio. Não é uma introdução à metafísica tradicional, mas à nova metafísica, que é pensamento do ser e não do ente. Talvez melhor título seria: “Introdução ao pensamento do ser” (32). Heidegger mesmo o sugere: “A pergunta fundamental dessa preleção é de outra espécie que a pergunta guia da metafísica. Revelação significa: abertura daquilo que o esquecimento do ser fecha e esconde”. Por este interrogar, desce também uma luz sobre a essência da metafísica, até agora co-escondida” (33).

“Introdução à Metafísica” significa, conforme isso, conduzir para dentro da questão da pergunta fundamental (34).

“Introdução à Metafísica” significa, conforme isso, conduzir para dentro da questão da pergunta fundamental (34).Heidegger acusa a metafísica ocidental de jamais ter abordado explícita e tematicamente o ser. Desde sempre, a metafísica se movimenta no domínio da diferença ontológica, sem experimentar essa diferença e sem interrogar em torno dela.

Mas, ao mesmo tempo que critica a metafísica tradicional, que olvidou a questão do ser, Heidegger insiste em uma volta aos filósofos que antecederam a Sócrates. Além do esforço por eliminar a tradição socrática, post-socrática e cristã, que impede o regresso ao passado helênico dos pré-socráticos, Heidegger volta a esses, porque foi neles que o ser brilhou pela primeira vez, na idade trágica dos gregos.

A originalidade destes filósofos, em sua relação com o ser, está em sua situação no estado anterior à cisão entre ser e pensar, aquém da divisão sujeito e objeto que vicia toda a metafísica, desde Platão e Aristóteles até Nietzsche. A consequência dessa cisão foi o domínio do pensamento e a hipertrofia do lógico. Na metafísica dominada pela lógica, o ser recebe suas determinações, sua interpretação, sua própria possibilidade, do pensamento. Heidegger quer superar esse predomínio do pensamento lógico e levar esse mesmo pensamento a ser determinado pelo ser, como pertencente ao ser.

É esse o motivo que o leva aos pré-socráticos. Ele pergunta por aquilo que entendiam quando eles afirmavam o “ser”. E constata que, para aqueles que viviam na situação anterior à cisão entre pensar e ser, o ser era: “Physis, ousía, logos, pólemos, noein-einái, deinón, díke” (35). O exame minucioso da gênese etimológica, filosófica e histórico-semântica dessas palavras guias, que dizem muito mais isoladas do que em frases e em livros, leva Heidegger a determinar, com riqueza de detalhes, o aprofundamento do ser.

Todas as palavras guias que serviram aos pré-socráticos para designação do ser, leva Heidegger a determinar o ser como transcendental, não no sentido subjetivo, mas como possibilitante a ele mesmo constituindo a esfera pré-ontológica, o domínio pré-objetivo e o pré-subjetivo em que nascem os entes em seu aparecer.

Apesar de adensado o sentido do ser, ele permanece nessa obra, de certo modo, o mesmo das obras anteriores. Não obstante a ampliação do seu significado, o ser ainda continua aquilo “por força do qual o ente se torna observável” (36), “aquilo a cuja essência pertence a verdade dos entes, o desvelamento” (37), “que se chama vir ao desvelamento” (38) e muitos outros nomes quais é designado em escritos anteriores.

O ser continua ainda como horizonte da transcendência humana, mas agora ele assume um rigor transcendental. Tudo é pensado a partir dele. O ser é o espaço possibilitante da história, da técnica, da obra de arte e do surgimento do próprio homem (39).

Desse modo é estabelecida, definitivamente, a hegemonia do ser sobre o homem. Mas, o ser não aparece como objeto que se opõe ao homem enquanto sujeito; sem isso, negar-se-ia, justamente, o ser que Heidegger pensa como diferença dos entes anteriores à cisão sujeito-objeto.

“Também nos escritos surgidos após a ‘Kehre”, fica estabelecido que o ser não é ente, mas justamente aquilo que dura e domina em todo o ente, sem ser ele mesmo um ente e sem reduzir-se ao seu próprio dominar e durar. Precisamente para conservar esse caráter inefável do ser, é que Heidegger salientou o impulso do misterioso velar-se do ser no desvelar-se dos entes. O ser acontece justamente quando se retira, Nós só o compreendemos quando o reconhecemos como incompreensível” (41).

Depois da “Kehre”, o homem permanece o Dasein. Mas Heidegger quer ressaltar a hegemonia do ser como transcendental e, por isso, aponta a uma nova dimensão que desvenda mais a misteriosa relação do ser com o Dasein. Heidegger, agora, passa a escrever o Da-sein. Chama assim a atenção de que Da-sein e homem não se identificam simplesmente. O Da-sein agora é o fundamento que embasa e possibilita a abertura do homem para o ser dos entes. Como tal, ele (o Da) é mais originário que o homem, ele o possui. Da-sein, então é agora ligar no homem onde o ser mesmo dele se aproxima, onde ele em si mesmo encontra o ser. Da-sein é o próprio ser enquanto no homem encontra a sua clareira (Lichtung). É tanto o homem enquanto o “Da” do ser, como o ser mesmo enquanto “ser-no-homem” (42).

Heidegger agora, em certo sentido, alarga e aprofunda a dimensão do homem, fazendo-o depender, na sua transcendência, do ser como transcendental, colocando-o a serviço do ser que nele e para ele se vela e des-vela na finitude e no tempo.

Em EM, Heidegger mostra como desde os primórdios a definição do homem a partir do ser foi-se esvaziando, permanecendo, na atual definição aristotélica de homem como animal racional, apenas o domínio do humano, utilizado o logos como instrumento.

“O fim se mostra na fórmula: Ánthropos zoom lógon échon; homem, o animal que tem a razão como instrumento. O começo, encerramos em uma fórmula livremente formulada que, ao mesmo tempo, reúne a explicação até aqui dada: Physis – lógon ánthropos échon: o ser, o fenômeno dominante, urge o recolhimento, que contém em si o ser-homem e o fundamenta” (43).

O que até agora se nos figurou a respeito da nova relação entre o ser e Dasein, mostra em definitivo que Heidegger superou, num retorno e num adentramento, o esquema sujeito-objeto e re-toma a pergunta pelo ser na própria dimensão do ser como transcendental. (44).

C. – REFLEXÃO CRÍTICA SOBRE A “KEHRE”

Tendo acompanhado a peregrinação do pensamento de Heidegger desde sua inspiração originária, através da “Kehre”, e seu estabelecimento definitivo, lancemos um olhar retrospectivo sobre o caminho Que significa essa volta do Dasein ao ser? Uma mudança de direção do sujeito ao objeto? Um rompimento do subjetivismo? Que relação existe entre a posição de Heidegger, após a “Kehre”, e a questão transcendental? Há coerência entre esta posição e a anterior?

Heidegger não é subjetivista nem objetivista. Por isso, a volta do Dasein ao ser não é fuga e rejeição do subjetivismo. O sujeito que se criaria a realidade que conhece, é impossível na filosofia de Heidegger. Nem é uma inclinação ao objeto. Heidegger busca o ser como transcendental que precede a relação sujeito-objeto. Para ele, o ser é radicalmente ante-predicativo e condiciona a predicação.

As acusações a ele feitas, só para citarmos um exemplo, por motivo de afirmação: “Só enquanto há Dasein, há ser” (45), mostram compreensão superficial do pensamento de Heidegger. Roger Munier assim comenta essa passagem: “Il n’u a d’Être que pour autant qu’est l’Être lá. Ence point se noue une dialectique des rapports réciproques entre l’Être et l’essence de l’homme, qui est probablement l’articulation la plus délicate de la pensée heideggerienne. Cette proposition controversée ne signifie pas que l’Être en son essence dépende de l’homme, soit un produit de l’esprit fini, mais elle rappelle qu’il ne saurait se dévoiler, se produire comme éclaircie que si l’homme répond à son appel dans l’existence extatique” (46).

[Roger Munier assim comenta essa passagem: “Não há Ser a não ser na medida em que o Ser está lá. Neste ponto, ocorre uma dialética das relações recíprocas entre o Ser e a essência do homem, que é provavelmente a articulação mais delicada do pensamento heideggeriano. Essa proposição controversa não significa que o Ser em sua essência depende do homem, seja um produto da mente finita, mas ela lembra que o Ser não pode se revelar, se manifestar como clareira, a menos que o homem responda ao seu chamado na existência extática.”]

O Dasein apenas compreende os entes, não os faz surgir; tem-nos à sua frente e não os suscita em sua presença.

Não se trata em Heidegger do encontro ôntico ou empírico entre o homem que conhece e o ente que é conhecido. É na busca de uma dimensão pré-ôntica e pré-empírica que Heidegger põe o problema. Ele se movimenta em toda a “Kehre” no plano transcendental. Antes da “Kehre”, pensa-se a partir do homem, depois dela, a partir do ser, mas, em ambas as situações, dentro da dimensão transcendental.

Heidegger, fiel às suas inspirações originárias, supera a posição transcendental de Kant e elabora a nova posição. Substitui a subjetividade transcendental, confirmando-se como a questão transcendental do ser. “A postura de Heidegger não é kantiana, porque dela nasceu uma filosofia do ser e em Kant esta é impossível”.

Mas, apesar disso: “Antes de tudo, a questão transcendental de Kant está tão essencialmente na base do pensamento de Heidegger, que só a partir dela pode ele ser entendido, de modo concreto, na postura de seu problema. Ao mesmo tempo, a posição da questão transcendental avança de tal modo para além de Kant que justamente nisto se realiza uma profunda diferença com Kant… e com toda a ‘metafísica’ da subjetividade: do pensamento ocidental” (47).

A superação do subjetivismo transcendental, por parte de Heidegger, também se evidencia na crítica radical que encetou contra a subjetividade transcendental de Husserl. Heidegger apontou com insistência a ausência de substrato ontológico da subjetividade transcendental no pensamento de Husserl.

Hans Gadamer afirma: “As tarefas que, desde o ponto de partida, jaziam em SZ eram: colocar a crítica radical de Nietzsche ao platonismo no vértice da tradição por ele criticada; ir ao encontro da metafísica ocidental em seu próprio nível; reconhecer e superar a construção interrogativa transcendental como consequência do moderno subjetivismo” (48).

Não houve portanto uma “revolução copernicana” no caminho filosófico de Heidegger. Sua ascensão para a nova dimensão transcendental foi uma lenta peregrinação por “caminhos do bosque”, que vinham desde SZ.

Heidegger pessoalmente confessa que o caminho de seu pensamento não estava determinado e que não podia prever aonde levaria seu ponto de partida: “Entretanto, fez-se sentir a tentativa de andar um caminho, no qual eu não sabia para onde conduziria. Só me eram conhecidas as perspectivas mais próximas, porque incessantemente me atraiam, ainda que o horizonte repetidas vezes se afastasse e se cobrisse de sombras” (49).

3 – UM PENSAMENTO COMANDADO PELO SER

Realizado o movimento da Kehre, Heidegger, fiel à sua determinação de perguntar pelo sentido do ser, interroga por aquilo que realmente entendemos quando dizemos “ser”. Essa busca é sempre feita no plano transcendental, mas através do método fenomenológico. Já que Heidegger pergunta pelo ser, como fenômeno global que se vela e desvela ao e no Dasein, manifestando-se nos entes. A hegemonia do ser comanda todas as buscas. Aquilo que se estabeleceu definitivamente em EM perpassa na metafísica ocidental; a volta aos pré-socráticos, as análises da obra de arte, da poesia, da linguagem, da essência da coisa, recebe seu dinamismo da decisão de determinar o ser como transcendental.

Os escritos posteriores a 1935 assumem, nessa perspectiva, clareza, transparência e unidade em meio às múltiplas direções aparentes.

Dessa maneira, podemos ordenar grande parte da reflexão de Heidegger, após a determinação da “Kehre”, como um trabalho em busca das instâncias privilegiadas, dos momentos de radicalidade em que o ser se revela, como aos pré-socráticos.

1. História da metafísica ocidental

a. ) Interpretação dos pré-socráticos: “Introdução à Metafísica” … (1935); no livro “Ensaios e Conferências”, os seguintes estudos: “Logos” (1951), “Moira” (1954), “Alétheia” (1943); no livro “Sendas Perdidas”, o ensaio “O dito de Anaximandro’ (1946) e muitas referências esparsas em outros textos.

b.) Platão: “A doutrina de Platão sobre a verdade” (1943).

c.) Aristóteles; “Essência e conceito de Physis”, publicado na revista “Il Pensiero” (1958).

d.) Leibniz: “O princípio da Razão” (1955-56).

e.) Kant: “A questão da coisa” (1935-36); “Tese de Kant sobre o ser” (1962).

f.) Hegel: “O conceito de experiência em Hegel” (Apud Sendas Perdidas) (1942-43); “A concepção ontoteológica da metafísica” (Apud Identidade e Diferença) (1956-57); “Hegel e os gregos” (Apud Die Gegenwart der Griechen) (1958).

g.) Nietzsche: “A palavra Nietzsche: Deus está morto” (Apud Sendas Perdidas) (1943); “Quem é o Zaratustra de Nietzsche” (Apud Ensaios e Conferências) (1953); “Que significa pensar” (1951-52) e a obra em dois volumes “Nietzsche” (1936-1046).

1. (Toda a metafísica ocidental é problematizada em “A superação de Metafísica”), apud Sendas Perdidas (1936-1946).

2. Análise da obra de arte – “Da origem da obra de arte” (1936).

3. Análise do problema da linguagem – “Cartas sobre o humanismo”(1947); “Logos” (Apud Ensaios e Conferências) (1951); “Caminho da linguagem” (1950-1959). Algumas referências em “Nietzsche I-II”, “Superação da Metafísica”, “Da experiência do pensar” e em outros.

4. Estudos sobre a poesia – “Comentários à poesia de Holderlin” (… 1936-43). “O tempo da imagem do mundo” (1938); “Para que poetas” (1946); “Da experiência do pensar” (1947); “O caminho do campo” (1949).

5. Reflexões sobre a coisa – “A coisa” (1950); “Construir, morar, pensar” (1951); “Poeticamente mora o homem” (1951); “Que significa pensar” (Apud Ensaios e Conferências) (1951-1952); “A linguagem” (Apud A caminho da Linguagem) (1950); “O princípio da razão” (1955-56); “A questão da técnica” (Apud Ensaios e Conferências) (1953) (50).

As tentativas e ensaios de penetração nesses temas são, para Heidegger, os caminhos para as instâncias privilegiadas da cultura ocidental, em que o ser se des-vela e se vela como Er-eignis, acontecimento-apropriação.

4. CONCLUSÃO

Ao encerrar essa primeira parte, impõe uma conclusão paradoxal para toda metafísica: o ser é fenômeno finito. O ser como transcendental não mais se ancora no intemporal fundamento que a metafísica lhe consignará. Na ontologia fenomenológica de Heidegger, cuja progressiva problematização acompanhamos, o ser aparece no e ao Dasein como fenômeno – e só assim – e seu aparecer é finito. Isso, de certo modo, é motivado pela dupla estrutura ontológica do Dasein como transcendência e finitude. Compreensão do ser e ser-para-a-morte se conjugam e entrelaçam intrinsecamente como elementos constitutivos do Dasein.

Sob várias designações, esse entrelaçamento do ser-para-a-morte e residir na clareira (Lichtung) do ser, se manifesta no pensamento de Heidegger: Finitude e transcendência – ser mortal e receber a mensagem do sagrado – ser mortal e ser o espaço lúdico para o supremo jogo do ser.

Mas essa limitação do ser no seu aparecer não é limitação extrínseca. É o próprio ser que, no desvelar-se e valar-se, assim se manifesta, porque ele mesmo faz do homem o ser-para-a-morte que o compreende. É por isso que as duas finitudes radicalmente se diversificam. O Dasein é finito porque é um ser-para-a-morte. A finitude do ser e por ele provocada em duplo sentido. De um lado, porque o ser se destina a si mesmo ao homem que por ele pergunta e o deixa manifestar-se, sendo o ser mesmo a abertura, o “DA” no homem, de tal modo que, no homem, o ser se compreende a si mesmo finitamente. De outro modo, porque o ser suscita os entes para neles aparecer como em algo diverso dele. Essa é a finitude fenomenológica do ser como transcendental incondicionado, porque ele mesmo se condiciona em seu manifestar-se na finitude.

Todos os acenos de Heidegger ao ser dizem isso: “physis, ousía, lógos, pólemos, einai-nóein, denón, Ereignis”; na obra de arte, o ser se manifesta obrando, mas sempre historicamente de modo diferente; na poesia, ele é o sagrado que envia sua mensagem ao homem, mas nela mesma ele se mostra como o incompreensível, o supremo, o misterioso; na linguagem, fala o próprio ser, mas carente sempre de uma linguagem humana determinada; na essência da coisa, o ser dura como o mundo, sendo o desmembramento das outras regiões do ser que resulta na quaternidade: Mortais, Deuses, Terra e Céus.

O ser como transcendental vem assim totalmente liberado da herança metafísica. Ele domina todo o cenário da aparição dos entes. É o fundamento de tudo como abismo (Grund als Abgrund). Como fundamento de tudo, ele mesmo não é um ente e, por isso, não é Deus. Só é fundamento de tudo porque não é fundamento. Funda porque é sem fundo.

De nenhum modo esse ser pode ser elevado analogicamente ao infinito, como ser subsistente, como Deus. É por isso que, na ontologia fenomenológica de Heidegger, Deus não é buscado para ser fundamento e princípio, como acontece na metafísica ocidental. Deus continua sendo o transcendente, mas não fundamentando o ser enquanto transcendental. Ele é um ente, e a pergunta da nova metafísica, que agora é ontologia fenomenológica: “Porque há o ente em geral e não antes o nada?” vai além de Deus e pergunta também pela condição de possibilidade de Deus. A partir do ser, não há mais acesso a Deus por um movimento analógico, como na metafísica tradicional.

Eliminada a possibilidade de colocar Deus como fundamento do transcendental pela resolução analógica, como entra Deus na filosofia que, como fenomenologia, repõe a questão do ser em seu verdadeiro sentido?

Ernildo Stein - O Transcendental e o Problema de Deus em Martin Heidegger [Transcrição & Diagramação por Prof. Isaías Klipp]

Professor | Pesquisador
Fundador do projeto Proscênio Filosófico (2017). É Tradutor de textos filosóficos. Bacharel (2020) e licenciando em Filosofia (2022) pela Universidade de Caxias do Sul, UCS.
isaías klipp
Professor | Pesquisador
Licenciado em Filosofia (2021). É pesquisador na filosofia e obra de Vilém Flusser. Pesquisador voluntário junto ao CNPq, no Observatório de Educação da Universidade de Caxias do Sul, UCS.
luan moraes
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Predrag Cicovacki – Análise da Maravilha: Uma Introdução à Filosofia de Nicolai Hartmann

Proscênio Filosófico.

Que o Eco das Grandes Obras ressoe em vós!

Parte I - SER - Análise da Maravilha: Uma Introdução à Filosofia de Nicolai Hartmann | Predrag Cicovacki

Introdução: Hartmann é importante?

Há alguns anos, foi publicado um livro com o título Por que Arendt Importa.[1] No caso de Hannah Arendt, essa consideração quase não é necessária. Sua análise da condição humana, a origem do totalitarismo e a banalidade do mal pertencem aos destaques da filosofia do século XX, especialmente em sua segunda metade. Embora ela possa não receber todo o reconhecimento que merece, especialmente entre os filósofos, as ideias de Arendt são amplamente discutidas e seus livros estão disponíveis até em pequenas livrarias.

Este não é o caso de Nicolai Hartmann (1882-1950). No período entre 1925 e 1950, foi considerado um dos principais filósofos alemães. Suas obras – numerosas, sistemáticas, exibindo seu conhecimento enciclopédico e cobrindo uma grande variedade de assuntos, da ontologia e epistemologia à ética e estética – rapidamente entraram na segunda, terceira e, em alguns casos, até quarta edições. Sua Ética (Ethik) de mais de 800 páginas foi traduzido para o inglês cinco anos após sua publicação, mas esse acabou sendo o único de seus principais livros traduzidos para esse idioma.[2] Na segunda metade do século XX e no início do século XX, No primeiro século, Hartmann foi um filósofo negligenciado. Ele tem sido um gigante esquecido.

Acho esse estado de coisas intrigante. Desde os primeiros anos de meus estudos de filosofia, Hartmann tem sido uma das minhas inspirações, um dos meus “professores”. Toda vez que abro seus livros, aprendo alguma coisa; seus textos me obrigam a pensar de novo sobre uma variedade de questões filosóficas. Por esta razão, com esta introdução à sua filosofia, quero reabrir o caso de Hartmann. Este livro se concentra nas questões relativas à natureza e valor da filosofia de Hartmann. Mais formalmente, as perguntas são:

1. Qual é o cerne da filosofia de Hartmann?
2. Que relevância, se houver, a filosofia de Hartmann tem para nós no século XXI?

Existem dois obstáculos principais para este projeto. A primeira é que a própria filosofia está em tal estado de desordem que não é mais fácil dizer o que é a filosofia ou que papel ela deve desempenhar em nossa época. O segundo obstáculo é que Hartmann se manteve afastado de todas as principais correntes filosóficas de seu tempo; isso torna difícil engajá-lo em um diálogo que possa ajudar a estimar a natureza e o valor de sua filosofia. Vou esclarecer brevemente ambas as questões.

Em um livro recente, Ideas That Matter: The Concepts That Shape the 21st Century (“Ideias que importam: os conceitos que moldam o século 21”), A. C. Grayling, um respeitado filósofo de Oxford, apresenta nossa disciplina da seguinte maneira: “sabedoria”, mas é melhor e mais precisamente definido como “investigação” ou “investigação e reflexão”, dando expressões em seu escopo mais amplo para denotar esforços para compreender o mundo e a experiência humana nele”. Esta introdução é tão vaga, tão aberta, tão pouco inspiradora, que, apesar do esforço de Grayling para fazer a filosofia parecer relevante, só faz o leitor se perguntar se a filosofia tem algum papel a desempenhar em nossas vidas: seus conceitos podem moldar o século XXI? Suas ideias importam?

Quando os insiders estão tão confusos, às vezes encontramos uma compreensão mais profunda de uma certa disciplina entre seus admiradores “amadores”. Um famoso historiador, Will Durant, descreve a filosofia como “uma tentativa de coordenar o real à luz do ideal”. Ele acrescenta que a metafísica “é o estudo da ‘realidade última’ de todas as coisas: da natureza real e final da ‘matéria’ (ontologia), da ‘mente’ (psicologia filosófica) e da inter-relação da ‘mente’ e ‘matéria’ no processo de percepção e conhecimento (epistemologia).”[4]

A segunda parte do esclarecimento de Durant é bastante padrão. A primeira parte, porém, é interessante, mesmo para o ponto de vista de Hartmann: a filosofia é “uma tentativa de coordenar o real à luz do ideal”. Isso é interessante por vários motivos. Primeiro, não dá ênfase direta nem ao conhecimento nem à moral, como é costume hoje em dia. A caracterização de Durant também é intrigante porque não impede uma compreensão da filosofia como amor à sabedoria: a sabedoria de como governar nossas vidas nesta época conturbada e desorientadora.

Hartmann está sempre engajado em uma luta dialética com a tradição filosófica, e esse significado original da filosofia pode ser mais importante para ele do que para a grande maioria dos filósofos contemporâneos. Finalmente, a relação de Durant entre o ideal e o real é significativa para Hartmann porque ser e valores são dois temas principais de toda a sua obra filosófica. Os valores não são derivados do ser real, mas pertencem a um reino independente que ele chama de “ser ideal”. Para Hartmann, como para [Will] Durant, o real – especialmente nossas vidas – precisa ser coordenado à luz do ideal.

Os problemas de encaixar Hartmann em um diálogo com outros filósofos de sua época começam com sua insistência no papel central e indispensável da ontologia para o projeto filosófico geral. Mesmo uma lista superficial de suas principais publicações nos mostra que ele dedicou a maior parte de sua carreira a desenvolver uma ontologia sistemática e articular sua relevância para outras disciplinas: Grundzüge einer Metaphysik der Erkenntnis (“Elementos básicos de uma metafísica do conhecimento”, 1921; quarta edn , 1949), Die Philosophie des deutschen Idealismus (“A Filosofia do Idealismo Alemão”, Vol. I: 1923; Vol. II: 1929), Ethik (“Ética”, 1925; 3ª ed., 1949), Das Problem des geistigen Seins (“O Problema do Ser Espiritual”, 1933; 2ª ed., 1949), Zur Grundlegung der Ontologie (“Sobre os Fundamentos da Ontologia”, 1935; 3ª ed., 1948), Möglichkeit und Wirklichkeit (“Possibilidade e Atualidade”, 1938; 2ª ed., 1948), Der Aufbau der realen Welt (“A Estrutura do Mundo Real”, 1940; 2ª ed., 1949), Die Philosophie der Natur (“Filosofia da Natureza”, 1950), Teleologisches Denken (“Pensamento Teleológico, ” 1951) e Ästhetik (“Estética”, 1953).

Uma vez que a ontologia praticamente não existe desde a publicação da Crítica de Kant (1781), por que Hartmann volta à ontologia? Precisamos realmente de ontologia para examinar como o ideal pode e deve nos ajudar a coordenar nossas vidas? Por que não abordar a eterna e sempre relevante questão de como viver da melhor maneira possível sem considerar a questão ontológica do ser como ser?

Podemos fazê-lo, como fez Arendt, através da filosofia política; afinal, um ser humano é um animal político que não pode estabelecer sua humanidade sem encontros sociais com outros seres humanos. Ou podemos tentar entender nossa natureza através da estrutura da linguagem que usamos, como fizeram Ludwig Wittgenstein, Ernst Cassirer e Hans-Georg Gadamer (que já foi aluno de Hartmann). Ou podemos abordar a questão da humanidade através da religião, como, por exemplo, Martin Buber, contemporâneo de Hartmann, porque é sempre tentador determinar nossa existência em comparação com o que não somos e o que não podemos nos tornar, ou seja, o ser divino. Ou poderíamos tentar revelar nosso papel e lugar na realidade focando diretamente na existência humana (Dasein) e seus desafios, particularmente a ansiedade em relação à morte, como fez Martin Heidegger (uma vez colega de Hartmann em Marburg).[5]

Hartmann não aceitaria nada disso. Ele aborda a filosofia no espírito da philosophia perennis e mostra quase nenhum interesse pelo historicismo, existencialismo, hermenêutica, positivismo e pragmatismo. Essa abordagem peculiar abriu um abismo entre Hartmann e seus contemporâneos e o afastou dos debates predominantes de seu tempo. De acordo com seu aluno e amigo, Robert Heiss, Hartmann sabia muito bem que também existe uma filosofia que é o mero fenômeno temporal de uma época e ligada à sua época. Mas para ele tal dote temporal era apenas o embrulho perecível da filosofia. Seu filósofo só poderia ser um locutor para seu tempo e através de tudo que ele diz e formula como verdade aparece apenas uma experiência única e transitória, que Hartmann considerava não como verdade imutável. Hartmann viveu na face dos séculos. Ele foi o contemplativo que permanece distante e distante dos incidentes de um século, porque na verdade vive na presença de séculos.[6]

Apesar das proclamações entusiásticas de Heiss, toda filosofia surge em uma certa idade. E embora deva ser parcialmente afetada pelo espírito do tempo, a filosofia não precisa ser cegada por ele. Na frente russa durante a Primeira Guerra Mundial, Hartmann concebeu um complexo sistema de ontologia, centrado no problema do ser como ser. Perto do fim da guerra, ele começou a escrever sua Ética, buscando as essências imutáveis dos valores morais. Na Berlim sitiada e virtualmente destruída de 1945, ele escreveu sua monumental Estética na qual ponderou a verdadeira natureza do belo e do sublime.

Hartmann estava de fato focado em aspectos eternos dos problemas filosóficos. No entanto, ele não ignorou e não pôde ignorar as diferenças nas interpretações desses problemas, pois foram afetados por eventos históricos e pelas épocas em que surgiram.Tampouco era como o “Pensador” de Roden, absorto em seus próprios pensamentos e alheio às marés históricas de seu próprio tempo. Hartmann viveu em sua própria época e seu pensamento filosófico estava ciente das diferentes abordagens temporalmente condicionadas da filosofia e seus problemas centrais.[7] Arendt afirmou que “não são ideias, mas eventos [que] mudam o mundo”. [8] Hartmann não achava que podemos entender os eventos que vivenciamos sem ideias previamente mantidas, ou que ideias são endossadas para mudar o mundo.

À luz de tais obstáculos e complexidades, como podemos discernir a verdadeira natureza e relevância da filosofia de Hartmann?

Neste livro, usarei três “bastões de medição”, indo do mais geral para o mais específico. Primeiro, usarei a ajuda de Karl Jaspers. Na introdução de seu monumental livro, Os Grandes Filósofos, ele divide todos os grandes filósofos em três grupos principais: (1) os “indivíduos pragmáticos” (como Buda, Confúcio, Sócrates e Jesus); (2) os grandes pensadores nas fronteiras da filosofia e outros domínios da experiência humana (por exemplo, Goethe, Dostoiévski, Tolstoi); e (3) os grandes pensadores filosóficos. Jaspers então divide este terceiro grupo em várias subcategorias: (3.1) os pensadores seminais, cujas idéias continuaram a dar frutos (Platão, Santo Agostinho, Kant); (3.2) os visionários intelectuais e metafísicos originais (Parmênides, Heráclito, Plotino, Spinoza); (3.3) os “grandes perturbadores”, independentemente de serem principalmente os “negadores sondadores” (Abelardo, Descartes, Hume), ou os “despertadores radicais” (Pascal, Lessing, Kierkegaard, Nietzsche); e (3.4) os “ordenadores criativos”, cujos grandes sistemas são a culminação de longos desenvolvimentos (Aristóteles, Tomás de Aquino, Hegel).[9]

Se Hartmann pertence ao Panteão dos grandes pensadores filosóficos, ao final deste tratado poderíamos determinar em qual grupo ele deveria ser classificado.
Em segundo lugar, a avaliação da filosofia de Hartmann também pode ser abordada de forma mais temática. Ele está claramente dentro da tradição filosófica ocidental e herda algumas de suas principais preocupações, problemas e suposições. Essa tradição, embora longa e complexa, talvez possa ser resumida em seus quatro “pilares” centrais:

1. O princípio da ordem, segundo o qual tudo o que existe é ordenado e estruturado.
2. O princípio da cognoscibilidade, que afirma que tudo o que tem estrutura e ordem é cognoscível.
3. O princípio do autodomínio, que afirma que o desenvolvimento ético e o comportamento virtuoso requerem autodisciplina e autocontrole.
4. O princípio da reciprocidade entre comportamento virtuoso e felicidade, que postula que aqueles que dominam suas próprias paixões e se comportam virtuosamente serão recompensados, enquanto aqueles que não o fizerem serão punidos.[10]

Esses princípios podem ser reformulados em termos da ideia de harmonia, à qual estão intimamente associados. Poderíamos então expressar seus significados da seguinte forma. O primeiro princípio afirma a harmonia dentro do próprio ser. A segunda postula a harmonia entre o ser e a mente. A terceira fala sobre o estabelecimento da harmonia dentro dos seres humanos. A quarta expressa uma convicção de que o comportamento humano e os eventos no mundo estão dispostos harmoniosamente (aproximadamente no modelo de ação e reação proporcional a ele).

Como Hartmann responde a esses quatro princípios fundamentais? Ele os aceitaria? Modificá-los? Rejeitá-los?

Em terceiro lugar, a filosofia de Hartmann pode ser abordada de forma ainda mais focada. Por exemplo, podemos levar a sério uma antiga crença de que todo filósofo realmente desenvolve apenas uma ideia. Essa crença profundamente enraizada implica que um filósofo nasce de uma única pergunta, a pergunta que ele deve encontrar uma maneira de responder. Se for assim, a preocupação final de nossa investigação sobre a natureza e o valor do legado filosófico de Hartmann se torna muito mais clara: qual é essa questão no caso de Hartmann? Qual é a sua única ideia filosófica central?

  1. Elisabeth Young-Bruehl, Why Arendt Matters (New Haven, CT: Yale University Press, 2006).
  2. Recently translated is Nicolai Hartmann, Possibility and Actuality (New York: Walter de Gruyter, 2013).
  3. A. C. Grayling, Ideas That Matter: The Concepts That Shape the 21st Century (New York: Perseus Books, 2009), 263.
  4. Will Durant, The Story of Philosophy: The Lives and Opinions of Great Philosophers (New York: Simon and Schuster, 2000), 3.
  5. Arendt era estudante em Marburg justamente quando Hartmann estava terminando sua carreira lá, mas ela nunca foi aluna de Hartmann. Gadamer era, mas rapidamente mudou para Heidegger. Após a simpatia mútua inicial entre Hartmann e Heidegger, a relação pessoal esfriou e sua oposição profissional também se intensificou. Para mais detalhes, ver Hans-Georg Gadamer, Philosophical Apprenticeships, trad. R. R. Sullivan (Cambridge, MA: MIT Press, 1985), 12–15 and passim. See also Wolfgang Harich: Nicolai Hartmann—Leben, Werk, Wirkung, ed. Martin Morgenstern (Würzburg: Königshausen & Neumann, 2000).
  6. Robert Heiss, “Nicolai Hartmann: A Personal Sketch”, Personalist, 42:1961, 482-3. Seguindo Heiss e Hartmann, ao longo do manuscrito, uso “he” e “man” genericamente, ou seja, para me referir a um ser humano e não apenas a um gênero. A escolha baseia-se puramente na simplicidade dessa linguagem, em oposição às expressões incômodas “ele ou ela” e “dele/ela”.
  7. Ver, por exemplo, o artigo de Hartmann, “German Philosophy in the Last Ten Years”, que ele escreveu como presidente da German Philosophical Association; MENTE 58:1949, 413–33.
  8. Hannah Arendt, The Human Condition (Chicago, IL: University of Chicago Press, 1998), 273.
  9. Karl Jaspers, The Great Philosophers: The Foundations, ed. Hannah Arendt, trans. Ralph Mannheim (New York: Harcourt, Brace & World, 1962), 7
  10. Minha reconstrução dessas suposições é baseada no livro de Richard Tarnas, The Passion of the Western Mind: Understanding the Ideas That Have Shaped Our World View (Nova York: Ballantine Books, 1993).

Ética Axiológica: Do formalismo Kantiano à Fenomenologia do Valor em Max Scheler [Tese & Trad. de Apêndice: Isaías Klipp]

Professor | Pesquisador
Fundador do projeto Proscênio Filosófico (2017). É Tradutor de textos filosóficos. Bacharel (2020) e licenciando em Filosofia (2022) pela Universidade de Caxias do Sul, UCS.
isaías klipp
Professor | Pesquisador
Licenciado em Filosofia (2021). É pesquisador na filosofia e obra de Vilém Flusser. Pesquisador voluntário junto ao CNPq, no Observatório de Educação da Universidade de Caxias do Sul, UCS.
luan moraes
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Realidade Lógica & Realidade Ontológica (1915) – Nicolai Hartmann

Proscênio Filosófico.

Que o Eco das Grandes Obras ressoe em vós!

Realidade Lógica & Ontológica | Nicolai Hartmann

Logische und ontologische Wirklichkeit (1915)

Por Nicolai Hartmann | Tradução de Isaías Klipp 

Atualmente, na lógica e na teoria do conhecimento, é comum considerar a realidade como algo subordinado e sem importância. Basta estar certo de que ela é o ponto de partida incontestável de certos raciocínios. O interesse lógico não se prende a ela, mas sim às possibilidades e necessidades às quais esses raciocínios conduzem. Em todos os lugares onde a pesquisa se concentra em relações, dependências, condições ou na demonstração de aprioridades, essa atitude de interesse pode ser observada.

Juntamente com a possibilidade e a necessidade, a realidade forma uma esfera lógica da qual ela – independentemente de quaisquer mudanças de valor – não pode ser separada: a esfera da chamada modalidade. Nesse contexto, ela geralmente é formalmente reconhecida em sua posição lógica. Mas mesmo aqui, raramente se perde a inatualidade tradicional de seu problema e se manifesta em formas que não correspondem minimamente ao peso da consciência natural da realidade.

O erro reside aqui, como muitas vezes, na subestimação do aparentemente autoevidente. De certa forma, algo real sempre é pressuposto e aceito como “dado” quando questões de qualquer tipo são perseguidas. E na natureza da formulação da pergunta, está o fato de que ela conduz do dado a algo diferente que não é dado. Isso contém duas suposições falsas: 1. que o dado em si é conhecido (sem problemas), e 2. que o real não é nada além do dado. A primeira tem sido frequentemente criticada em outros contextos, e é suficiente mencionar sua existência na formulação tradicional da realidade para desacreditá-la. A segunda suposição, porém, é mais persistente. Ela surge sempre que é percebida e teoricamente rejeitada. Sua validade não resolvida é compartilhada hoje, como em tempos antigos, por pontos de vista dos mais heterogêneos.

A esfera da modalidade se distingue nas outras esferas dos problemas lógicos por uma certa desvinculação. No entanto, nas profundezas, existem correntes subjacentes que mostram a mais estreita interconexão. Mas nem toda investigação lógica penetra essa profundidade. Assim, os muitos erros que sistemas famosos cometem em relação ao problema da realidade parecem relativamente insignificantes no contexto geral dos pensamentos filosóficos. Considerados em si mesmos, no entanto, adquirem uma importância ainda maior, que cresce consideravelmente quando se focaliza na corrente subjacente que os conecta.

Todas as estruturas de ser objetivamente substantivas têm um lado modal – assim como todas as sínteses têm um lado analítico. No entanto, a corrente principal do interesse lógico se volta principalmente para a estrutura em si, não para o modo de ser, ou a complexidade dos modos de ser em que ela repousa. Toda pesquisa sobre o a priori mostra essa atitude; e mesmo a investigação especial sobre seus casos especiais empíricos raramente vai além disso. Assim, todo o campo do construtivo – poder-se-ia dizer também com Kant, do constitutivo, se isso não fosse restrito de outra forma e contrastado com o regulativo – forma o contraste dado com o campo completo do modal. E é dessa distinção que o problema do real ganha sua pregnância.

A percepção de que os conceitos modais não são absolutamente claros é bastante antiga. No entanto, as investigações sobre este assunto têm-se dirigido principalmente para a possibilidade e necessidade. Uma distinção como a entre possibilidade formal e material – consistência lógica e a correspondência com as condições reais da existência – tornou-se bastante popular. No entanto, não há unanimidade quanto à relação entre esses opostos. A formulação da necessidade é ainda mais difícil. E o campo problemático da realidade é quase inexplorado. Existem inúmeras explicações metafísicas do real, mas sempre em termos construtivos. E mesmo as poucas investigações modais puras que temos sobre a realidade em si são muitas vezes influenciadas por cadeias de pensamento do lado construtivo. As questões mais simples, como a relação entre os diferentes tipos de realidade, como a realidade natural, a realidade ética ou a realidade estética, ou a relação entre o real concreto e o real abstrato, como a existência matemática, permanecem sem investigação.

A investigação a seguir pretende colocar de lado essas questões mais óbvias e considerá-las apenas parcialmente mais tarde. Existe uma questão central sobre a natureza geral da realidade, e essa questão só pode ser abordada a partir da combinação de possibilidade e necessidade. Assim, o problema se concentra inicialmente na sequência das modalidades.

I. A lógica tradicional mostra quase que consistentemente a hierarquia conhecida de três passos: possibilidade, realidade, necessidade. Isso significa que a possibilidade significa menos, a necessidade mais do que a realidade. A possibilidade não alcança a realidade, que por sua vez transcende a possibilidade.

Isso se aplica principalmente à lógica formal, aos modos de validade do julgamento. “Pode ser assim” é menos do que “é assim”; e “deve ser assim” significa que não só “é” assim, mas também não poderia ser de outra forma. Essa sequência de etapas é formalmente clara em si e não precisa de argumentos para sua correção. Outra questão é a de significado e alcance de validade, mas a lógica formal pode desconsiderar isso.

Problemas muito mais sérios surgem quando se aplica essa sequência de etapas também à lógica de conteúdo e a vê como etapas do conhecimento. A maioria dos epistemólogos seguiu esse caminho, sendo talvez Kant a forma mais determinada em seus postulados do pensamento empírico.

“Aquilo que concorda com as condições formais da experiência (a intuição e os conceitos) é possível; o que está relacionado com as condições materiais da experiência (a sensação) é real.

“Aquilo cuja conexão com o real é determinada pelas condições gerais da experiência é necessário (existe).”

Neste contexto, a possibilidade do objeto é determinada pela forma do conhecimento, enquanto a sua realidade é determinada pela matéria do conhecimento; a sua necessidade, porém, deve estar em conformidade com ambos. Esta disposição foi mantida pela maioria dos kantianos (também os atuais) e goza de uma reputação que provavelmente só pode ser explicada pela falta de envolvimento com o problema modal. Além da questão da verdade ou falsidade dessa atribuição à forma e à matéria, essas determinações naufragam ao sair da esfera modal para a construtiva. Definições modais não podem ser obtidas de tal (μετάβασις), mesmo que sejam estruturalmente corretas.

Mas eles também são estruturalmente contestáveis. Isso é mostrado pelas considerações mais simples. 1. Se a realidade depende apenas da matéria do conhecimento, então aparentemente algo pode ser real mesmo que não corresponda às formas, ou seja, de acordo com a definição: o que não é possível. 2. Algo que corresponde a todas as formas, como as leis da natureza, poderia ainda ser irreal se não houvesse percepção disso, ou nenhum contexto perceptivo que o levasse a isso. Corpos materiais existentes no espaço, ou sistemas inteiros deles, seriam então “irreais” se estivessem fora do contexto perceptivo, ou seja, se o conhecimento não pudesse decidir se são ou não reais. 3. Se a necessidade existe na coincidência de forma e matéria do conhecimento, então tudo o que é necessário também deve ser imediatamente real no sentido da relação com a percepção. Consequentemente, conexões matemáticas puras não poderiam ser necessárias; assim como conexões apriorísticas de outros tipos. Isso não está de acordo com as próprias declarações de Kant sobre o julgamento sintético a priori. A necessidade é aqui apenas como um postulado do pensamento “empírico”, não como um modo de ser de todo conhecimento; está claramente definido de maneira muito restrita. 4. O que seria real (existiria) não precisa necessariamente ser também necessário, ou não precisa ser como é. Se a realidade apenas preenche um lado das condições necessárias (a coincidência com a sensação), então é aparentemente casual em si. Isso pode se aplicar a um mundo indeterminista, mas não a um mundo caótico que é teoricamente governado completamente pelo nexo causal e praticamente governado completamente pelo propósito. Em um mundo em que o real não só não é “reconhecido” como necessário, mas também não é necessariamente “é” – ou não precisa ser – não faz sentido procurar causas ou objetivos. Ambos presumem uma necessidade ontológica imanente ao real.

Estas quatro inconsistências, às quais se poderiam facilmente acrescentar algumas outras, não afetam apenas a modalidade kantiana com seu esquema de receptividade e espontaneidade. Elas afetam mutatis mutandis qualquer formulação que queira seguir o mesmo tríplice passo de sequência de etapas no conteúdo. Uma relação mais próxima com o idealismo é percebida especialmente no primeiro e no terceiro pontos; já o segundo e o quarto são de natureza puramente modal, afetando a relação das “etapas” como tal.

Em resumo, é fácil identificar que há problemas na sequência de etapas proposta por essa abordagem, como as quatro inconsistências mencionadas anteriormente. No entanto, é difícil determinar e corrigir o erro fundamental presente nessa abordagem. Mesmo assim, essa abordagem ainda é defendida por alguns filósofos e tem uma aparência forte, como a relação entre a realidade e a percepção. No entanto, a questão é levantada: por que a realidade deve ser limitada à percepção? Pode haver realidades que não podemos conhecer através da percepção ou de qualquer outro meio. A existência de algo não implica sua capacidade de ser conhecido ou reconhecido. Portanto, a questão lógica se torna ontológica e o aspecto epistemológico é secundário.

É fácil perceber que a sequência tradicional dos modos de juízo é correta em si mesma. “A é B” certamente significa mais do que “A pode ser B” e menos do que “A deve ser B”. E isso não se aplica apenas à forma do juízo, mas também ao seu valor na estrutura do conhecimento. No pensamento científico, esses modos correspondem a diferentes classes de conhecimento: a possibilidade corresponde à suposição (hipótese), a realidade corresponde ao fato (o fenômeno dado), a necessidade corresponde à compreensão do porquê com base na compreensão da conexão da lei. Isso mostra claramente como os níveis de modalidade formam graus de certeza. O conhecimento não se eleva neles extensivamente em conteúdo, mas intensivamente em peso de verdade.

Esse sentido das etapas tradicionais deve ser mantido em todos os casos. Mas é precisamente isso que nos mostra a fonte de erro. Os graus de certeza do conhecimento não precisam corresponder aos graus de existência do objeto do conhecimento. O racionalismo não tem nada mais próximo do que identificar níveis de existência com níveis de conhecimento. E inevitavelmente, essa identidade ocorre no idealismo – como em Kant. Mas o problema da realidade é um dos muitos problemas em que todas as posições preconcebidas se mostram inadequadas.

É incontestavelmente verdadeiro que algo pode ser um fato, ou seja, “real” para o conhecimento, sem ser reconhecido como “necessário”. Mas isso não significa que possa realmente “ser” sem ser necessário “ser”. A contingência no juízo pode muito bem corresponder a uma necessidade absoluta nas conexões de existência não reconhecidas. Da mesma forma, é uma ocorrência comum que algo seja reconhecido como real sem que sua possibilidade seja compreendida; conhecemos esse caso em todos os fenômenos novos e altamente complexos. Mas isso não significa que o objeto realmente “seja” sem ser possível “ser”. O julgamento da possibilidade não é a possibilidade de existência. Os níveis de modalidade do conhecimento não precisam coincidir com os níveis de modalidade do ser, os modos lógicos não precisam ser idênticos aos ontológicos.

Na versão tradicional das modalidades, possuímos uma sequência de estágios subjetivos incontestavelmente correta, uma sequência de estágios da razão cognoscendi. No entanto, a razão essendi não precisa ser análoga a ela; ela pode subir de forma diferente, com uma sequência de estágios diferente, significados diferentes e dependências mútuas diferentes. E mesmo as considerações preliminares tornam extremamente provável que essa sequência ontológica deva ser diferente. Os erros da versão conhecida não residem claramente na validade lógica do conhecimento, mas surgem apenas ao serem transferidos para o lado ontológico do ser. Essa transferência, no entanto, é inevitável, a menos que uma ordem ontológica dos estágios das modalidades seja elaborada por si só. Aparentemente, essa é uma tarefa essencial da lógica.

II.
Nesta questão, pode-se orientar sem hesitação pela lógica formal. O adjetivo de formalidade é apenas uma proteção contra o peso do problema do conhecimento que acompanha o conceito e o julgamento quando são considerados em toda a sua plenitude de significado. O peso da validade ontológica não é diminuído. Com Aristóteles, a lógica poderia passar imediatamente para a metafísica, porque ela foi pensada desde o início como uma lógica do ser mais do que como uma lógica do pensamento. E tanto os lógicos medievais quanto os racionalistas modernos preservaram essa profundidade de abordagem dos problemas da lógica formal. Eles mantiveram, essencialmente, as formas de existência possíveis em suas mãos.

Toda classificação se baseia na oposição. Com a oposição dos modos de ser e seu tertium comparationis (que neste caso é o ser em geral), a sequência das etapas deve ser claramente delineada.

A análise da realidade em termos de oposição revela uma imagem negativa em relação aos outros dois elementos. A realidade não está em oposição direta com a possibilidade nem com a necessidade. Seu oposto é o “irreal”, a anulação da existência, o não-ser. O irreal em si mesmo não significa nem o possível nem o impossível, nem o necessário nem o contingente. No entanto, ele pode significar qualquer um desses modos sem alterar seu significado modal como irreal. Ele é indiferente à possibilidade e à necessidade. Por isso, o real não precisa ser indiferente a elas; por exemplo, ele deve pelo menos ser possível. Mas essa relação positiva não é uma relação de oposição, mas sim de dependência – portanto, de natureza mais complexa.

A possibilidade, por outro lado, está em uma relação de oposição evidente, embora extremamente peculiar, com a necessidade. A falta de possibilidade implica imediatamente em um tipo de necessidade: a impossibilidade é uma necessidade negativa. Isso pode ser rastreado até a relação entre o sujeito e o predicado na proposição. Assim como a universalidade da proposição se baseia na necessidade da pertinência entre o sujeito e o predicado, a universalidade negativa da proposição se baseia na impossibilidade dessa pertinência. “Nenhum A é B” está correto se A não pode ser B de forma alguma.

Da mesma forma, a necessidade se relaciona com a possibilidade. A falta de necessidade implica diretamente em uma possibilidade negativa. A não necessidade é a possibilidade do não-ser. No entanto, no modo da possibilidade, o ser e o não-ser não se excluem mutuamente, mas sempre formam duas possibilidades coexistentes – essa é a peculiaridade desse modo de ser. Portanto, a não necessidade implica indiretamente na possibilidade positiva. “A não é necessariamente B” significa simultaneamente “A pode ser B, mas também pode não ser B”.

Deste modo, surgem duas consequências que lançam luz sobre a sequência das modalidades ontológicas.

1. A possibilidade e a necessidade estão em uma relação de oposição direta; não de tal forma que uma constitua simplesmente a oposição da outra, mas sim que o contrário contraditório da possibilidade (a impossibilidade) cai diretamente sob o termo geral da necessidade, enquanto que o contrário contraditório da necessidade cai diretamente sob o termo geral da possibilidade. Isso mostra claramente a estreita relação entre os dois conceitos modais. Eles estão relacionados entre si em uma dependência original, como se estivessem em uma linha. No entanto, eles não são equivalentes, pois a necessidade é, no campo do ser e do conhecimento, o modo superior, mais completo, mais positivo e mais relacionado ao ser.

2. A realidade, por outro lado, está fora desta linha de oposição. Ela cai como que em outra dimensão modal. Possibilidade e necessidade são completamente indiferentes a ela, não a envolvem. Essa posição externa à linha de oposição “possibilidade – necessidade” torna impossível conceber ontologicamente a realidade como um meio-termo entre os dois. É equivocado considerá-la mais do que uma possibilidade, mas menos do que uma necessidade; ela não possui a posição lógica suficiente em relação a ambos. Ela cai em outro gênero de valor do ser. Com relação a estes, ela deve ser colocada abaixo ou acima de toda a esfera modal deles. Agora, ela não pode estar abaixo da possibilidade, porque a possibilidade claramente fica aquém da realidade – ela significa indecisão entre o real e o irreal. Portanto, a realidade deve ser colocada acima da necessidade; mas isso ainda não pode ser totalmente compreendido aqui.

III.

A análise formal lógica revela a hierarquia: possibilidade, necessidade, realidade. Inicialmente, isso não é nem claro nem completo. Falta a relação positiva da realidade com as duas subcategorias. E faltam os modos negativos: irrealidade e impossibilidade. Além desses cinco modos (dois negativos e três positivos), o terceiro modo negativo, a não-necessidade, não é considerado independentemente; como demonstrado, ela se une à possibilidade em termos de seu nível de ser.

Dos cinco modos, três pertencem à linha oposta de possibilidade e necessidade. Nessa esfera, a possibilidade forma o nível intermediário, a impossibilidade o mínimo e a necessidade o máximo de valor do ser. Os dois restantes formam uma esfera oposta própria sem um membro intermediário, com a irrealidade como mínimo e a realidade como máximo de valor do ser. Considerando que, por um lado, a irrealidade é menos negativa do que a impossibilidade e mais negativa do que a possibilidade, portanto, modal entre essas duas, e que, por outro lado, existem razões para colocar a realidade acima da necessidade, uma ordem ascendente resulta mantendo a heterogeneidade de ambas as esferas:

Necessidade, Possibilidade, Impossibilidade - Nicolai Hartmann

Para alcançar uma relação positiva entre esses modos, é necessário abordar a questão de como eles se atraem e se repelem. Em princípio, há três comportamentos possíveis de cada modo em relação a outro modo: ele pode envolver o outro (não pode existir sem ele), excluí-lo (não podem coexistir juntos) ou ser indiferente a ele (podem existir juntos ou separados).

Dentro de cada uma das duas esferas opostas, os modos não se envolvem, mas se excluem principalmente entre si; dentro da esfera, a natureza oposta prevalece. Apenas a possibilidade e a necessidade mostram uma proximidade maior uma com a outra: elas são indiferentes entre si e podem existir tanto com quanto sem a outra. Isso é óbvio para a possibilidade; o possível pode ser necessário, mas não precisa ser. Quanto à necessidade, é menos evidente. O pensamento ingênuo está acostumado a considerar tudo que é necessário como possível. Como algo pode ser necessário se nem sequer é possível? Mas na verdade estamos pensando no real, e não no meramente necessário. O real, é claro, deve pelo menos ser possível. Mas o necessário não precisa ser real. Nós simplesmente tomamos erroneamente exemplos do necessário do domínio mais próximo da realidade. A indiferença real em relação à possibilidade é vista assim que se usa um exemplo fora da esfera da realidade. Para obter o valor absoluto de um número transcendental, é necessário percorrer uma infinidade de termos de uma série convergente; mas isso é impossível para a compreensão humana. Portanto, não se chega a compreender o valor absoluto “real”; no entanto, isso não significa que a necessidade seja menos válida. Ela existe independentemente da possibilidade e da impossibilidade; isto é, ela é tão indiferente em relação à possibilidade quanto a possibilidade em relação a ela.

O importante é a relação entre os modos de diferentes esferas. A impossibilidade envolve necessariamente a irrealidade; o impossível não pode ser real. Por outro lado, a irrealidade não envolve a impossibilidade; ela é indiferente à possibilidade e à impossibilidade. Mas também é indiferente à necessidade. A irrealidade pode ser necessária se não houver possibilidade de sua realização, como no exemplo do número transcendental. A irrealidade é, portanto, indiferente tanto à possibilidade quanto à necessidade, mas não à sua síntese. A síntese é a única que a exclui.

Agora a última relação é invertida: possibilidade e necessidade, cada uma tomada separadamente, são indiferentes à irrealidade. E é justamente com isso que eles se colocam, cada um por si, também indiferentes à realidade. Eles ainda não a envolvem, embora, como modos positivos, obviamente estejam diretamente relacionados a ela. Mas se você juntar possibilidade e necessidade, elas excluem a irrealidade e envolvem a realidade.

Finalmente, a realidade em si mesma exclui a impossibilidade e a irrealidade por si só – evidentemente, porque ambas anulariam o real. Mas daí decorrem imediatamente duas relações positivas. Aquilo cuja impossibilidade é excluída é precisamente possível; e aquilo cuja irrealidade é excluída é precisamente necessário. Portanto, a realidade envolve tanto a possibilidade quanto a necessidade; ela os contém como seus momentos. Assim, em termos de valor de ser modal, a realidade é mais do que qualquer uma dessas e está corretamente acima da necessidade na hierarquia dos modos. Além dela, a realidade contém a possibilidade. Ao mesmo tempo, com a síntese de possibilidade e necessidade, o sentido modal da realidade é totalmente esgotado. Ela consiste inteiramente nessa síntese; não há momentos modais além disso que ela ainda possa conter. Portanto, a síntese de possibilidade e necessidade pode ser vista como uma definição modal precisa da realidade.

Assim, a análise das relações intermodais conduz à primeira determinação positiva da realidade ontológica – em contraste com todos os caracteres modais do “conhecimento da realidade”. Aqui podemos ver mais claramente do que em qualquer outro lugar a oposição entre a modalidade lógica e ontológica. Para reconhecer algo como real, não preciso necessariamente reconhecer por que é possível ou mesmo necessário. Ambas as questões, expressas de forma construtiva, envolvem razões e condições; mas é perfeitamente possível reconhecer que algo é assim, sem refletir em absoluto sobre por que razão pode ou deve ser assim. Este caso de conhecimento está presente em toda percepção simples do objeto; na maior ênfase da realidade, talvez o encontremos na percepção interna de estados e atos de consciência. O conhecimento de tal existência não precisa conter o conhecimento de suas razões e condições; o resultado parece estar separado de seus componentes para o conhecimento. Por outro lado, a verdadeira natureza de algo, como um “ser” assim constituído, não é separável da totalidade de suas condições; é evidente que a ausência ou mesmo a menor alteração de uma condição significaria imediatamente uma mudança nele mesmo. Ele contém toda a série de suas condições em si mesmo. Mas a partir dessas suas condições, desde que cada uma delas seja indispensável, é possível, e desde que todas juntas sejam suficientes, é necessário. A paradoxo consiste no fato de que a realidade pressupõe ontologicamente a possibilidade e a necessidade, mas é indiferente a elas gnoseologicamente. O fato de que esses dois aspectos da realidade geralmente não foram claramente distinguíveis nas investigações lógicas é uma realidade que tornou o conceito de realidade e com ele toda a área da modalidade ambíguos. Erros fatais podem ser atribuídos a essa fonte de erro. Uma série inteira de falsos argumentos idealistas-racionalistas procurou e encontrou argumentos precisamente nesta falta de clareza.

Entre as preocupações que podem ser levantadas contra essa colocação, duas são de natureza fundamental. Elas apontam em direções opostas. Uma visão quer que a realidade se baseie apenas na necessidade, enquanto a outra deixa de lado completamente a necessidade e quer capturar a realidade sem sua influência, como algo indiferente a ela. Essas objeções podem deixar mal-entendidos se não forem refutadas.

Então a necessidade é suficiente por si só para tornar algo real? É bastante comum pensar que, se algo é apenas necessário, então já deve ser real por causa disso. A pressuposição aqui é que a necessidade é mais do que a realidade. No entanto, perceber que algo é necessário é mais do que simplesmente estar presente. Se entendemos que deve ser assim, sabemos que é assim. Existem dois erros nesse pensamento. Em primeiro lugar, não se trata de reconhecimento, mas sim do ser da coisa. E em segundo lugar, isso nem sempre é verdade para o reconhecimento. Na verdade, estamos acostumados a sempre ver as necessidades junto com as possibilidades. Como ambas já estão presentes no ser, isto é, na realidade que conhecemos, a necessidade é vista como mais importante e a possibilidade é negligenciada. Mas se você simplesmente descartar a possibilidade, verá que a realidade também desaparece, pois sua ausência significa que algo não pode ser realmente, apesar de ser exigido pela lógica absoluta. Esse não-poder-ser-real é chamado de impossibilidade. Se existe ou não um caso em que a possibilidade e a necessidade se separam é uma questão diferente. Na verdade, não o encontraremos na teoria ontológica. No entanto, as modalidades se estendem muito além do teórico. E não faltam exemplos desse tipo na prática. Além disso, a estrutura modal da realidade teórica é independente de haver outras coisas em outros lugares.

Uma questão mais séria talvez seja: a necessidade é realmente necessária para produzir realidade? Não pode haver realidade aleatória? Nestas investigações, estamos ainda aquém de todas as influências particulares. Portanto, podemos adotar impiedosamente o ponto de vista do indeterminismo, no qual, se levado a sério, o que é peculiar é que tudo o que é real é aleatório.

É preciso primeiro apresentar uma contra-pergunta a essa questão. A possibilidade por si só aparentemente não é suficiente; ela não é o bastante para a realidade. Então, o que é necessário, além da possibilidade, para tornar a realidade completa? Será o acaso? Mas o que é o acaso no sentido positivo? Na verdade, só o conhecemos como locus logicus ignorantiae. Então, ele é ou o não previsto, ou seja, o imprevisível, porque em suas condições há algo que não é entendido, apenas uma expressão da fato lógico de que há conhecimento da realidade sem o conhecimento da necessidade; do que não se segue, como mostrado, que há realidade sem necessidade. Ou o acaso significa o não intencional, ou seja, o desviante, ou mesmo o sem propósito. Do ponto de vista empírico-prático do sujeito que age e segue propósitos, isso tem seu significado específico, mas limitado. Do ponto de vista ontológico, pode haver uma conexão de necessidade ilimitada por trás disso. – No entanto, se o acaso for realmente considerado estritamente ontológico, como a espontaneidade original, sem conexão, que começa em todo ser e em todo acontecimento, isso atomiza o curso do mundo e transforma seu fluxo unificado em um monte de processos individuais sem relação. É inegável que essa possibilidade existe formalmente, mas ela não ganha atualidade ontológica porque não pode ser conciliada com as grandes relações ontológicas dadas, como o fenômeno do conhecimento, o fenômeno da ação, entre outros. Nem mesmo os metafísicos consideraram o indeterminismo de forma tão extrema.

Uma maneira mais precisa de abordar a questão é considerar o indeterminismo moderado, segundo o qual os eventos do processo mundial são geralmente determinados, mas deixam um certo espaço para a realidade não determinada. Nessa abordagem limitada, mas positiva, o acaso apresenta a imagem característica da tese metafísica: sua existência não pode ser provada nem refutada. No entanto, a questão da realidade modal pode ser formulada de forma a lidar também com o acaso. E aqui, uma simples consideração apriorística mostra que, mesmo neste caso, o princípio da necessidade contida na realidade é justificado. Se A fosse realmente verdadeiro em um momento a, sem ser necessário de forma alguma, então também poderia ser verdade que não-A, ou seja, também poderia ser cancelado e irreal, o que seria contrário não apenas a qualquer sentido ontologicamente sustentável da realidade, mas também ao princípio da contradição. A possibilidade de “poder não-A” é verdadeira apenas no modo da possibilidade, como Aristóteles já mostrou. Mas o que é realmente verdadeiro não pode ser não verdadeiro ao mesmo tempo. Este “não-poder-não-ser” é uma necessidade positiva. Por mais que se possa virar ou revirar esta questão, não se pode ir além do fato de que um momento de necessidade está essencialmente contido na realidade. Se esta última, como o indeterminismo deseja, é “acidental” em certos casos, ou seja, não tem causas e condições em qualquer outro ser além dela, então só podemos buscar as suas razões em si mesma. Se um A real não puder ser diferente de si mesmo, então deve ter a mesma causa em si mesmo e ser causa de si mesmo. Esta consequência ousada é, de fato, encontrada em pensadores indeterministas que, além de sua especulação construtiva, também se esforçaram para determinar o caráter da realidade modal no “acaso” assumido. Porque ontologicamente, além de todas as fórmulas negativas e inúteis do “acaso”, a causa sui é a única possível positiva.

Para a jornada do conhecimento, a realidade é indiscutivelmente a primeira e mais simples, podendo ser talvez considerada como o nível mais baixo de conhecimento (como Fries realmente a entendeu). Pelo menos, nela, é indiscutivelmente que se conhece menos do objeto; somente ao questionar sua possibilidade e necessidade, ou seja, suas condições e razões, é que o conhecimento mergulha nas profundezas do ser. No entanto, a própria existência do objeto mostra uma ordem inversa. Para ele, a realidade não é algo primeiro e simples, mas uma resultante complexa de várias componentes, das quais cada uma significa uma possibilidade de ser ou uma necessidade de ser, mas nenhuma delas, por si só, é suficiente para definir a existência da resultante.

No entanto, não se pode ignorar que, em certo sentido, o objetivo do conhecimento é alcançar a realidade como a mais alta forma, o ápice de seus esforços. A realidade da qual parte é como uma camada superficial da existência, e toda investigação em profundidade, toda reflexão sobre sua possibilidade e necessidade, tem como objetivo uma compreensão mais completa da realidade; esse objetivo, no entanto, é eternamente inatingível, sendo um ideal do conhecimento. Ainda assim, nessa abordagem do conhecimento – que pode ser considerada geralmente como científica – há uma adaptação à ordem ontológica, a ratio essendi. Nessa abordagem também se encontra a consciência filosófica da conexão modal ontológica.

Esta relação pode ser resumida brevemente da seguinte forma: toda a realidade se constrói a partir de condições. Cada uma dessas condições é necessária para que a realidade exista. No entanto, por si só, cada condição representa apenas a possibilidade do condicionado, não sua realidade. Só se torna real quando todas as condições são cumpridas e agem juntas; nesse momento, o condicionado não é apenas possível, mas também necessário. Não pode mais ser evitado; é absolutamente exigido pela totalidade de suas condições. Esse encontro entre possibilidade e necessidade nas condições de uma construção concreta é precisamente o que constitui sua realidade.

Este pensamento já era conhecido por Aristóteles, embora pareça muito mais simples em sua obra. A energia resulta quando a combinação das dinâmicas que vêm de diferentes direções é suficiente. Por exemplo, no caso simples da potência alogica, basta o encontro da dinâmica ativa e passiva para que o evento se torne real. Nesse caso, o elemento da necessidade também se destaca [Aristoteles, Metaphysik © 5, 1048 a 5 ff.]; o encontro das duas possibilidades torna necessário o resultado da energia. Esse pensamento pode ser encontrado latente em muitos pensadores, frequentemente desenvolvido com grande refinamento. Ele pode ser seguido através da crítica da razão pura, em desafio aos postulados do pensamento empírico. Ele está profundamente incorporado na concepção fundamental. Tudo o que é real (factual) é baseado em “condições de possibilidade”; isso se aplica tanto à experiência real quanto ao objeto real da experiência. “Condição de possibilidade” é quase tautológico como um termo: a “possibilidade” do condicionado é apenas a expressão modal do mesmo que é entendido como momento estrutural da “condição”. Portanto, não é por acaso que encontramos na resolução das antinomias a determinação de que na aparência (ou seja, gnoseologicamente), com a dadação do condicionado, a série de condições não é dada, mas no objeto em si (ou seja, ontologicamente) está sim [Kr. d. r. V., 2. Ausg. 526 f.]. Em consonância com isso, está também o axioma: “quodlibet existens est omnimode determinatura*” [B. Erdmann, Reflexionen Kants zur Kr. d. r. V. Nr. 1623.]. Este axioma está longe de ser aplicável apenas no contexto do idealismo transcendental; se fosse possível estabelecer conceitualmente a determinação completa e integral do ens realissimum, ele reabilitaria o argumento ontológico sem dificuldade. A determinação completa e integral, compreendida realiter, ou seja, o encontro da totalidade completa das condições, torna realmente necessária a existência do condicionado.

O condicional, desde que tenha sua existência como um objeto fechado, não apresenta nenhuma possibilidade ou necessidade em sua natureza. Ele pode, por sua vez, tornar outras coisas possíveis ou necessárias. No entanto, todas as possibilidades e necessidades que estão ligadas às suas condições desaparecem na realidade, como se dissolvessem nela. Aqui surge o duplo significado da “supressão” de Hegel: ao desaparecer no objeto superior, a entidade inferior permanece preservada nele. Não desempenha mais um papel independente, mas permanece como condição e sua retirada também suprimiria o objeto superior. Assim, a possibilidade e a necessidade são mantidas na realidade; mas, em sua totalidade, elas se paralisam mutuamente e são eclipsadas por seu resultado total. A possibilidade e a necessidade só surgem de maneira independente onde aparecem isoladas, como na casa das ciências. Aqui, algo pode ser visto como necessário sem que sua possibilidade seja compreendida; da mesma forma, pode-se vislumbrar uma quantidade imensurável de possibilidades sem poder atribuir a elas uma necessidade. E há poucas dúvidas de que esse isolamento de possibilidade e necessidade também tenha um sentido ontológico específico; pense, por exemplo, nas possíveis mundos de Leibniz, que não são necessários, mas onde a necessidade rígida prevaleceria se fossem realizados a partir de algum lugar; ou na antinomia do “ser necessário”, cuja realidade não pode ser provada, pois sua possibilidade não pode ser comprovada na realidade ou fora dela. Isso abre um campo de pesquisa especial sobre a relação entre possibilidade e necessidade. Hoje, os registros ainda estão tão abertos quanto na época de Wolff. Mas aqui estamos lidando exclusivamente com a realidade, não com isso.

O que é peculiar em tudo que é real é que nele possibilidade e necessidade não se separam, mas se sobrepõem completamente. Além dessa afirmação, com os meios apriorísticos-modais não é possível determinar o caráter ontológico da realidade. No mundo real, não há nada necessário que não possa ser possível e nada possível que não seja necessário. Isso ocorre porque há uma única sequência de condições em que ambos estão enraizados. Nessa sequência, o real é cada vez mais possibilitado de etapa em etapa; e quando ela é fechada na totalidade, resulta o “não poder ser diferente”. A partir de níveis mais baixos dessa sequência estrutural, pode muito bem ser necessário outra coisa, como um caráter geral do ser, um gênero, mas não a estrutura completa e concreta. Só em sua totalidade a possibilidade se sobrepõe completamente à necessidade. E isso é o que constitui a realidade. Não há predominância de um sobre o outro na realidade: ambos estão em equilíbrio. E ao manterem esse equilíbrio, eles produzem aquele caráter peculiar de estabilidade e fechamento que distingue o real de toda a oscilação e instabilidade da possibilidade (o ser-e-não-ser simultâneo), bem como do caráter instável e dinâmico da tendência na necessidade. A realidade é como a calma flutuante do todo sobre a agitação tumultuada das partes. A estática resultante frequentemente deu a ela falsamente a aparência de uma maior objetividade. Na verdade, essa unidade em repouso está completamente além de toda a oposição entre subjetivo e objetivo. Ela pode ser tão real em construções de consciência quanto em seres alheios à consciência. Também não significa uma paralisação lógica estrutural nem uma persistência no fluxo real do devir. Este último pertence ao reino do real em toda a sua amplitude. Apenas entendida de forma puramente modal, ela é um equilíbrio estável reunido em uma única unidade.

Sob um ponto de vista teórico, há uma resolução para este equilíbrio da realidade. Isso está na esfera do conhecimento e é conhecido como o método científico. A exploração estrutural do real consiste em encontrar suas razões e condições. Analisa o todo unificado e o expõe a condições isoladas. Cada uma dessas condições só permite a possibilidade do todo concreto; mas estruturalmente, cada uma delas envolve outros elementos de ser (momentos estruturais) com os quais está indissoluvelmente ligada. Assim, a ciência lida com possibilidades e necessidades que surgem aqui, precisamente porque são preparadas a partir de sua conexão concreta e isoladas na abstração.

Nesse processo, a ciência adota uma posição modal peculiar, distinta da ontológica. Se não para o Ser, ao menos para si mesma e para sua metodologia, ela está correta ao estabelecer a necessidade como o mais alto nível e subordinar a realidade a ela. Seu método se baseia no que é efetivo, dado antes da ciência. Nessa percepção da realidade, há um mínimo de compreensão positiva. Ao buscar entender o que é dado, ela escava por necessidades ocultas, conexões e ligações gerais. Através disso, ela compreende o que era incompreensível anteriormente. Assim, a percepção da necessidade deve necessariamente estar acima como um nível mais elevado de conhecimento. Consequentemente, ela também deveria colocar a possibilidade acima da realidade por motivos semelhantes. Isso geralmente não acontece porque, na relação entre possibilidade e realidade, o significado ontológico é mais forte do que nas relações entre ambos e a necessidade. De fato, a distância entre o significado ontológico e gnoseológico na necessidade é muito maior do que nos outros modos. Essa distância é menor na realidade.

IV.
A definição dos modos de ser obtida revela-se produtiva em uma série de questões. Os conceitos modais, ao serem reduzidos à sua base ontológica, tornam-se fluidos e eficientes. Isso é evidente em áreas onde o modo de ser do objeto muda. Tal mudança deve corresponder, evidentemente, a uma reorganização na relação entre os modos. Se os conceitos modais são corretamente definidos, a última deve emergir sem dificuldades a partir deles; se estiverem mal definidos, a nova maneira de ser não pode ser expressa através deles. Assim, na aplicação desses conceitos, obtém-se um critério para a correção da sua definição conceitual.

O objeto ético fornece um exemplo adequado para isso. A especificidade do campo ético está relacionada aos conceitos de valor, propósito, dever e vontade. Os três primeiros conceitos dizem respeito ao objeto, enquanto o último se refere à postura do sujeito. Somente o conceito de dever apresenta uma área vulnerável à questão modal.

O conceito de dever representa o oposto do ser. O objeto teórico é um ser, enquanto o ético é um “dever-ser”. Este último não é realmente um ser. O que deve ser não pode ser real; sua realidade acabaria por anular o dever. Se o ser humano é realmente como ele deve ser eticamente, então ele também não é mais assim; ele simplesmente é. É aqui que surge o problema modal da ética: seu objeto é irreal, está abaixo do objeto teórico em termos de existência, e ainda assim tem um valor de existência, uma reivindicação de realidade. Ele não é utópico, nem impossível, mas de alguma forma atual. Isso se deve ao seu caráter como um “dever-ser”. Ele é exigido. E essa exigência não é um desejo impotente, mas uma força ativa, um princípio que move e cria. Há uma tendência em direção à realização do “dever-ser” – se não diretamente na vontade do sujeito, pelo menos no caráter de dever do próprio objeto, que pode determinar essa vontade. Em resumo, o “dever-ser” já tem em si uma tendência em direção à sua realização.

Isso significa que o objeto ético está livre do mero não ser. Ele não é simplesmente irreal, mas algo entre a irrealidade e a realidade. A tabela ontológica das modalidades agora mostra nos espaços intermediários as etapas da possibilidade e da necessidade. Mas é claro que não se pode equiparar uma dessas etapas com a realização; ambas têm um significado claramente diferente e pertencem a uma esfera de oposição diferente, ambas são indiferentes à realidade, enquanto a realização consiste na tendência em direção a ela. No entanto, é necessário buscar compreender a realização a partir desses dois modos, pois eles são componentes da realidade.

Como é possível determinar a diferença entre realidade e realização com meios puramente modais? Na realidade, necessidade e possibilidade se sobrepõem. Na realização, no entanto, elas aparentemente não se sobrepõem, caso contrário, seu objetivo seria alcançado e seu objeto seria realmente existente. Portanto, elas devem se separar aqui. Por outro lado, elas também não podem se afastar completamente uma da outra, caso contrário, cada reivindicação de realidade seria perdida; também não poderia ser uma tendência ou um grau de realização. Portanto, possibilidade e necessidade devem se sobrepor parcialmente aqui.

Em que direção devemos buscar essa parcialidade: prevalece a possibilidade sobre a necessidade, ou vice-versa? Pense nisso assim: o que se realiza não alcança a realidade; aparentemente, não pode fazê-lo – independentemente das razões para essa incapacidade. Faltam condições, isto é, falta a possibilidade. E onde se trata de ideias éticas (como ideais) que são metas infinitamente distantes, que só podem ser realizadas aproximadamente, a falta de possibilidade não é um especificum de níveis inferiores, mas uma característica essencial do que deve ser realizado. No entanto, é claramente sempre uma falta de possibilidade parcial e nunca total. Todas as etapas de realização alcançadas e alcançáveis têm, “se” são alcançadas, o valor total da realidade.

No entanto, esse déficit parcial de possibilidade não corresponde a uma suspensão parcial de necessidade. A realização considera tudo o que foi alcançado apenas como um degrau para algo mais. Esse “algo mais” é, em última análise, o próprio ser do que deve ser. A essência do dever contém uma tendência, uma pressão, uma necessidade que é justa, mesmo que o objeto dessa necessidade não possa ser realizado. Entendida de forma modal, isso só pode significar uma necessidade do objeto que falta a possibilidade de sua efetivação. O aspecto singular dessa necessidade ética não reside no fato de que modalmente significa algo novo, como uma nova modalidade em geral; sua diferença em relação à necessidade teórico-ontológica reside apenas no fato de que ela, sem consideração à possibilidade, ou seja, às condições reais da realidade do objeto, o define como necessário. Isso não ocorre no ser objetivo; lá, o objeto é necessário apenas quando todas as condições de sua possibilidade são cumpridas. É por isso que não existe um dever no ser objetivo.

A partir daqui, pode ser dada uma definição modal precisa do dever – que, é claro, não é uma definição total, pois isso teria que ser principalmente estrutural. No dever, a possibilidade não se confunde com a necessidade; o equilíbrio estático entre ambos é abolido, estabelecida a inquietação da tendência. E a balança inclina-se para o lado da necessidade; a possibilidade não a equilibra. A necessidade tem a supremacia, a possibilidade fica para trás. O caráter modal do dever é, portanto, nada mais do que a “sobreposição” ou “disparo” da necessidade sobre a possibilidade. Daí explica-se de forma simples e compreensível o valor de realização incompleto: sua flutuação indeterminada entre irrealidade e realidade é baseada no fato de que sua possibilidade de ser fica aquém de sua necessidade de ser.

É possível objetar a essas disposições argumentando que, no caso do dever-ser, não se trata de uma necessidade da mesma forma que no caso do ser. As leis do ser, por exemplo, não têm exceções, elas significam nada além da impossibilidade de ser diferente em todos os casos que se enquadram sob elas. As leis do dever-ser, por outro lado, não têm essa necessidade; os casos especiais entre elas, como as ações, podem variar amplamente. Eles têm apenas uma “coerção”, não uma necessidade.

A objeção se baseia em um mal-entendido. É claro que a necessidade ética é algo diferente da necessidade do ser. Mas essa diferença não reside em sua própria natureza modal, mas em sua relação deslocada com a possibilidade. Se a possibilidade não se aproxima da necessidade, então os casos especiais não podem corresponder à lei. A lei é aqui nada mais do que a forma da face estrutural do necessário; mas o caso especial não pode corresponder a essa forma se faltam as condições de sua possibilidade. Assim, a necessidade se modifica para “coerção” na lei ética, simplesmente porque ela exige mais do que pode acontecer de acordo com as condições dadas [Esta versão é apoiada principalmente pelas determinações de Kant sobre o dever-ser, o dever, a coerção e outras coisas, nas quais ele muitas vezes descreve a incondicionalidade (o caráter categórico da demanda) como necessidade].

Essa relação também se estende ao negativo. Se o dever-ser do ser tem uma necessidade sem levar em conta sua possibilidade de ser, então o não-dever-ser do ser deve ser impossível sem levar em conta sua impossibilidade de ser. Assim como o bem é eticamente necessário, isto é, coercitivo para o ser, o mal é eticamente impossível, isto é, coercitivo para o não-ser. O fato de que o mal não é impossível de ser, na verdade, é bastante real no grande esquema das coisas, não contradiz isso de forma alguma. É simplesmente uma consequência direta do fato de que, no objeto ético, a possibilidade do não-ser fica tão aquém da necessidade do não-ser quanto a possibilidade do ser fica aquém da necessidade do ser.

A mudança no equilíbrio dos componentes do ser e o consequente caráter peculiarmente prático do resultado não beneficia apenas a determinação do dever-ser. Também iluminam toda uma série de outros conceitos éticos, incluindo a natureza do valor e do portador de valor, mas especialmente os fenômenos dinâmicos: atividade, busca, tendência, ação, que destacam a esfera do prático mais claramente em relação à estática da realidade teórica. Sua modalidade é exatamente a do dever-ser. Faz parte da essência de toda atividade que haja uma determinação para algo diferente, novo, que vá além das condições do dado.

No entanto, é muito mais difícil filosoficamente estabelecer uma definição modal-ontológica da liberdade ética a partir das definições existentes. Tal definição não contribui muito para resolver a grande questão sobre se e por que existe liberdade ética; no entanto, ela ajuda a esclarecer a própria natureza da liberdade. Na verdade, não há clareza geral sobre sua essência, especialmente sobre seu modo de ser. No entanto, compreender a natureza da coisa depende não menos do modo de ser do que de seus momentos estruturais.

Normalmente, liberdade é entendida como a possibilidade de agir de uma maneira ou de outra, sem ser impedido por uma necessidade para fazer uma coisa ou outra. Este conceito de liberdade negativa (indefinição) enfrenta, em primeiro lugar, as maiores dificuldades psicológicas e, em segundo lugar, não corresponde nem mesmo à essência do dever, ao qual ele deve ser o indispensável parceiro. Se liberdade significa uma prevalência da possibilidade sobre a necessidade, mas o dever significa uma prevalência da necessidade sobre a possibilidade, então é um absurdo afirmar que a atividade determinada pelo dever é livre. Pelo contrário, ela só pode ser livre se a relação das modalidades no dever e na liberdade for a mesma.

Os éticos que levam o conceito de dever a sério rejeitam fortemente essa liberdade negativa. Novamente, pode-se aprender com Kant a respeito disso. “Liberdade no sentido positivo” não é a liberdade da lei, mas “liberdade sob a lei”. Nela, há não menos determinação do que nos eventos naturais, mas ainda uma determinação a mais, ou seja, a necessidade prática de se cumprir o dever, independentemente da capacidade ou incapacidade de fazê-lo. Aqui, a necessidade natural não é subtraída, mas uma outra necessidade específica e ética é adicionada, cuja diferença estrutural em relação à primeira é que ela não é uma coerção externa, mas uma determinação interna autoimposta, não é uma lei dada, mas uma “legislação” própria.

Portanto, não se trata de uma predominância do poder sobre o dever; não é uma liberdade de possibilidade, não é uma liberdade “de” necessidade. Ela não está em oposição a nenhuma necessidade, mas certamente está em oposição à possibilidade. Ela implica uma exigência que é livre da consideração da possibilidade do que é exigido. É, portanto, se é que há uma liberdade “de” alguma coisa, pelo menos uma liberdade da possibilidade. Em resumo, é a liberdade da necessidade, um disparo livre da necessidade sobre o real cumprido, sem estar vinculado a quaisquer condições.

Essa liberação das condições habilitadoras é, em princípio, absoluta. Os valores éticos obtêm seu poder de determinação do dever a partir de si mesmos, puramente a priori. As condições de sua realização, porém, são de natureza empírica. Essas condições são, em princípio, ignoradas e ultrapassadas. Mas apenas em princípio, não na realização efetiva. Na realização efetiva, as condições são consideradas. Quando as condições não estão presentes, elas precisam ser criadas. O valor absoluto é indiretamente transferido para as condições de sua realização, que recebem o valor dependente do meio. Portanto, a liberdade da necessidade no dever não é “absolutamente” livre; a mera exigência não é suficiente. Ela deve atrair e moldar as possibilidades, deve não apenas guiar, mas também mover a matéria dura da ação humana, fazendo-a rolar ao longo do caminho que foi indicado. Assim, há uma dependência da liberdade da necessidade para a possibilidade atrasada, uma limitação da liberdade ética. Isso não é uma especulação imprudente sobre o impossível, mas uma realização criativa, uma possibilidade ativa que se estende apenas em suas visões mais altas além da possibilidade e da impossibilidade. Isso é o que a posição especial da “Idea do Bem” de Platão significa, que é a única de todas as Ideias que se estende “além do ser em dignidade e poder”.

V.
Agora é natural buscar uma confirmação do conceito modal também no campo estético. O objeto estético também reivindica um valor de realidade específico. No entanto, esse valor é diferente do objeto ético, e é muito mais difícil de compreender devido à natureza mais complexa e menos explorada do problema. Portanto, aqui não será totalmente desenvolvido, mas apenas sugerido como uma tentativa. 

Das objeto estético, como a obra de arte, por exemplo, tem, em primeiro lugar, a plena realidade natural; é formado em e com uma matéria natural e é real com ela. Isso é verdade em várias nuances para todos os tipos de obra de arte e para todos os objetos estéticos em geral. No entanto, o que é peculiar é que não é essa realidade natural que torna o objeto estético algo estético, mas algo diferente que se esconde atrás dela, como uma superfície.

A realização ética ainda tinha tanto em comum com a plena realidade que, pelo menos em tendência, apontava para ela; apenas não podia alcançá-la. Aqui, porém, surge uma modalidade que se coloca em oposição direta à realidade, que também em sua tendência é algo heterogêneo, e que só é alcançada a uma certa distância profunda em relação a ela. Não precisamos investigar estruturalmente como isso pode ser realizado; claramente, ainda existem possibilidades nessa direção que não podem ser vistas de outras perspectivas que não sejam a estética. Para a nossa questão, é suficiente tirar a consequência: o objeto estético, considerado puramente como estético, deve ser ainda mais distante do valor de realidade pleno do que o que deveria ser — como muito bem permanece preso a ele em termos de existência exterior. Isso pode ser resumido na forma de uma proporção: a reivindicação de realidade estética deve estar relacionada à realização, assim como esta está para a realidade. O que, no entanto, não pode ser interpretado matematicamente com precisão.

Não há dúvida de que tanto a possibilidade quanto a necessidade devem estar representadas na reivindicação de realidade do objeto estético; sem uma delas, não haveria reivindicação de realidade alguma. Na plena realidade, havia um equilíbrio entre elas, na realização havia um excesso de necessidade. Assim como o equilíbrio foi eliminado na transição para a realização, o excesso de necessidade também deve ser eliminado na transição para o valor de realidade estético. A questão é apenas para onde a eliminação pode levar. A resposta é simples: há apenas uma única relação combinatória possível entre possibilidade e necessidade: o predomínio da possibilidade sobre a necessidade e o atraso da necessidade em relação a ela.

Nisso, temos em primeiro lugar a inversão exata da relação entre os componentes da realização e, em segundo lugar, a maior distância modal do modo teórico de realidade. Se procurarmos por uma designação viável para esse valor de realidade peculiar, o termo “desrealização” se impõe. Nisso há ambas as coisas: distanciamento da realidade e inversão da realização.

Pode ser questionável se o conceito de desrealização pode ser realizado. Afinal, é fácil ver que ele corresponde bastante bem a certas exigências do problema do objeto estético. Ele não significa “irrealidade”, desconexão de toda realidade, mas apenas a “separação” dela, uma tendência para se afastar dela – para descobrir novas possibilidades irreais, cuja realização não é necessária. Desrealização ainda se mantém em certa base da realidade, que não pode ser perdida. Ela sempre vem de alguma realidade. A altura estética de uma obra de arte geralmente aumenta e diminui com a distância correspondente da realidade natural; mas, apesar de toda a ousadia, ela não pode completamente renunciar à base materna da realidade natural. Nenhum estilo, “forma” ou ideia pode tornar desnecessária a inevitável conexão com o realismo.

Também na esfera estética existe liberdade. No entanto, essa liberdade é algo completamente diferente da liberdade ética. Não é uma liberdade de vontade, mas de criação. Também não é “liberdade para algo” como a ética, nada a obriga; mas apenas “liberdade de algo”. Não há acréscimo de nova necessidade, mas sim uma separação do nexo da necessidade natural; a criação que resulta dessa liberdade não está mais ligada a leis dadas, mas cria suas próprias leis para o objeto, em cada caso. Tudo isso se explica simplesmente pelo caráter modal dessa liberdade: ela não é uma liberdade da necessidade para a possibilidade, mas uma liberdade das possibilidades de toda necessidade.

Por isso, a liberdade estética leva à desrealização e não à realização. A necessidade tende a se manifestar em todas as circunstâncias da realidade, mesmo que não seja possível alcançá-la; as possibilidades isoladas, por outro lado, afastam-se dela. Mas esse nível modal inferior que o objeto estético mostra não é uma desvantagem, nem uma fraqueza da criação que o produz. É justamente por isso que essa criação é uma criação ilimitada, ou seja, absolutamente livre. A ação é sempre uma criação vinculada; ela trabalha em direção à realidade de seu objeto, e como não possui a possibilidade de alcançá-lo, ela permanece diante da tarefa eterna e não vai além dos níveis relativos de realização. A criação estética possui liberdade absoluta. Não precisa trabalhar em direção à realidade de seu objeto; suas possibilidades, portanto, não precisam da necessidade que as realize. Sua tarefa não é eterna. Pode chegar ao objetivo de repente, com um único golpe de sorte, porque esse objetivo, essa realização, não está no domínio do real. Está muito longe disso, no infinito domínio do possível, do irreal, que não é conquistado, mas apenas vislumbrado.

Os objetos éticos e estéticos apresentam modos de ser peculiares que podem ser integrados como modos secundários à tabela dos cinco modos primários. Sua relação com os últimos não pode mais ser obscura após sua análise. Em primeiro lugar, eles pertencem à esfera de oposição entre realidade e irrealidade. Além disso, eles são claramente intermediários em relação a esses dois; preenchem a lacuna entre eles. Nesse processo, a realização se aproxima da realidade, enquanto a desrealização se aproxima da irrealidade; de modo que toda a esfera apresenta uma série fechada de quatro elementos. Finalmente, ao mesmo tempo, os dois elementos intermediários correspondem aproximadamente à altura modal de possibilidade e necessidade na outra esfera. Na verdade, na desrealização, a possibilidade é o elemento predominante, enquanto na realização é a necessidade.

Assim se obtém uma tabela de sete elementos da modalidade, na qual ao mesmo tempo são preformados os modos dominantes das áreas filosóficas. Essa tabela é puramente ontológica no sentido procurado: todos os seus modos são modos de ser do objeto, não graus de certeza do conhecimento. Eles são completamente independentes deste último. Seu sistema, portanto, deve ser considerado como a verdadeira ordem “lógica” dos graus de modalidade, enquanto o clímax dos graus de certeza deve ter um significado “metodológico” meramente subordinado, que não pode ser transferido para os caracteres do ser do objeto. Pelo menos, isso corresponderia à atitude antiga e confiável da lógica em relação ao conteúdo e à sua indiferença em relação ao modo de conhecimento.

Nicolai Hartmann - Realidade Lógica & Ontológica (Logische und ontologische Wirklichkeit, 1915) [Trad. Prof. Ph.B. Isaías Klipp]

Professor | Pesquisador
Fundador do projeto Proscênio Filosófico (2017). É Tradutor de textos filosóficos. Bacharel (2020) e licenciando em Filosofia (2022) pela Universidade de Caxias do Sul, UCS.
isaías klipp
Professor | Pesquisador
Licenciado em Filosofia (2021). É pesquisador na filosofia e obra de Vilém Flusser. Pesquisador voluntário junto ao CNPq, no Observatório de Educação da Universidade de Caxias do Sul, UCS.
luan moraes
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Formação de Sistema e Idealismo – Nicolai Hartmann

Proscênio Filosófico.

Que o Eco das Grandes Obras ressoe em vós!

Formação do Sistema (Systembildung) e o Idealismo | Nicolai Hartmann (1912)

Formação de Sistema e Idealismo (1912) - Nicolai Hartmann

Systembildung und Idealismus

Por Nicolai Hartmann em Marburg (1912).

Os tempos em que se acreditava que problemas fundamentais poderiam ser resolvidos com conceitos fixos e imutáveis ainda não estão muito distantes. Definição era entendida como o processo de fixar e estabilizar conceitos. Quanto mais firme um conceito estivesse, mais seguro parecia ser. Acreditava-se que o sistema filosófico deveria consistir apenas desses membros firmes. E nesta estabilidade, poder-se-ia esperar alcançar o mais alto objetivo da filosofia. Pois a filosofia, como toda ciência, sempre se esforça por estabelecer algo inabalável, e isso parece se expressar diretamente na estabilidade dos conceitos.

O pensamento dogmático em todos os tempos tem pensado dessa maneira. E isso não foi superado até agora, nem a razão humana finita pode jamais escapar completamente disso. A tendência para o seguro e estabelecido deve permanecer. Como tal, ela tem razão de ser. No entanto, é uma questão de uma distinção altamente crítica manter viva a reivindicação de uma tendência e rejeitar a do resultado final. O que aparenta ser estável é sempre o primeiro a cair na luta das opiniões. É uma barreira para o pensamento e, como tal, é arbitrário. Somente onde se lida com a flexibilidade do próprio pensamento, se ganha o que não pode ser derrubado pelas exigências de outras cadeias de problemas. E isso é assim apenas porque é flexível, ou seja, porque pode satisfazer outras demandas de transformação. Assim, o conceito de substância foi ilusório enquanto se o concebeu em oposição ao movimento. A permanência subjacente sempre teve que se levantar repetidamente diante da reivindicação do movimento. Somente onde o movimento é compreendido como algo permanente, a substância ganhou a liberdade de movimento fundamental que lhe assegura a capacidade de adaptação sistemática a novas questões.

O pensamento dogmático de todas as épocas pensou assim. E isso não foi superado até agora, nem a razão humana limitada e finita pode jamais escapar completamente dele. A tendência para o seguro e o estabelecido deve permanecer. Como tal, está certa. Mas é responsabilidade de uma distinção altamente crítica manter viva a reivindicação de uma tendência, mas rejeitar a reivindicação de um resultado acabado. O aparentemente estável é sempre o primeiro a cair na luta das opiniões. É uma barreira ao pensamento e, como tal, é arbitrário. Somente onde se enfrenta a flexibilidade do pensamento em si mesmo, se ganha o que não pode ser derrubado pelas exigências de outras cadeias de problemas. E é tal porque é flexível, isto é, porque pode satisfazer demandas posteriores de transformação. Assim, o conceito de substância era ilusório enquanto era entendido em oposição ao movimento. O que está por trás da persistência tinha que ser sempre negado pelo apelo ao movimento. Somente quando o movimento em si foi entendido como persistente, a substância como conceito fundamental obteve a liberdade de movimento pela qual sua capacidade de adaptação sistemática a novas questões foi garantida. A mesma capacidade de adaptação deve ser própria de todos os conceitos sistemáticos. E isso não é absurdo. O conceito não é algo que se mantém parado e para o que tudo mais fica parado, mas algo móvel, que muda em suas aplicações. Assim, Hermann Cohen diz em sua Lógica do Conhecimento Puro (p. 281 e ss.), onde ele distingue a estrutura do sistema de conceitos da totalidade e do todo, dos elementos do conteúdo do conceito: “Não é necessário tê-los como dados, mas como puramente produzidos e, portanto, variáveis em função. Essa variabilidade é excluída nos elementos; quando eles mudam, os próprios elementos mudam e, portanto, todo o todo.” Nos conceitos, os elementos devem ser variáveis, sem, no entanto, mudar a unidade do todo em sua mobilidade. O verdadeiro conceito lógico deve ser pensado não como estático, mas como dinâmico. Ele é capaz de transformação, de adaptação a tarefas especiais infinitas. Para a formulação e implementação precisas nas ciências teóricas, Ernst Cassirer trouxe essa ideia em sua obra “Conceito de Substância e Conceito de Função”. O conceito como substância é o meio estático de definição dogmática. O conceito como função é o veículo móvel para o pensamento vivo.

Essa consequência de que os conceitos fundamentais da filosofia são unidades funcionais de elementos variáveis ainda não foi suficientemente enfatizada com clareza. No entanto, essa consequência é inevitável e talvez mais importante aqui do que em outros lugares. Mas somente as elaborações sistemáticas podem falar por ela.

Um sistema de categorias que seja fundamentado na lógica sempre terá algo de inacabado, experimental em si mesmo. E isso se deve precisamente ao fato de que ele é fundamentado apenas na lógica. A situação muda apenas quando, ao mesmo tempo, se consideram os problemas não teóricos, ou seja, os problemas éticos, estéticos e psicológicos. Isso pode parecer impossível e inútil à primeira vista. No entanto, essa exigência é tão importante quanto a relação dos conceitos mecânicos com os conceitos matemáticos de um lado, e com os conceitos biológicos do outro. Essa relação não é insignificante para eles. Pelo contrário, sua isolamento na economia especial, do ponto de vista lógico, seria arbitrário e próprio apenas da abstração científica. A amplitude e a capacidade dos conceitos correspondentes só se tornam evidentes quando se integra o problema mecânico com os demais problemas objetivos e se torna possível utilizar seus princípios em problemas mais complexos e variados.

Assim também os problemas lógicos não são em si mesmos algo fechado. O problema das ideias de Kant já mostra a influência de pontos de vista sobreteóricos. Ao mesmo tempo, todo o sistema crítico trabalha continuamente em direção à ética. O que Kant anuncia na segunda introdução à Crítica da Razão Pura é cumprido no campo prático: a ética é possível somente no contexto de um sistema, cujo primeiro elemento (a lógica) estabelece o ponto de vista transcendental. Através desta perspectiva ética, toda a estrutura da filosofia teórica é determinada.
 
Mas se o sistema exige tal conexão, então as categorias individuais não podem permanecer estáticas em sua limitação lógica. Elas próprias devem preparar a transição para a ética, ou seja, devem se tornar móveis na mudança do problema. E essa mudança não afeta apenas a transição para a ética, mas também igualmente a transição para a estética e para a psicologia. Cada conceito fundamental atravessa então toda uma escala de significados diferentes, ou, se preferir, apenas ênfases, em que, no entanto, sua unidade original deve ser preservada e ressoar sem enfraquecimento.
 
Como exemplo, qualquer categoria pode ser utilizada. Até mesmo conceitos simples como unidade e totalidade não apresentam dúvidas quanto à sua plenitude de conteúdo. A ética se concentra inteiramente na correlação entre o indivíduo e a comunidade. A estética considera o indivíduo (a obra de arte) como algo único e insubstituível, mas dentro dele abre-se uma grande variedade de elementos, cuja unidade é derivada de sua integridade, ou seja, de sua totalidade em relação à totalidade. Para a psicologia, cada conteúdo é uma totalidade de momentos psíquicos e, ao mesmo tempo, uma relação de unidade entre eles, embora essa relação seja especificamente diferente da lógica.
 
A mesma coisa é ainda mais evidente no que diz respeito ao espaço e ao tempo; especialmente quando se os coloca em oposição aos extremos do sistema, a lógica e a psicologia. Na lógica, espaço e tempo são conceitos, condições ou leis do objeto em si mesmo. Na psicologia, eles são formas de percepção, ou seja, as condições psicológicas da representação concretamente visualizada. A unidade da imagem, que caracteriza todo o conteúdo do fluxo de representações, depende inteiramente da dimensionalidade visual da consciência. A significância estética de espaço e tempo é intimamente relacionada com esse significado psicológico. Aqui, eles também são condições para a percepção unificada de uma multiplicidade: o tempo para a música e a poesia, o espaço para as artes visuais. A única diferença é que, aqui, a capacidade unificadora da percepção, a capacidade de visualização, é muito mais forte e absoluta do que na percepção psicologicamente entendida e flutuante. É aí que a significância estética de espaço e tempo se aproxima um passo mais da significância lógico-conceitual. A obra de arte também é um objeto e não apenas uma representação de objeto. A ética é o elo de ligação entre a interpretação lógica e estética. No entanto, tanto o espaço quanto o tempo aqui são deslocados para o problema final e, de certa forma, se tornam momentos não essenciais em comparação com a alta abstração da exigência puramente ética. O tempo, em particular, tem uma importância ética específica como uma dimensão da realização. Nesta interpretação, a dupla natureza torna-se clara: de um lado, a infinitude lógica da perspectiva temporal, correspondendo à infinitude da tarefa ética; de outro, a previsão finita da imagem subjetivamente limitada do indivíduo, na qual se baseia a capacidade de antecipação e intenção, mas também a falibilidade até do mais puro dos desejos. Assim, espaço e tempo mudam da lógica para a psicologia, de leis puras para percepções puras. A linha ideal e contínua dessa mudança de significado significaria uma diminuição conceitual e um aumento simultâneo de visualidade.
 
Para mostrar o mesmo em relação a outro grupo de categorias, o conceito de causalidade é retirado. Sua essência lógica é a conexão da lei, de acordo com Cohen o “julgamento da lei”. O caráter de princípio da lei corresponde, no plano teórico, à plena, inabalável, absoluta “legalidade” do objeto. Ambos desaparecem na ética. Aqui não há lei acabada nem legalidade correspondente, mas ambos devem ser criados, é uma tarefa. Em vez das leis dadas, a “legislação” entra em cena. Mas o que é consistente com isso é sempre também algo inconsistente: a legalidade deixa espaço para a ilegalidade. A estética não tem leis conceituais fáceis de compreender. No entanto, elas devem ser pressupostas na obra de arte. O que é compreensível é apenas o que é consistente e legal. Até mesmo o artista criador só pode dar a lei na forma da obra que está sobre ele. Finalmente, na psicologia, nem a lei é compreensível nem o objeto corresponde a ela. O objeto em si é apenas representado por uma imagem mental, e esta tem outras leis do que as do objeto, ou seja, puramente subjetivas (por exemplo, associação) que ocorrem sem a pretensão de objetividade.

Algo semelhante pode ser observado na inércia e na interação. E provavelmente a mudança sistemática mais significativa ocorreria nas categorias de modalidade. No entanto, isso é um capítulo à parte e sua implementação seria equivalente a uma disposição geral do sistema.

Existem, no entanto, além das categorias constitutivas da lógica, uma série de conceitos fundamentais que não pertencem a nenhuma disciplina filosófica em particular, mas que são claramente comuns a todas elas. Entre eles está, por exemplo, o conceito de sistema, cujas variações podem ser vistas como os estágios do pensamento filosófico. Mas também conceitos como princípio (condição de possibilidade), forma e método têm seu lugar aqui. Acima de tudo, no entanto, o que é característico desta esfera sistematicamente geral são uma série de correlações que, cada uma à sua maneira, permeiam e governam todo o sistema, e cuja polaridade oposta abre, de certa forma, as dimensões em que todas as determinações particulares devem ser traçadas.

A oposição entre princípio e objeto (condição e condicionado) forma uma dimensão desse tipo, que é comum a todas as áreas da filosofia, bem como às ciências específicas. A ascensão hipotética e a descida dedutiva movem-se completamente dentro dela. Outras correlações fundamentais de igual importância são: o racional e o irracional, o geral e o individual, o sujeito e o objeto, entre outras. Todas estão interconectadas e são inseparáveis uma da outra. E ainda assim, nenhuma delas se sobrepõe à outra. Suas direções se cruzam em qualquer ponto do sistema.

O par de oposições mencionado por último é o mais fácil de compreender, o mais acessível e instrutivo em suas variações. Eles aparecem em todos os lugares, desde a consideração mais superficial até a mais profunda. O universal e o individual são distribuídos de maneira especialmente clara na cadeia de problemas filosóficos. Eles fornecem o exemplo adequado.

A lógica não abrange o indivíduo em si. Ela e todas as ciências positivas associadas visam o geral, as leis e conceitos de leis. Mesmo o indivíduo biológico é apenas um meio para a pesquisa de características típicas da espécie. A ética, por outro lado, mostra plena igualdade entre o indivíduo e o geral, o ser humano individual e a comunidade. Assim como a comunidade nunca pode ser apenas um meio para os fins do indivíduo, ela também não pode considerar o indivíduo apenas como meio para os seus próprios fins. A comunidade e o indivíduo devem ser simultaneamente meio e fim um para o outro. O geral e o indivíduo são, portanto, igualmente importantes aqui. E na realização deste equilíbrio de valores em questões mais específicas, reside a principal tarefa da ética. Na estética, temos o correspondente exato à lógica. Aqui, toda a ênfase é colocada no indivíduo. A singularidade e irrepetibilidade da obra de arte é esse indivíduo. Mesmo as ideias gerais que a obra de arte expressa não aparecem aqui na forma da generalidade, mas sim na singularidade concreta. É o conceito que não é suficiente aqui. Não ele, mas o seu oposto, o indivíduo, é o método para a compreensão e expressão adequada. Este destaque do indivíduo é superado apenas na psicologia. Aqui, a própria consciência é considerada individual, como uma consciência individual. Enquanto a estética lida com um objeto individual (como uma obra de arte), a psicologia lida com o indivíduo subjetivo. Ela mostra como os conteúdos objetivos se apresentam como objetos do sujeito individual, perdendo em parte sua validade objetiva. A mudança sistemática dos dois conceitos fundamentais é, portanto, feita da seguinte forma: o geral começa com o domínio completo na lógica, diminui constantemente e desaparece na psicologia; o indivíduo, por outro lado, começa com a supressão completa na lógica, mas depois aumenta até o domínio completo na psicologia.

II. 

Uma das questões mais importantes do sistema é a mudança da controversa correlação entre sujeito e objeto. O problema da posição sistemática depende de sua disposição interna, especialmente o problema do idealismo e do realismo – com todas as suas subcategorias. Por mais que se esforce para mover a questão da posição além dessa correlação, como quando o idealismo se baseia na razão ideal ou o realismo na existência inteligível, nunca se pode sair das construções conceituais, cuja atualidade da posição é derivada da antiga interação entre sujeito e objeto.

O idealismo científico tentou sair deste impasse ao substituir o sujeito pela ciência. Esta é supra-individual e, portanto, transcende tudo o que é individual. Mas os limites de tal abstração são rapidamente atingidos. Já na ética, esta abstração é ultrapassada. É precisamente o sujeito individual que deve ser responsável pelo que decorre da sua ação. Portanto, o conceito de sujeito é, no máximo, evitado logicamente, não eticamente; de qualquer forma, não sistematicamente. E o mesmo acontece com o conceito de objeto. Mesmo que seja dissolvido em elementos subjetivos – como o psicologismo propõe – isso não diminui a sua importância. A interioridade subjetiva é ela própria um “objeto para o sujeito”.

Uma visão geral tão fugaz já mostra que a alteração do sujeito e do objeto, que se estende por todos os sistemas, ao mesmo tempo significa uma alteração de idealismo e realismo. Por mais estranho que pareça à primeira vista que o ponto de vista não deva valer uniformemente para o todo, mas deva se deslocar simultaneamente com os conceitos subordinados, é inevitável deixar-se levar por esta consequência, pelo menos por enquanto. Um ponto de vista nunca pode ser fixado à coisa em si mesma. Ele só pode surgir de dentro e fora dela. No entanto, a maioria dos pontos de vista historicamente estabelecidos sofre da falta de terem sido fixados em relação a uma área limitada, para serem posteriormente transferidos para outras áreas para as quais não foram projetados. O materialismo, o empirismo, o sensualismo são pontos de vista que são legítimos dentro do âmbito mais limitado, mas são falsos quando transferidos para toda a filosofia. Se tal restrição não se aplica nem ao realismo nem ao idealismo, ainda assim permanece o fato de que nem todos os subcampos da filosofia têm a mesma relação com eles. Assim como é impossível que o aspecto realista desapareça completamente em qualquer área, também é impossível eliminar o traço de idealidade de qualquer conteúdo. E, no entanto, tanto esse traço quanto essa demanda são totalmente diferentes em diferentes estágios do sistema, e pode-se dizer a priori que a unidade do ponto de vista filosófico, se deve abranger o todo, certamente não pode se resumir em nenhum dos velhos slogans, mas ainda é uma tarefa totalmente procurada e incompleta – talvez até uma tarefa tão eterna quanto a construção do sistema em si.

De qualquer forma, este é o ponto em que a mudança dos conceitos que constroem o sistema se torna frutífera para a questão do ponto de vista na filosofia. Se alguém quiser vê-la como uma discussão da antiga questão do sujeito-objeto, o que corresponderia à disposição sistemática, ou imediatamente como uma discussão da idealidade e realidade, o que então seria uma expressão do interesse do ponto de vista – isso não muda a essência da questão. O que é essencial para a investigação é, antes de mais nada, a conexão entre ambos os problemas, a sua interligação e, especialmente, a dependência do último em relação ao primeiro.

No que diz respeito à parte teórica do sujeito e do objeto, a Antiguidade já criou uma terminologia que captura o problema de forma mais pura do que as descrições modernas: a correlação entre o pensamento e o ser. No entanto, os eleatas, que criaram esses conceitos, resolveram rapidamente a questão: o pensamento e o ser excluem qualquer outra relação entre si de forma princípio, pois são imediatamente idênticos. Mas isso apenas corta o nó górdio do problema do conhecimento, não o resolve. O conceito de conhecimento exige precisamente a diferença entre o pensamento e o ser. Conhecer não significa simplesmente pensar, mas sim apreender algo pensando. O que é apreendido não pode ser idêntico ao ato de apreensão em si. E, no entanto, a antiga identidade deve conter algo correto, pois ela corresponde a uma determinada exigência do problema do conhecimento: se nada é idêntico no pensamento e no ser, então o conhecimento é impossível. Nesse caso, surge a dúvida cartesiana de se não há um Deus malévolo que intencionalmente configurou a razão de tal forma que ela deve reconhecer erroneamente.

A solução clássica para esta questão foi dada por Kant. Para ele, o conhecimento só é possível se houver algo idêntico no pensamento e no ser. No entanto, esse idêntico não é o objeto completo com suas infinitas determinações. Esse objeto total está sempre além do que é conhecido. Ele é um “x”, um desconhecido eterno e, nesse sentido, irracional. Essa transcendência do objeto completo é essencial para o conceito de conhecimento. Caso contrário, o conhecimento não teria progresso, não teria dinamismo; seus problemas seriam exaustíveis. Essa não identidade necessária entre pensamento e ser diz respeito à plenitude do objeto. Por outro lado, o idêntico deve estar em outra coisa, e esse algo deve manter a não identidade do objeto para pensamento e ser. O idêntico só pode estar nos princípios. E é fácil ver que essa é a condição sob a qual pode haver conhecimento. Pois se os princípios do conhecimento forem diferentes dos princípios do ser, então o conhecimento não pode ser verdadeiro. Isso é o que Kant expressa no princípio mais alto: as condições da possibilidade da experiência são também as condições da possibilidade dos objetos da experiência. Aqui temos a restrição crítica da identidade antiga – pois a experiência é pensamento, e o objeto é ser -: não são o pensamento e o ser em geral que são idênticos, mas apenas seus princípios. Essa identidade limitada é a formulação precisa daquela condição sob a qual pode haver conhecimento do objeto.

Se o pensamento e o ser são idênticos em princípio, então eles também devem ser indiferentes em princípio. Isso significa que a lógica deve ser indiferente ao idealismo e ao realismo. Ela não pode ser nenhum dos dois, pois deve ser ambos ao mesmo tempo. Em todas as circunstâncias, ela deve justificar a realidade empírica dos objetos. E se ela fizer isso, como em Kant, por meio de um idealismo dos princípios, isso não pode de forma alguma ser um idealismo da consciência, nem subjetivo nem egocêntrico. Deve ser um idealismo supra-individual, um da “razão em geral”, em oposição à razão individual humana. Esse idealismo se refere, na verdade, não mais à consciência em si, mas a uma unidade muito mais elevada que está acima de toda consciência e que só pode ser representada figurativamente pelos conceitos que foram originalmente criados para a consciência. Falar de um eu ou sujeito transcendental, ou colocar a unidade dos princípios em uma “apercepção”, é, portanto, um procedimento que não pode deixar de ser ambíguo. A terminologia sempre leva a entender a subjetividade por baixo. Como a ambiguidade no conceito kantiano de sujeito originou-se exatamente desta fonte de erro. No nível do conhecimento científico ou ideal, não pode haver um análogo do sujeito. Aqui, só existe o objeto, e como objeto ideal, não como objeto de experiência limitada, mas como objeto de “possível experiência”, isto é, expressamente de uma que nunca se torna real em nenhuma consciência. E a verdadeira “unidade sintética” dessa objetividade pura não pode mais ser uma unidade de apercepção, mas deve ser uma “unidade objetiva”, não importa quão ideal ela possa parecer em relação ao sujeito cognoscente. Sua verdadeira função lógica é ser o ponto de referência unificado de todas as determinações e relações objetivas.

Isso é o que mantém o idealismo aqui, no isolado lógico, de certa forma ainda abaixo do limiar da problemática atual. O idealismo não poderia significar nada além da possibilidade de tornar todos os determinantes objetivos inordenáveis em um ideal.

Isso é o que mantém o idealismo aqui, no isolado lógico, de certa forma ainda abaixo do limiar da problemática atual. Idealismo aqui não poderia significar nada além da possibilidade de tornar todas as determinações objetivas inordenáveis em um ideal, como a razão científica, por exemplo. No entanto, atualizá-lo como tal não é uma necessidade aqui. A lógica pode ser realizada sem problemas como um realismo completo – no sentido óbvio de que não pode haver determinações de objetos que não sejam puras. Que essas determinações e todo o realismo possam, por sua vez, se encaixar em um idealismo mais elevado não é o lugar sistemático da lógica. Ela deve ser a lógica do ser. A abstração de toda subjetividade é sua virtude, sua fronteira problemática. Mas em relação ao conceito lógico do conhecimento, este não está vinculado a nenhum ponto de vista. Ele não é um conceito de ponto de vista. Dificilmente pode haver uma determinação positiva para ele que vá além da formulação kantiana da identidade, o “princípio supremo”. Os princípios devem ser os mesmos no objeto entendido em um sentido amplo, como no sujeito entendido em um sentido amplo. Se esta condição for cumprida, então pode haver conhecimento.

Esta fórmula deve ser mantida livre de qualquer interpretação metafísica e de exagero de conteúdo. Ela não coincide com a exigência muito mais exigente de Schelling, que simplesmente a tornou uma identidade entre sujeito e objeto, nem com a identidade de substância e sujeito de Hegel. Estes últimos envolvem imediatamente a decisão prévia do ponto de vista, especificamente o idealismo absoluto. A vantagem da simples identidade dos princípios é que nada é decidido ou estabelecido como ponto de vista, mas sim todas as interpretações de ponto de vista são mantidas abertas.

De fato, o princípio supremo de Kant é tal que qualquer ponto de vista pode admiti-lo, e na verdade deve necessariamente fazê-lo; pois cada um o pressupõe como indispensável ao enfrentar o problema do conhecimento. Para os princípios, é indiferente se são estabelecidos como princípios ideais ou reais. O importante para o conceito de conhecimento é que eles são simultaneamente princípios do pensamento e do ser. Se se considera com Platão que eles são um ser de ordem superior (ὄντως ὄν – de fato, na verdade, ou de fato sendo), ao qual se equipara um conhecimento de ordem superior; ou se se os coloca dentro da ratio sufficiens com Leibniz, que é ao mesmo tempo a base real e a base do conhecimento; ou finalmente, se se busca por eles em uma apreensão transcendental de Kant, que só pode garantir um ser no pensamento, isso certamente constitui as maiores contraposições do ponto de vista filosófico. Mas isso não desloca mais o conceito de conhecimento formulado puramente teoricamente.

III.
No entanto, isso muda assim que se desloca a questão. A transição para a ética atualiza a questão do ponto de vista. É o problema central da ética, o problema da liberdade, que a eleva à instância decisória.
 
Para antecipar o assunto de imediato: nenhum sistema não idealista pode sequer colocar o problema da liberdade como “liberdade da vontade”, muito menos resolvê-lo. Claro, pode-se duvidar e negar a liberdade desde o início e, assim, lançar dúvidas sobre a ética em geral. Mas essa dúvida está no mesmo nível daquela que permanece sempre possível na lógica e que não exprime senão o fato evidente de que não temos critérios absolutos para saber se existe ou não conhecimento do objeto. Assim como tal ceticismo não isenta a lógica de sua obrigação de investigar as condições sob as quais o conhecimento seria possível, também não pode retirar da ética sua tarefa de determinar as condições sob as quais pode haver livre arbítrio.

Nesse contexto, a relação entre sujeito e objeto se desloca. O objeto não é mais algo diferente e separado do sujeito. Na ética, o objeto é precisamente o sujeito (de acordo com Fichte); seu tema é o ser humano (Cohen). Portanto, o princípio ético deve ser imanente a esse sujeito. Sendo um princípio do objeto, ele também deve ser um princípio do sujeito. A identidade retorna.

Assim como no Ser e Pensar Lógico, no Dever e Querer Ético eles se confrontam. E assim como lá, estes dois devem ser idênticos não nos objetos, mas apenas no princípio. O Dever é a expressão de uma exigência fundamental, e objetivamente necessária. Se esta não estiver contida no próprio Querer, então é essencial para a Ética transferir o princípio para dentro do sujeito. Deve ser um princípio de consciência. É nisso que os caminhos da Ética e da Lógica se separam. A Ética deve colocar o sujeito acima do objeto. Sua questão fundamental está ligada à idealidade do princípio objetivo. Em resumo: ela deve ser Idealismo. Se o Dever não surge de dentro, mas é imposto de fora, então o Querer é não livre, e o Dever significa heteronomia. A autonomia e a liberdade da vontade estão, portanto, condicionadas à presença do Dever dentro do Querer. Mas o Querer é o lado ético do sujeito, da consciência.

A história da ética mostra com uma clareza que se aproxima de uma argumentação sistemática que todos os sistemas deterministas colocam o que determina a vontade em algo fora da vontade e da consciência. Não importa se esse exterior é uma existência natural no sentido do materialismo ou a existência de uma substância superior no sentido de Spinoza. Em qualquer caso, é algo que pertence ao objeto como tal, em contraste com o sujeito. E essa superioridade do objeto é o que torna a vontade não livre e o determinismo possível. Isso torna a ética verdadeira impossível. No entanto, nessa direção, a ética ainda enfrenta menos perigos. Sistemas desse tipo pelo menos rejeitam abertamente a liberdade de vontade e não reivindicam competir com ela. Os perigos mais graves estão na direção oposta: no exagero do idealismo.

Os representantes históricos desta corrente são Fichte e Schelling. Aqui é afirmada e defendida a liberdade da vontade. Mas o que aconteceu com ela! O que determina a vontade não é colocado na própria vontade, não na consciência, mas em uma atividade do sujeito que a dirige, mas não se torna consciente. Onde essa atividade entra na consciência e “se torna consciente”, já está determinada. Ela traz sua diretriz específica. E a consciência não tem outra escolha senão segui-la. No entanto, a consciência em si mesma não percebe essa determinação da direção da vontade que surge nela e, portanto, considera sua vontade como livre. Assim, surge uma consciência da liberdade, mas não uma liberdade da consciência; e, portanto, nenhuma liberdade da vontade. A liberdade claramente cai aqui em um fundo inconsciente da consciência. E, consequentemente, essa consciência de liberdade é apenas uma ilusão de liberdade. Como Schelling fala diretamente de “liberdade aparente”. Se agora se interpreta retrospectivamente esse fundo da consciência como razão absoluta ou não, isso não muda nada na questão. Pelo menos nada para a ética. Portanto, não é correto rotular esses sistemas como idealismo. Eles não são idealismo no sentido próprio. Esse consiste em buscar os princípios em si mesmos na consciência. É claro que eles também são colocados em uma razão aqui. Mas não é a razão humana, mas uma absoluta. No entanto, o idealismo da razão absoluta, ou o “idealismo absoluto”, já não pode mais ser distinguido do realismo do ser absoluto. Fichte ainda não percebe essa conexão. Ele acredita que, com a “atividade pura”, ainda está continuando o pensamento da autonomia. Com Schelling, a consequência é reconhecida: a liberdade é apenas uma ilusão. A consequência lógica é dada por Hegel. Ele não tem mais ética. O panteísmo a engoliu.

As duas direções extremas se opõem: o materialismo (ou realismo em geral) e o idealismo absoluto. Ambos têm em comum que não atendem ao problema da ética. O realismo procura a determinação da vontade “neste” lado da consciência, enquanto o idealismo absoluto a procura “além” da consciência. Nenhum deles encontra a ética onde ela é exigida, ou seja, “na” consciência. Mas apenas neste último caso pode-se falar de liberdade. A liberdade deve ser necessariamente a liberdade da consciência. Assim, a única posição que pode garantir a liberdade da vontade é aquela que deduz tudo da própria consciência: o idealismo entendido em seu sentido próprio.

Portanto, Kant é o único na lista dos grandes construtores de sistemas desde Spinoza até Hegel, que realmente foi capaz de fundamentar a liberdade da vontade. A “autonomia” aqui não é a de um supraconsciente, nem a de um subconsciente, mas sim a do próprio consciente. A própria razão, como prática (não como absoluta), é o que determina, o que legisla. E uma vez que ela não dá sua lei a ninguém além de si mesma, é auto-legislação. Se quisermos expressar isso de outra maneira, podemos dizer que o númeno (coisa em si) não está fora ou atrás do consciente, mas sim que o próprio consciente, como razão prática, é o númeno. Assim, a exigência se torna verdadeira: o princípio da ética – a lei moral – é, como princípio subjetivo, também um princípio objetivo. O objeto da ética é o homem, o sujeito; e ao determinar o princípio deste “sujeito-objeto”, ele é, ao mesmo tempo, colocado em nenhum outro lugar senão no sujeito. Portanto, o objeto tomado como sujeito é um que se determina a si mesmo.

No mesmo sentido, a identidade exigida entre Dever e Vontade é aplicável aqui. O Dever não surge em nenhum outro lugar senão na Vontade. É a expressão pura do conteúdo da própria Vontade. No entanto, essa inclusão do Dever na Vontade é válida apenas “em princípio”. A lei moral é o conteúdo tanto do Dever quanto da Vontade. Mas isso se aplica a ambos apenas ao princípio, não à execução. O que o sujeito racional “em geral” (ou seja, em princípio) quer coincide com o que é “em geral” (em princípio) exigido dele; mas não o que ele deseja especificamente, com o que é especificamente exigido dele. Surge uma estrita analogia com a lógica. O Dever e a Vontade estão na mesma relação de identidade que o Pensamento e o Ser. Apenas o princípio é idêntico neles, não o objeto. O objeto do Dever é um ideal eterno, eternamente não existente e irreal. Já o da Vontade, como o empírico, é sempre uma realização, uma redução desse ideal.

A identidade no princípio corresponde, portanto, de maneira mais clara à não identidade nos objetos. No entanto, é importante observar duas coisas aqui, o que faz a diferença em relação ao aspecto teórico.

Primeiro, aqui a atualidade da não identidade é completamente diferente do que no âmbito lógico. Enquanto no último ela significava apenas uma falta de acabamento, imperfeição, em suma, uma fraqueza da consciência cognitiva, para a ética ela é um elemento essencial de conteúdo. É exatamente isso que cria a distância entre o dever-ser e o ser, que tende, aspira, progride e, assim, é capaz de ser o princípio de uma vontade. A ausência (o “não-ter” de Platão) e a falta de identidade com o dever-ser mantêm a atividade viva. Aqui, no problema da implementação, pode-se até falar de uma antinomia entre o dever-ser e o querer-ser. Isso coincide com a antinomia entre vontade pura e empírica.

Segundo, aqui também a identidade tem uma natureza diferente. A identidade lógica dos princípios era a formulação simples da condição sob a qual pode haver conhecimento. Como tal, era completamente indiferente à interpretação dos pontos de vista. Mas é diferente aqui. A identidade ética do princípio de dever-ser e querer-ser é a condição da liberdade da vontade. Assim, o conceito de identidade é deslocado. Aqui, ele não é mais indiferente à diversidade de pontos de vista. Uma segunda condição deve ser adicionada a ele. Esta é a idealidade do princípio. A identidade é a condição suficiente da liberdade somente quando entendida no sentido do idealismo. Não é suficiente determinar a vontade no dever-ser, por exemplo, como sua função parcial. Isso pode resultar em atividade livre antes da vontade, bem como a aparência de liberdade na consciência, mas não na liberdade da vontade em si. Isso só é alcançado se, ao contrário, procurarmos o dever-ser no querer-ser, o encontrarmos nele mesmo como sua autonomia, como a lei auto-gerada e autoimposta do querer e justificá-lo. No entanto, esse ponto de vista é o idealismo.

Assim, a identidade ética fundamenta a liberdade da vontade somente como uma identidade idealista. E supondo que ela se prove necessária a partir do fato do problema ético, como contrapartida à indiferença lógica, seu corretivo é a posteriori a sua interpretação a partir do ponto de vista específico.

IV.

A estética é a área mais difícil de entender a partir de um ponto de vista específico. Ela requer uma série de novas relações entre sujeito e objeto, mas não oferece os meios para sua compreensão conceitual. A subjetividade estética envolve todas as outras formas de subjetividade. Ela é tanto conhecimento quanto vontade. No entanto, vista com mais atenção, ela não se confunde com nenhuma dessas formas. Ela é uma terceira coisa, uma nova marca de subjetividade, para a qual não é fácil encontrar um conceito unificador. Nela, julgamento e criação ocorrem simultaneamente; no entanto, o aspecto imediato que a diferencia de outros fenômenos da consciência é claramente um elemento de sentimento. No entanto, é difícil atribuir a vastidão de conteúdo do estético somente ao sentimento como tal.

E igualmente incrível é o objeto estético. Ele é tanto Ser quanto Dever, ele une ambos (Cohen). E ainda assim, como tal, não é nenhum dos dois. É mais do que eles. Mas o que é esse “mais”? Onde está? É muito fácil substituir isso por alguma forma empírica da Estética, como a obra de arte. Mas isso é apenas um exemplo. O mundo estético é muito mais amplo do que o da criação consciente de arte. Ele abrange toda a natureza e a mente com todos os seus ramos e formas de aparência. Na verdade, pode-se dizer que não há nada que não tenha um lado estético ao lado de seu lado teórico e prático. A obra de arte é apenas o representante típico do objeto estético, porque nela o estético é conscientemente destacado e feito como único propósito.

Como o subjetivo estético se relaciona com o seu objeto? Existe um ponto de identidade aqui também? Por exemplo, um princípio? Isso está relacionado com a questão do ponto de vista. Mas aqui começa a grande diferença em relação ao ético e ao lógico: é difícil falar de um princípio da Estética, pois não conhecemos tal princípio. E é peculiar à Estética que não possamos conhecê-lo. Podemos compreender as leis apenas na forma de universalidade e conceito. Mas as leis estéticas são individuais, ou seja, cada objeto estético tem sua própria lei particular, que não pode coincidir com a de outro. O objeto estético em si é algo individual, único – não como uma coisa, como um ser, mas especificamente como um objeto estético. Sua individualidade não pode, portanto, ser atribuída apenas ao aqui e agora, como o princípio teórico da individuação. Deve estar contida na complexidade da própria lei. Isso, porém, deve ser necessariamente extremamente complexo. Assim, sua peculiaridade como lei não é, de forma alguma, reconhecível.

Aqui reside o motivo da tese kantiana de que não há lei objetiva na estética. Essa tese não significa que o Belo não tenha nenhuma lei objetiva, mas apenas que a consciência não consegue alcançar o conhecimento dessa lei. Ela tem apenas seu princípio subjetivo de julgamento, que se manifesta puramente em seus sentimentos. O princípio objetivo permanece oculto, assim como a totalidade das condições do objeto teórico. A diferença é que, no último caso, mesmo a menor fração dessa totalidade pode levar ao conhecimento da lei (ainda que de forma incompleta), enquanto no objeto estético não; pois a lei deste último tem sua essência exatamente na complicação específica de seus momentos. É uma lei infinita, individual, irracional.

Se aplicarmos isso à pergunta de sujeito-objeto, podemos ver que é impossível falar de uma identidade de princípios aqui. No entanto, a razão para isso não pode ser simplesmente que os princípios objetivos não são compreensíveis. Isso também pode ser dito em certa medida sobre os princípios lógicos. Eles também são sempre aproximadamente determinados pelos conceitos que usamos para compreendê-los. No entanto, a inacessibilidade lá é completamente diferente do que aqui. Lá, o meio de conhecimento, o conceito, é homogêneo aos princípios buscados. Ele é a mesma generalidade que eles. Daí a aproximação progressiva. Daí também que a condição do conhecimento objetivo pode ser procurada na mesma direção que os princípios do ser, ou seja, por fim em uma identidade com eles. Na estética, por outro lado, não há nada do lado do sujeito que se aproxime do conhecimento de princípios. Todas as tentativas desse tipo de aproximação são secundárias e não mais de natureza estética, mas teórica. Elas não pertencem à criação artística, mas à teoria da arte. Além disso, elas não chegam aos verdadeiros princípios estéticos e individuais, mas apenas aos princípios gerais. Entre estes e aqueles, no entanto, permanece eternamente a lacuna que separa a teoria e a criação artística. Deve-se, portanto, assumir que as leis subjetivas da percepção estética não são idênticas às do objeto estético. Pelo menos, não há consciência real de leis estéticas no processo estético, nem sequer há qualquer indício disso. A percepção estética surge completamente sem o conhecimento de leis, até mesmo em oposição a elas. Portanto, pelo menos há a possibilidade de que as condições subjetivas sejam totalmente diferentes das objetivas.

No entanto, deve haver algum ponto de identidade aqui também. Caso contrário, o julgamento estético não teria relação com o objeto sobre o qual está julgando. Isso tornaria ilusória a reivindicação de universalidade que cada julgamento estético faz. Mas onde está a identidade, se ela não pode estar nos princípios? Só resta uma possibilidade: ela deve estar no objeto em si, no concreto estético.

Parece quase impossível buscar uma relação de sujeito e objeto nos objetos que não possa ser explicada pelos princípios. No entanto, é apenas o pensamento teórico que se rebela contra essa consequência porque é conceitual. O conhecimento estético, por outro lado, é intuitivo; é o típico ininteligível, uma consciência objetiva que não se decompõe, que não dá conta de razões e condições. Para ela, o concreto completo, toda a plenitude de conteúdo, é dada na unidade de uma visão. E só essa unidade de visão também torna possível a absolutidade, ou seja, a singularidade do julgamento emocional que não pode ser perturbada por quaisquer critérios secundários e mentais. A conhecida impossibilidade de justificar um julgamento estético conceitualmente coincide completamente com a impossibilidade de explicar a riqueza de uma intuição estética. É a enorme superioridade de conteúdo da visão intuitiva sobre todo conhecimento mental que permite reconhecer a incomensurabilidade completa da posição teórica e estética do sujeito em relação ao objeto. A primeira é um conhecimento parcial, a última é um conhecimento completo. Mas o conhecimento completo é a identidade do conteúdo da consciência e do objeto, do sujeito e do objeto. Isso não é uma contradição ao princípio da eterna imperfeição do nosso conhecimento da natureza. Porque o objeto estético não é uma coisa natural. E mesmo que esteja ligado à natureza com sua concretude, o que o torna verdadeiramente estético nunca é idêntico ao que o tornaria um objeto científico.

Assim, torna-se “possível” que o objeto estético não seja mais do que o conteúdo da percepção. No entanto, essa dissolução completa também é “necessária” no contexto estético, porque a percepção estética caracteriza não apenas a atitude consciente do observador, mas também a do criador. Mas o criador só gera o objeto estético através de sua atividade consciente. Consequentemente, o objeto estético não pode conter mais do que a concepção artística, que é a percepção estética original, quando é criado como obra de arte em suas mãos.

Agora resta saber como a identidade estética se relaciona com a identidade lógica e ética, e quais consequências surgem dela para a questão do ponto de vista. A identidade lógica era indiferente ao idealismo e ao realismo; a identidade ética só poderia ser suficiente como idealidade para o problema. A identidade estética aparentemente compartilha o caráter de indiferença da identidade lógica, por mais diferente que possa ser dela em termos de conteúdo. Se o que determina o julgamento de gosto está no objeto ou no sujeito, é completamente irrelevante para a formação do julgamento, assim como para a sua independência do julgamento teórico e moral. O importante aqui é apenas que haja uma identidade ocorrendo, e isso ocorre no concreto completo, não no princípio. A liberdade de criação, que se fala na estética, significa apenas a independência da concepção intuitiva em relação ao conhecimento lógico-ético, mas não significa a imposição da lei pela consciência, como no Ético. A própria lei permanece escondida aqui. Mesmo o artista nunca dá a lei em si, mas apenas o objeto estético – diretamente, sem prestar contas sobre suas condições. O princípio nunca aparece de outra forma que não seja no concreto. No entanto, apenas a liberdade consciente que implica na imposição da lei é necessariamente idealista.

V.

Agora seria necessário considerar a posição da psicologia em relação ao sujeito e ao objeto. No entanto, essa exigência deixa pouco espaço para manobra, uma vez que a psicologia lida explicitamente com a consciência como tal, portanto, não sai da consideração da subjetividade. Portanto, não pode haver uma relação real com o objeto aqui. A psicologia lida com a experiência como tal, com o conteúdo subjetivo – independentemente de se ele tem ou não pretensões de objetividade, ou seja, se representa ou não uma situação lógico-científica, por exemplo. Na verdade, isso nunca representa tal situação, ou seja, nunca pura, nunca em sua singularidade e rigor.

Por natureza, aqui existe uma total não identidade entre sujeito e objeto. A sensação, percepção, imaginação e opinião são totalmente incomparáveis com os objetos lógicos. Mas, por outro lado, surge uma total identidade em relação ao objeto psicológico, em vez do objeto lógico. Esse objeto não sai da subjetividade. É o conteúdo do sujeito como tal. É, como Lipps diz, o que a consciência considera ou, melhor dizendo, acredita ser seu objeto – portanto, completamente seu produto, sua propriedade.

O último ponto de vista, o psicológico imanente, poderia talvez ser chamado de idealismo puro e total, se não fosse tão completamente vazio e tautológico. Nele, a identidade é realizada tanto nos princípios quanto nos objetos. Mas ela é insignificante, pois é um mero idem per idem. Portanto, isso também não envolve um idealismo subjetivo, assim como não se pode dizer que a total não identidade do conteúdo subjetivo psicológico e do objeto lógico envolve o realismo lógico. A psicologia é completamente desprovida de posição, ou indiferente à interpretação posicional de acordo com toda a sua posição consciente imanente.

Ao analisar a evolução completa da pergunta sujeito-objeto, é fácil perceber que a lógica e a psicologia estão estritamente relacionadas entre si. Por um lado, elas representam extremos e, como tal, são polares uma em relação à outra. Por outro lado, elas estão relacionadas entre si pelo caráter da imanência de ponto de vista. A lógica pura considera apenas o objeto em si, sem recorrer ao próprio sujeito. A psicologia trata da subjetividade puramente em si mesma, sem considerar a relação com o objeto lógico real. Ambas, portanto, carecem da atualidade da relação entre sujeito e objeto. No entanto, apenas ao atualizar essa relação reside a questão de ponto de vista do idealismo e do realismo. Não é surpreendente que a lógica e a psicologia sejam bastante indiferentes às contradições de ponto de vista.

A estética é o correspondente exato a esta teoria do conhecimento. O que eles têm em comum é que também na estética a relação entre sujeito e objeto é essencial e leva a uma identidade que é indiferente de forma exatamente igual à da teoria do conhecimento. A diferença, no entanto, é que aqui a identidade não diz respeito aos princípios, mas sim à coisa concreta que repousa sobre eles. Os extremos opostos do tipo de conhecimento, o conceitual e o intuitivo, têm seu ponto de contato aqui. E em certo sentido, isso não acontece “apesar” da oposição, mas diretamente “através” dela. Em contraste, o elo médio entre esses dois opostos que se tocam é a ética.

A abordagem da questão do idealismo permite uma disposição diferente daquela que o sistema mostra com base em suas considerações de conteúdo. Em sua posição em relação à questão do sujeito e do objeto, a estética e a teoria do conhecimento formam novamente uma unidade superior, a unidade daquela indiferença que permite qualquer ponto de vista (pelo menos em princípio). Em contraste, a ética é o ponto do sistema onde essa indiferença é superada. A ética contém o único problema em que os pontos de vista se dividem em suficientes e insuficientes: o problema da liberdade. O idealismo é capaz de fundamentar a liberdade da vontade, o realismo não.

E este único ponto do sistema seria suficiente para determinar uniformemente o ponto de vista de todo o sistema. Não há resistência por parte das outras disciplinas em relação à determinação que ele dá; isso significa precisamente que elas são indiferentes. No entanto, não se deve esquecer que essa decisão é eternamente hipotética. Pois o problema ético em si é eternamente não resolvido. A questão é: liberdade ou falta de liberdade, depende de outras considerações além do ponto de vista. Enquanto não houver certeza sobre isso, a questão do ponto de vista da filosofia deve permanecer não resolvida e aberta a futuras evoluções. Assim, ela compartilha o destino geral de todos os problemas fundamentais sistemáticos. Nunca está concluída e pronta, e as determinações que são possíveis nela nunca devem ser simplesmente presumidas e aceitas. Elas devem ser investigadas e obtidas novamente em cada novo problema.

Nicolai Hartmann - Formação do Sistema e o Idealismo (Systembildung und Idealismus, Marburg, 1912) [Trad. Prof. Ph.B. Isaías Klipp]

Professor | Pesquisador
Fundador do projeto Proscênio Filosófico (2017). É Tradutor de textos filosóficos. Bacharel (2020) e licenciando em Filosofia (2022) pela Universidade de Caxias do Sul, UCS.
isaías klipp
Professor | Pesquisador
Licenciado em Filosofia (2021). É pesquisador na filosofia e obra de Vilém Flusser. Pesquisador voluntário junto ao CNPq, no Observatório de Educação da Universidade de Caxias do Sul, UCS.
luan moraes
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